Como é tentar se matar e falhar

No dia 7 de abril de 2017 eu tentei me matar. Obviamente, falhei. Escrevo esta introdução, assim como as próximas notas, da clínica psiquiátrica para onde minha família me encaminhou logo após o incidente, por orientação médica.

As razões para escrever o que virá a seguir são simples para mim. Vou listá-las com a expectativa de que você as julgue razoáveis. Caso não tenha disposição para ler tudo, aqui vai um resumo: mais que qualquer outra coisa, escrevo para mim mesmo e compartilhar me parece certo.

Por que escrevo sobre a minha tentativa de suicídio e o que veio depois?

  1. Me ajuda e entender o que aconteceu. Acredite ou não, suicídio é um monstro misterioso até para os que o olham de frente. Eu sei porque o fiz e, neste instante, me encontro cercado de outras pessoas que fizeram o mesmo. recapitular estes fatos e prosseguir com a história me ajuda a fazer sentido das coisas. Quem sabe não ajude a mim e a outros em tempos difíceis.
  2. Me ajuda a lidar com a dor. Sim, a mesma dor que eventualmente me fez tomar a medida mais drástica. Ela continua aqui. Me rondando. Apesar de estar longe de aprender a domesticá-la, já fui avisado, por profissionais, de que suprimí-la (meu padrão), não é a melhor saída.
  3. Mantém informadas as pessoas que se importam. Mantém todo mundo informado, é bem verdade. Mas aqueles que se importam, eu sei, lerão cada palavra. é uma maneira de ficar perto deles e, se quiserem, ficarem perto de mim.
  4. É uma maneira de documentar um momento decisivo da minha vida. Sou péssimo em preservar minha própria história. Uma segunda chance pra viver me parece a oportunidade ideal de começar.
  5. Compartilhar me ajuda a sentir menos só. Porque eu vou te contar. Me sinto só pra caramba nesse momento. Esta é a mais dolorosa e solitária jornada da minha vida. Passou o dia com vontade de chorar. Choro copiosamente em boa parte do tempo. Dito isto, não me entenda mal. Recebi apoio de gente de alguns cantos do mundo. Amigos verdadeiros que compartilharam um amor que eu não mereço nem vou merecer jamais. A todos vocês, muito obrigado. Vocês não fazem ideia do que suas palavras de generosidade representam para mim. Obrigado, obrigado, obrigado.
  6. Na clínica onde estou internado ou escrevo, ou me envolvo em atividades lúdicas sem sentido, como pintar num pedaço de pano ou dançar ao som de sertanejo universitário. Prefiro escrever, muito obrigado, de nada. Sinto que vou enlouquecer neste lugar. Tenho certeza de que lugares assim ajudam muita gente (e estou vendo isso de perto). Para mim, entretanto, é tortura pura e simples. Não sei o que fez pessoas acharem uma boa ideia que eu viesse pra cá. Minha saúde emocional está deteriorando a cada segundo. A menos que seja um castigo bárbaro. Neste caso, ótima escolha! Está funcionando que é uma beleza.
  7. Já falei que esta internação está me matando? Escrever é meu jeito de gritar isso.

Amanhã publico “Dia 7 de abril de 2017”.

Tenho duas horas de internet quase-dial-up por dia. Eventualmente os capítulos se encontrarão com o tempo real deste diário.

Se quiser falar comigo, me escreva em rodrigo@bressane.com

Seja gentil,
Rodrigo Bressane