Fair Play — Sobre marketing, esporte e homofobia

Na época em que eu ainda assistia futebol, quase toda vez que o São Paulo entrava em campo alguém do meu lado no bar ou no estádio gritava "bambis!".

"Bambi" tá longe de ser meu filme favorito da Disney, mas eu nunca entendi como isso era uma ofensa. Não sabia de onde as pessoas tinham tirado que aquela torcida em especial era homossexual, quando quase todo o País vai ao estádio assistir 22 homens correndo atrás de uma bola.

Então eu fiz o que qualquer pessoa em dúvida deveria fazer: eu corri pro Google.

Aparentemente o termo veio de uma entrevista que o ex-jogador Vampeta deu, na qual ele se referiu aos são paulinos assim. Talvez você não acompanhe o esporte, então deixa eu esclarecer:

O cara que desceu a rampa do Planalto dando cambalhota é formador de opinião no futebol.

Assim como os romanos, que iam até o Coliseu assistir gladiadores lutando e gritavam por sangue, as torcidas de futebol no Brasil — e em alguns lugares do mundo, não precisa achar que a gente é especial — não constituem uma multidão muito inteligente. Não por acaso, passam o jogo inteiro xingando o juiz, os jogadores e, pasme você, uns aos outros. Tenho tanto orgulho disso quanto eu tenho do meu antigo Flogão, mas eu já xinguei muita gente em estádio.

Já faz algum tempo que torcida organizada virou sinônimo de violência, mas existe uma luz no fim do túnel e ela é colorida como um arco-íris.

Seguindo a deixa do grande pensador contemporâneo cujo nome é "uma mistura de vampiro com capeta", surgiu em 2013 a página Bambi Tricolor, que entre muitas coisas, pregava a tolerância dentro e fora de campo. Hoje a página já conta com mais de 3.500 curtidas e ganhou em 2014 o Prêmio APOLGBT em Respeito à Diversidade na categoria Esporte.

https://www.facebook.com/BambiTricolor/timeline

Mas essa não foi a primeira nem a última iniciativa virtual que pedia mais tolerância no futebol. A página Galo Queer foi a primeira do Brasil e a criadora deu em 2013 uma entrevista para a Fox Sports que você pode conferir aqui falando um pouco sobre os desafios de ser gay e torcer para um time de futebol. Vários outros grandes clubes como Corinthians, Cruzeiro, Palmeiras e Flamengo também têm iniciativas parecidas, mas infelizmente pouquíssima coisa mudou de lá para cá.

E se você acha que é só no futebol brasileiro que esse tipo de coisa acontece, toma aqui uma lista de esportes internacionais.

Muitas marcas já se juntaram à luta contra o preconceito no esporte. A Google convidou em 2014 um time de estrelas que seriam figurinhas raras (daquelas platinadas que valem muito no recreio do colégio) em qualquer álbum esportivo. Pelo Brasil, Neymar e Marta estrelaram a campanha, que ainda conta com a presença de vários outros grandes jogadores.

Alerta de spoiler: Vampeta não está no vídeo.

https://youtu.be/S14QJcI4KNs

A campanha contra a homofobia no esporte teve como tema “Jogue com Orgulho” ou “Proud to Play”. Além dos ídolos brasileiros a campanha conta com a participação de Tom Daley, atleta britânico de saltos ornamentais, que assumiu sua homossexualidade em um vídeo postado em seu canal do Youtube, e muitos outros que também assumiram sua homossexualidade.

Por aqui, o Boticário também resolveu vestir a camisa do amor livre e fez um belo comercial para o dia dos namorados. Foi alvo de críticas? Claro que foi. Sofreu um ~boicote~? Sofreu. Mas a mensagem foi passada, e às vezes essa é a coisa mais importante de todas.

Tudo lindo. Tudo marcante.

E mesmo assim, nada foi tão grande quanto os acontecimentos dessa semana.

https://www.instagram.com/p/BBwiTwdynQO/?taken-by=adidas

14 de fevereiro, Valentine's Day.

Um dia memorável para o amor, o esporte e — sem querer parecer com um discurso de Miss Universo — a paz mundial. Consigo até imaginar uma pessoa intolerante bem acima do peso contando para os amigos, daqui a 30 anos:

"Esse foi o dia em que eu parei de praticar esportes."

A Adidas fez um post para o dia dos namorados mostrando duas mulheres e, por incrível que pareça, isso gerou reclamações. Aparentemente tem muita gente que acredita que o amor que você dá é igual ao amor que você recebe…desde que seja um amor entre pessoas do sexo oposto.

Reclamações no Instagram da Adidas.

Podia ter parado por aí, mas eles foram além. A marca soltou uma nota na qual demonstra seu apoio aos milhares de atletas da Adidas que querem sair do armário.

“Adidas reconhece e adere aos princípios da diversidade, pois isso é uma parte central da filosofia do grupo Adidas. Portanto, Adidas garante que este acordo não será nem rescindido ou modificado caso o atleta se revele para o público como um membro da comunidade LGBT.”

Não fizeram mais do que a obrigação deles, certo? Mas num mundo em que a maioria das pessoas não faz nem isso, o ato vira notícia e serve de bom exemplo a ser seguido, aplaudido e estudado. Não existia nenhuma lei que obrigasse a marca a fazer o que fez, mas ela entendeu que era a coisa certa a se fazer. E o mundo, ou pelo menos a maior parte dele, também.

Porque a publicidade não tem obrigação de mudar o mundo, mas tem a responsabilidade de tentar.

E a Nike também acredita nisso.

Manny Pacquiao, um dos maiores boxeadores de todos os tempos, disparou um terrível golpe baixo contra o mundo, que acabou se voltando para sua carreira. Na última segunda-feira, ele disse numa infeliz entrevista que "Se aprovamos (o sexo de) homens com homens e mulheres com mulheres, isso significa que nós homens somos piores que um animal".

Logo após a entrevista, o pugilista filipino viu sua carreira ir pro ralo mais rápido do que o Rocky Balboa perde no terceiro filme da saga. E olha que ele caiu rápido. Alguns dias depois da entrevista, a Nike rompeu seu patrocínio ao atleta, dizendo que eles "fortemente se opõe à discriminação de qualquer forma e têm uma longa história de apoio à comunidade LGBT".

Isso mostra que hoje em dia as marcas não devem se preocupar apenas com campanhas, mas com todos os atletas que ela contrata como seus representantes. Se no Brasil as marcas tivessem os mesmos culhões, talvez várias campanhas fossem diferentes. Talvez não tivéssemos tantos episódios de homofobia ou de machismo, como na apresentação do uniforme do Atlético Mineiro. Mesmo Atlético que gerou, ainda que indiretamente, o Galo Queer. Mas ao invés disso, a gente segue levando esse 7x1 diário. E o placar só aumenta.

Ninguém está dizendo que é uma atitude fácil. É bem provável que a Adidas e a Nike sofram um impacto econômico e percam pessoas que compram seus produtos, mas vão ganhar algo muito mais valioso: pessoas que acreditam.

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