Um Café com Descartes e Lacan!!!

Sempre gostei de estrada. Gosto do som da estrada. Gosto dos caminhos, das cores, das paisagens e dos olhares que ela apresenta. Mas gosto, acima de tudo, das possibilidades sempre diferentes que a estrada apresenta. Ao sair para a estrada até podemos saber o destino e o caminho que iremos tomar. Mas o que vai acontecer enquanto percorremos esse trajeto, isso não temos como saber.

E em uma destas viagens da Agadê, com o Alexandre, logo após um café e um “puf de queijo”, acabamos por entrar em um assunto que gerou discussão por uns bons quilômetros (e seguiu me acompanhando até resolver escrever). Não lembro exatamente como começou, mas falamos sobre uma frase que gosto demais: “Sou onde não penso”. É um recorte de uma pontuação do Psicanalista Francês Jacques Lacan, que diz: “Penso onde não Sou, logo Sou onde não Penso”. Lacan aborda aqui o tema do Inconsciente, pois onde penso, onde atuo é exatamente “onde não sou”, ou seja, o real, o nosso consciente. Já “onde não penso”, onde sou inconsciente, é o “lugar” (já me desculpando por usar esta palavra) que não controlo, que sou em essência, que sou verdadeiramente aquilo que sou, sem máscaras, conceitos e pré-conceitos, sem regras, sem imposições, sem julgamentos, sem moral e sem uma visão social determinando o que devo e não devo fazer. Sou onde não penso.

Até aqui tudo bem. Mas eis que Descartes se atravessa na conversa, trazendo sua mais conhecida construção: “Penso, Logo Existo”. Aqui cabe lembrar que o Cogito Cartesiano é o seguinte: “Eu Duvido, Logo Penso, Logo Existo”. Descartes nos propõe que a Dúvida é o caminho base para o Existir. É a partir da dúvida que faço o pensar, e este pensar me dá a condição de existir. Sou porque penso. Sou porque duvido e produzo (cuidado neste termo) pensar(es).

Chegamos em um problema. Se Sou Onde não Penso e existo exatamente a partir da minha capacidade de Pensar, poderia dizer que justamente o ato de Pensar anula minha existência? Afinal, Penso onde não sou. Ou seja, SE PENSO, NÃO EXISTO. É isso mesmo??? Confesso que me deu um certo nó.

Não quero correr o risco de reduzir a questão, mas podemos olhar para esta sentença por diversos ângulos e, acredito que todos igualmente intrigantes.

Aqui olho para o Existir a partir da noção de Identidade, de Ser enquanto sujeito desejante. E convido a olhar para a nossa volta, para as pessoas que convivemos, para o que enxergarmos no outro. E principalmente, convido a olhar para o Eu. E vai a pergunta: Eu existo?

Existo mesmo?? Existo enquanto sujeito? Existo e posso dizer que SOU? Ou apenas vivo conforme o que penso?? O que penso que é o certo, que é o melhor, que é o que devo fazer, que é o que será aceito?? Falei antes na questão da identidade, pois ela é que norteia essa discussão. Acredito que cada um é de fato UM. E por mais boba que esta afirmação pareça ser, ela encerra muito em si.

Mas por que o pensar nos faz não existir? Justamente por nos levar em um caminho contrário a nossa identidade. O pensar, por vezes, nos afasta do sentir. Nos afasta daquilo que é nosso em essência. O pensar nos faz mediar. E ao mediar, estamos assumindo que podemos nos sujeitar (ou assujeitar, se é que existe essa palavra) ao que o meio nos impõe. Negamos, ao menos parcialmente, aquilo que é nosso em favor do meio, do outro, do social. Não mais Sou (convido a ler estas três palavras com calma). E sim Estou a partir do que penso ser o melhor. Ainda existo?

Ok. Mas isso não é necessário para vivermos em sociedade? Será mesmo que é? Será que existe essa “cláusula” de que para viver bem em sociedade precisamos negar a nós mesmos? Será que a vida em sociedade não seria ainda mais fácil com indivíduos plenamente (e existe a plenitude do ser?) realizados consigo mesmos? Será que não teríamos um social, um mundo, mais inteiro a partir de pessoas mais inteiras?

É estranho pensar na existência a partir do sentir, do ser de fato, e não do pensar. Aqui temos uma contribuição nada amigável do nosso amigo Descartes: Corpo x Mente. Essa ótica cartesiana nos fez sermos excessivamente racionais. E, como disse em um texto anterior, chegamos a nos orgulhar disso. Mas o fato é que sentimos. Somos seres pensantes, sim. Mas Sentimos. Sentimos até mesmo antes de pensar. E isso não é uma afirmação tão racional e embasada em dados científicos. Apenas estruturada a partir de um sentir. Afinal, desejo existir.

Identidade. Acredito que essa é a condição do Existir. Ser. Apenas isso. Ser. Ser = Identidade. A partir do momento que esta identidade fica para trás, será que ainda assim, Sou? Ou apenas “estou”, como dito acima. E, infelizmente, sinto (de novo) que mais estamos do que somos.

Não quero aqui ser utópico ou apresentar algo impossível ou irreal (mas o que é mesmo real?). Apenas propor uma reflexão. Claro que considero que são abordagens distintas (de fato, Distintas), feitas em contextos históricos totalmente diferentes. E que não podemos simplesmente mesclar dois fragmentos de conceitos. Mas ainda assim, peço licença para fazer o que digo não ser possível fazer, pois acredito que é uma análise válida pelo que nos move a pensar: A condição da Existência do Sujeito.

Fácil? Sem chances. Chego a conclusão que Existir é um caminho complicado. Veja bem, para escrever isso aqui, me peguei pensando. E se penso, não existo???!!!

Continuamos no próximo post…