R. Buckminster Fuller 1895–1983 — Pionero del Design Regenerativo

Estando em processo e compreendendo os relacionamentos

Eu vivo na Terra no presente, e eu sei o que eu sou. Eu sei que eu não sou uma categoria. Eu não sou uma coisa — um substantivo. Parece que eu sou um verbo, um processo evolucionário — uma função integral do universo.
R. Buckminster Fuller (1970)

Pergunte a si mesmo: quem eu sou? Eu sou só este corpo? Eu sou uma coisa, um substantivo, um objeto? Ou eu sou um processo de interações e conexõesconstantemente em transformação que definem a mim e ao mundo comoexpressões temporárias do meu sendo em relacionamento?

Allan Watts se referiu ao eu separado como o “ego encapsulado pela pele”. Nas aulas de biologia somos ensinados a fechar a importante questão sobre a identidade do nosso ser e nos condicionar a ler coisas como: “Eu sou um ser biológico da espécie Homo sapiens sapiens; um produto da evolução baseadoem mutações aleatórias e na luta pela sobrevivência diante da escassez e da competição, possivelmente com a predisposição a projetar significadoem coisas sem sentido do universo”. Isso, para você, se parece com algumahipótese científica ou com um dogma extremamente limitante?

A pergunta “quem ou o que sou eu?” nos leva ao centro de nossa cultura e ao modo pelo qual entendemos a relação entre o ser e o mundo, assim comoentre a cultura e a natureza. Nossa resposta afeta não só nossa experiênciapessoal de vida, mas também como nos relacionamos com outros seres hu-manos e com a comunidade da vida. A cultura se transforma uma vez que nós entendemos nós mesmos como “processos” que definem “identidadeprópria”, como ser nas relações e (feito) de relações.

Através de milhares de anos de condições antropocênicas […] nós herdamosrasos, fictícios “eus”, e criamos a persuasiva ilusão de separação da natureza.[…] Enquanto o meio ambiente estiver “lá fora”, nós o deixaremos para algum grupo de interesse especial, como ambientalistas, para protegê-lo enquanto tomamos conta de nós mesmos. A matéria muda quando percebermos pro- fundamente que a natureza “lá fora” e a natureza “aqui dentro” são uma e a mesma, que o senso de separação, não importa o quão persuasivo, é nada menos que totalmente ilusório. Eu chamaria a necessidade dessa realização odesafio psicológico espiritual de nossa era.
John Seed (2002)

Paradoxalmente, nós somos o “eu” e nós somos o “mundo” Os dois emer- gem da experiência de ser através das relações de que participamos. De umentendimento participativo do todo da natureza, o todo da vida não é umacoisa, mas um processo de vir a ser através de todos os seres vivos e de seus relacionamentos. Podemos descrever a vida como a soma total de trilhõesde “indivíduos”, de uma diversidade de espécies de tirar o fôlego, e isso éigualmente válido para entender a vida como um processo transformador que tece tudo isso em manifestações temporárias de estar vivo através e em relaçõesdentro da própria unidade. Concentrar-se na separação revela a competição, enquanto concentrar-se em interser revela colaboração como a base da vida.Gregory Bateson viu a “falsa coisificação do eu” — a ideia da separação do eu em vez de um eu emergindo e sustentado pelos relacionamentos — como a causa raiz de nossa “crise ecológica planetária”. Ele argumentou que:

Nós imaginamos que somos uma unidade de sobrevivência e que temos que dar atenção a nossa própria sobrevivência, e imaginamos que essa unidade de sobrevivência é o indivíduo separado ou uma espécie separada, enquanto, na realidade, através da história da evolução, é o indivíduo mais o meio ambiente, as espécies mais o meio ambiente, porque eles são simbióticos.
Gregory Bateson em Joanna Macy (1994)

A ecologia da mente de Bateson foi uma tentativa de convidar as pessoas para adentrar uma maneira relacional de ver. Ele entendia que nós vivemos em um mundo feito inteiramente de relacionamentos e costumava gracejar: “existem dias em que eu me pego acreditando que existe uma coisa como algo, separado de todas as coisas”. Para Bateson, vivenciar nossa própriaexistência relacional — a maneira que nós continuamente trazemos à tona o mundo e a nós mesmos através das relações — poderia nos ajudar a “unificar e dessa forma santificar a totalidade do mundo natural, no qual nós estamos”(Nora Bateson, 2010).

A visão unificadora de Bateson sobre o mundo natural (a vida) não estácolapsando, a vida e a nossa experiência dela não está na base esquerda doquadro da teoria integral. Ele não reduziu a “o que é” para o exterior coletivodos sistemas, do “DELES”, dos objetos materiais. Sua “ecologia da mente” se referia ao “oceano da mente” em que nos encontramos quando mudamos de ver o mundo como uma coleção de objetos para experienciar o vir a ser de perspectivas e pensamento de identidade através do fato de relacionar-se a si mesmo. O entendimento de nós mesmos como verbos e não substantivos,como um processo em vez de indivíduos isolados, facilita essa mudança de perspectiva que nos faz ver o mundo e a nós mesmos como vindo a seratravés de relacionamentos. Maturana e Varela mais tarde se referiram a isso como acoplamento estrutural e autopoiese, a autoconstrução pela qual nóstrazemos à tona o mundo.

Bateson acreditava que “os maiores problemas do mundo são resultadosda diferença entre como a natureza funciona e como as pessoas pensam”. Ele se referiu à mudança de pensamento que estamos explorando como “a diferença que faz diferença”. Quando Bateson perguntava a seus alunos “Que padrões conectam um caranguejo a uma lagosta, e uma orquídea a uma pri- mavera e todos os quatro a mim? E eu a você?”, ele não estava procurando por uma resposta. Ele estava convidando as pessoas a notar o próprio ato dequestionar e, ao fazê-lo, os tornava conscientes do fato de que tudo muda se mudarmos o modo pelo qual nós pensamos sobre o “eu” e o “mundo” (2015).David Abram descreveu lindamente como nossa identidade humana nasce da nossa relação com o resto da comunidade da vida.

Presos numa massa de abstrações, nossa atenção hipnotizada por um anfi-trião de tecnologias feitas pelo homem, que refletem somente nós de volta anós mesmos, é muito fácil esquecermos nossa herança carnal em uma matriz mais que humana de sensações e sensibilidades. Nossos corpos se formaram em uma delicada reciprocidade com texturas de muitas camadas, sons, formas de uma terra animada — nossos olhos evoluíram em evoluções sutis com outrosolhos, enquanto nossas orelhas estão afinadas pela sua estrutura, pelo uivardos lobos e pelo grasnar dos gansos. Nos desligar dessas outras vozes, continuar com o nosso estilo de vida para condenar estas outras sensibilidades até o es- quecimento da extinção, é roubar de nossos próprios sentidos sua integridade, e roubar nossas mentes de sua coerência. Nós só somos humanos em contato, e convívio, com o que não é humano.
David Abram (1996: 22)

Eu acredito que no coração da mudança cultural que irá liderar para a emer-gência de culturas regenerativas em todos os lugares está a clareza de quesomos um processo de nos relacionar em “reciprocidade delicada” com oplaneta vivo, que nosso sucesso individual e coletivo depende da saúde dotodo e da comunidade da vida.

[Design de Culturas Regenerativas, de Daniel C. Wahl — Editora Bambual]