O dia mais importante da história (recente) da NBA

Como uma molecagem de LeBron James, um dono mão de vaca e um comissário sem noção alavancaram a NBA em popularidade, caos e força de calendário (apenas para regredir depois).
Neste sábado, dia 08/07/2017 aconteceu o aniversário de um dos eventos esportivos mais importantes de todos os tempos. Não estou falando do 7 a 1, que tem essa mesma fama, mas do dia em que LeBron James achou que seria uma grande ideia subir num palco e fazer um show televisivo pra anunciar que não, ele não iria continuar jogando pelo simpático time azarão que apostava todas as suas fichas nele.
O programa, chamado de The Decision, foi ao ar no dia 8 de julho de 2010, e mudou para sempre a história da NBA, para o bem e para o mal. Mas mais do que tudo, o evento mudou a forma como enxergamos a liga, seus atletas, e até mesmo o comportamento dos astros do esporte. Pra entender melhor é preciso um pouco de contexto.
O Garoto de Akron
Você deve saber tudo sobre LeBron James, sobre como ele traiu o Cleveland Cavaliers para jogar no Miami Heat, ganhar alguns anéis, depois voltar para Cleveland e junto de um grupo de jovens jogadores continuar reinando sobre o leste.

Mas antes de ser o herói de Believeland, antes de ser o traidor dos sonhos de Ohio, antes de ser o King James, LeBron foi “Aquele Garoto de Akron, Ohio”. Aquele garoto que jogava na St. Vincent-St. Mary High School e parecia ser quatro anos mais velho que os outros jogadores da equipe, tanto pelo físico quanto pela habilidade. E isso enquanto jogava em uma das principais escolas do distrito.
Não preciso gastar muito tempo aqui falando das estatísticas pré-NBA de James. Basta dizer que, saindo do colegial tendo sido escolhido duas vezes consecutivas o melhor jogador do país fez o hype sobre o garoto crescer muito. Mais ainda quando ele decidiu pular a universidade e entrar diretamente na NBA.
O destino agiu mais uma vez: o time que teria a primeira escolha do Draft de 2003 seria de Cleveland, a apenas 40 minutos de viagem da cidade natal do garoto James. A franquia, historicamente sofrida e sem títulos, precisava de um messias. Ainda melhor se fosse um vindo do seu quintal.
James foi o Melhor Calouro no seu ano, e finalmente em 2008/2009 e 2009/2010 conquistou dois prêmios de MVP da temporada regular. Ainda assim, a equipe se esforçava para manter o time competitivo para que seu messias tivesse com o que trabalhar.
Em 2010, a equipe titular do Cleveland Cavaliers era composta do já aposentado Shaquille O’Neal (embora ele só tenha oficializado a aposentadoria em 2011, depois de jogar um ano pelo Celtics), pelo melhor amigo de LeBron na época Mo Williams, por Anthony “Não-é-o-Tony-Parker” Parker e por Antawn Jamison. Numa era de times armados ao redor de um único jogador, LeBron tinha um bom elenco de apoio, mas não o melhor possível.
O resultado disso era que muitas das funções em quadra caiam sobre LeBron, como a de ser praticamente o único alívio ofensivo para marcar pontos. O Rei não estava jogando exatamente do jeito que queria, e mesmo com as máquinas de pegar rebote Anderson Varejão e Zydruna Ilgauskas no banco em diferentes momentos da temporada, quando Shaq machucava LeBron tinha que ajudar nessa função.
A equipe inteira, aliás, era muito propensa a uma lesão, deixando o Rei James fazendo as funções de cobertor curto. LeBron queria mais, e mais estava a caminho.
A Tal da Decisão
LeBron não era o único grande nome a chegar ao mercado de agentes livres na offseason de 2010. Dwayne Wade, do Miami Heat, e Chris Bosh, do Toronto Raptors, outros nomes draftados em 2003 e que tinham se transformados em astros da NBA, estavam programados para ir ao mercado.
A prévia do que aconteceria desafiava a mídia da época. Alguns programas de televisão cravaram uma previsão de que nenhum dos 3 grandes nomes iria deixar os próprios times, mas exigiriam melhores elencos de apoio. Outras mídias diziam que todos os jogadores mudariam de franquia, o que instauraria um caos.
Ninguém previu a possibilidade dos 3 jogarem juntos. Na verdade, desde 2006, com a previsão dos jogadores de atingirem juntos o mercado, eles já vinham conversando sobre a possibilidade de concentrar suas capacidades em um mesmo time, formando um Big 3.
Big 3s estavam na moda. O Celtics recentemente vivera a alegria de ter um time centralizado em Kevin Garnett, Ray Allen e Paul Pierce e já começava a viver o fim dessa era. A ideia de ter Bosh, Wade e James jogando com o mesmo uniforme não parecia bizarro. Bizarro parecia a ideia de que os três topariam jogar juntos.
Mas no dia 7 de julho de 2010, Wade anunciou que assinaria novamente com o Heat. No mesmo dia, Bosh assinou com o time de Miami. A especulação era grande na mídia sobre a possibilidade de que LeBron fosse para a equipe, mas havia várias equipes interessadas, entre elas o Chicago Bulls, onde James poderia formar um Big 3 com Derrick Rose e Joaquin Noah. No mesmo dia da The Decision, a equipe de Chicago anunciou a contratação de Carlos Boozer.
Havia também a possibilidade de que o Rei decidisse jogar em Nova York, onde faria um Big 3 com Amar’e Stoudemire de um lado e com os paparazzi da cidade que não o deixariam mais em paz do outro.
Mas, nas palavras do próprio LeBron, naquele outono ele levou seus talentos para South Beach, onde a combinação dele com os outros dois grandes nomes foi o suficiente para transformá-lo do messias da NBA no novo satanás.
Comic Sans
Se LeBron era o Rei de Cleveland, Dan Gilbert era o dono da cidade. Bom, pelo menos o dono dos Cavaliers ele era. E do Cleveland Monsters da American Hockey League. E de mais uma série de pequenos times esportivos.
Mais do que isso, Dan Gilbert é o dono da Quicken Loans, uma empresa de crédito imobiliário fundada em Detroit e que, em parte, é responsável pela decadência do setor imobiliário da cidade.

Além de ser o homem mais rico de Michigan, Gilbert é dono de uma série de cassinos em Ohio, principalmente na região de Cleveland e Cincinnati. Esse sujeito, em meio a toda sua riqueza, se tornou o dono maioritário dos Cavaliers em 2005, já com LeBron no elenco do time. A relação dos dois era positiva, mas não de proximidade e amizade.
Ainda assim, segundo o próprio Gilbert, ele se sentiu traído pela saída de James. Eu sei disso porque o proprietário se deu ao trabalho de escrever uma carta pública, lançada no site do time na época em COMIC SANS. É um pouco complicado levar a sério o que está escrito em comic sans, mas no meio da carta Gilbert deixava registrada uma bravata que tornou a situação ainda mais difícil de levar a sério: ele prometia que os Cavaliers iriam ser campeões antes de LeBron.
Esqueceu de escrever, na carta, que LeBron, durante as negociações, havia pedido a chegada de pelo menos mais uma estrela, como Bosh, e a contratação de jogadores para complementar o elenco que fossem bons o suficiente para serem titulares em todas as outras equipes da liga. Basicamente, James estava chamando Gilbert no blefe da contratação de Shaquille O’Neal, uma estrela, sim, mas não mais em nível competitivo e que tinha como função muito mais a venda de camisas do que realmente correr atrás de um título.
Gilbert, claramente, não estava nem um pouco à vontade de entrar nos Luxury Taxes, os valores que os times da NBA tem que pagar quando ultrapassam o teto salarial da liga. O contrato de LeBron, na época, seria considerado uma Exceção Larry Bird, o que permitiria a equipe dar para o astro um contrato máximo (na verdade, ainda maior do que o oferecido pelo Heat) e estourar o teto, desde que pagassem multas pelo valor estourado.
Mas Gilbert, sabe-se lá deus porque, preferiu deixar LeBron ir, economizar dinheiro, estourar a equipe como uma das piores de todos os tempos na temporada 2010–11 e basicamente acumular o máximo de escolhas de Draft possível, preferencialmente escolhas que pudessem sair na loteria.
É aí que entra a parte de David Stern, o Comissário do Mal (eu mesmo dei esse apelido). Quando não estava ocupado criando um código de vestimenta inútil para a NBA ou tendo que lidar com mais uma greve dos jogadores, Stern criava formas de tentar deixar a liga mais interessante. Uma dessas tentativas foi através da criação de um sorteio para determinar as primeiras escolhas de cada Draft, com diferentes chances para cada concorrente dependendo dos resultados do ano anterior.
Acontece que os Cavaliers, desde a saída de LeBron, podem ser chamados de “o time mais sortudo do mundo”. Já em 2011, o Cavaliers tinha uma chance em cada cinco de ficar com a primeira escolha, contra uma em cada quatro do Timberwolves. Acontece que nenhuma das duas equipes ficou com a escolha, que foi para o Clippers, que, vejam só, havia trocado a sua escolha de primeira rodada com o Cavaliers. Assim, o Cavaliers ficou com a primeira e a quarta escolha daquele Draft e a transformou em Kyrie Irving.
Em 2013, mais uma vez a sorte chamou. O Cavaliers tinha pouco mais de 15% de chance de ficar com a primeira escolha, atrás do Orlando Magic e do Charlotte Bobcats. Ainda assim, ganhou a escolha na loteria e a transformou em Anthony Bennet.
Em 2014, mais uma vez, o time tinha apenas 1,7% de chance de ficar com a primeira escolha, mas mais uma vez conseguiu o feito, que garantiu para a equipe Andrew Wiggins. Wiggins foi somado a Bennet em uma troca que resultou no Timberwolves enviando para Cleveland o grandão Kevin Love, que ao lado de Irving e um recém-retornado LeBron James passou a compor a base da equipe num novo Big 3.
Uma Nova Era
A mudança de LeBron para Miami começou uma nova era na NBA. Pra entender, é bem simples. Os ratings médios da temporada regular da NBA na televisão nos quatro anos anteriores as mudanças haviam sido:
2009–2010 → 2.3
2008–2009 → 2.3
2007–2008 → 2.2
2006–2007 → 2.0 (até então, o mais baixo da história)
Agora, comparem com os três anos APÓS LeBron levar seus talentos para South Beach:
2010–2011 → 3.0
2011–2012 → 3.3
2012–2013 → 2.9
O reflexo IMEDIATO da transferência de forças foi o aumento do interesse do público na liga. Todos queriam saber se LeBron, Chris e Dwayne iriam arrancar quinze títulos seguidos. Com a FALHA da equipe de ganhar imediatamente, perdendo as finais de 2011 para os Spurs, o interesse cresceu ainda mais. Mas quando o título saiu, o resultado foi uma mudança de perspectiva e o começo de um declínio de interesses.
Acontece que esses ratings são uma média entre todos os jogos. O interesse em assistir partidas do Oeste, onde o nível tem se mantido alto nos últimos 20 anos, continuou sempre o mesmo. O que aconteceu foi pura e simplesmente uma atenção maior aos jogos do Leste. Uma vez estabelecido que LeBron e o Heat dominavam, e depois de que LeBron continuaria dominando, agora com o Cavaliers, fez que a visibilidade dos jogos do direito do mapa americano voltasse ao seu patamar anterior.
Mas foi graças, também, a esse maior interesse momentâneo na NBA causado pela mudança de time da maior estrela da liga que os escritórios administrativos, agora mandados por Adam Silver como comissário, começaram a facilitar que os jogadores trocassem de time.
Isso nem sempre dá tão certo como o esperado. Por exemplo: o salto do teto salarial entre a temporada 2015–16 para a temporada 2016–17. Ele claramente tinha como uma de suas intenções facilitar que time que estavam por baixo e com o teto salarial comprometido pudessem se reforçar para melhorar o time. O resultado, na verdade, foi que o Golden State Warriors, melhor time da liga, conseguiu contratar Kevin Durant, o melhor jogador ofensivo ainda que ainda não jogava pelo Warriors e discutivelmente um dos 3 melhores jogadores da NBA hoje. O resultado foi uma queda dos ratings da televisão para a menor média em décadas. Pois é.
Mas as mudanças continuam a ser favorecidas e incentivadas, até culturalmente. Graças a isso, nessa mesma temporada regular em que estamos, jogadores como Jimmy Butler, Chris Paul e Paul George mudaram de equipes, saindo de equipes antes sem chance de título, mesmo com eles, no futuro próximo (Chicago, LA Clippers e Indiana, respectivamente) para equipes em que podem vencer a curto prazo ao se somar a outros talentos (Minnesota, Houston e Oklahoma City, respectivamente).
Afinal de contas, se LeBron James, o jogador mais aplaudido desde que o deus do basquete se aposentou (pela segunda vez), não se arrependeu de sair de casa e pedir ajuda para ganhar seu anel, porque não fazer o mesmo?
PS: Paul George e Chris Paul são grandes nomes de jogadores, mas o melhor jogador da atualidade em força de nome é, sem dúvida, Karl-Anthony Towns.


