+ A Turquia Que Nem Jorge Salva

Parte I | Abdullah Çatli

+ É possível que vocês estejam a par do caso do jornalista do WaPo, Jamal Khashoggi. Sequestrado, morto, desmembrado, et coetera pelo governo da Arábia Saudita na Turquia. Entretanto, a parte que se deixa mais de lado é o lado turco da história. Erdogan está vazando aos poucos detalhes do caso para forçar os EUA (novamente) a jogar pelas suas regras e entregar o legendário Fethullah Gulen que ele afirma ser responsável por aquela tentativa de golpe anos atrás. A Turquia é um poço sem fundo de intriga internacional e essas coisas são rotina por lá. O jogo de espiões nunca para e é mais antigo do que muitos poderiam imaginar. Em momentos como esse, é sempre bom relembrar como as coisas chegaram a este ponto naquele lugar.

Era uma vez os Lobos Cinzentos. Um desses grupos que se diverte com o que a vida tem de melhor — tráfico de drogas, terrorismo, extorsão e aproximadamente 600 assassinatos durante toda sua existência. Entretanto, dentre todos esses exemplos de retidão e caráter um homem ainda conseguiu se destacar: Abdullah Çatli.

Pode se dizer que se Çatli tivesse um perfil no LinkedIn, ele teria muito trabalho para resumir todos os seus pontos fortes. De execução de membros do PKK (Kurdistan Workers Party, donos de jornal esquerda) até a participação na tentativa de matar o Papa João Paulo II. Entretanto, acho que nada foi tão especial quanto seu protagonismo na Operação Gladio. Sim, aquela operação da OTAN para cometer falsos atos de terrorismo.

Abdullah Çatli era tão bom no seu trabalho que ganhou a honra de ser um dos mais procurados pela Interpol, obviamente proscrito em seu país de origem, e sua eficiência chamou a atenção de gente mais graúda do que os Lobos Cinzentos. Por isso, quando foi pago em heroína pelo serviço secreto turco por um freelance, e subsequentemente preso por tráfico de drogas em Paris, acabou indo parar numa prisão suíça condenado a muitos anos de reclusão. Ou seja, o antigo método de recrutamento para “Black Ops”, cujo argumento é até simples — “faça uma fortuna sendo um sociopata só nosso ou apodreça ai”.

Provavelmente Çatli deve ter gostado da proposta oferecida pelos Gladios pois pouco tempo depois ele imitou o famoso traficante carioca Escadinha e fugiu da prisão. De helicóptero. Vou repetir e ser mais específico, porque parece importante: Escapou. De uma Prisão de Segurança Máxima. De Helicóptero (registrado como sendo da OTAN). Ou como o relatório gosta de chamar — “em circunstâncias misteriosas”.

Imagine que agora que você fugiu de prisão e é melhor se esconder da Interpol. Para onde você iria? Paquistão talvez? Cuba? Bora Bora? Evidências sugerem que Çatli preferia climas mais fechados quando escolheu o Reino Unido para residir. De fato, ele gostou tanto do país que a Inglaterra lhe concedeu cidadania. Em menos um ano. Agora possuindo um passaporte britânico. E vocês com medo de ir pra Londres e serem barrados na alfândega.

Algum tempo depois Çatli foi passar as férias em Chicago e os EUA (sempre eles) resolveram que já que Çatli tinha um passaporte inglês — por que não dar-lhe logo um Green Card? De uma hora para outra um dos mais perigosos homens do mundo (ao menos nos anos 90) era Turco, Inglês e Americano ao mesmo tempo. E você ficou na fila para pegar um visto.

Assim que as férias acabaram, Abdullah Çatli tinha muito trabalho a fazer. Viajou de volta à Turquia, continuou fazendo amigos e influenciando pessoas até receber uma tarefa especial — sair de Chicago para o Azerbaijão convencer o Heydar Aliyev (casca grossa agente da KGB, e depois Presidente do país) a desligar o Azerbaijão da Rússia e se tornar um dos noss… digo, dos deles. A princípio, a proposta foi recusada. Então o turco-anglo-americano mudou de tática. Trouxe seus amigos do crime organizado da Turquia que foram libertados pelos turcos para, assim como ele, servirem a pátria os quais abriram empreendimentos como grandes cassinos com uma especial linha crédito para pessoas próximas a Aliyev. Desnecessário dizer que impagáveis dívidas foram adquiridas pelos amigos e família de Heydar. Assim Çatli, através dos companheiros mafiosos, passou a ameaçar a todos de morte. Para provar sua disposição chegou até a montar uma “frustrada” tentativa de assassinato de Aliyev. Não podemos dizer se funcionou mas desde então Heydar simplesmente mudou de posição (que os analistas chamam de “sua reinvenção”) e de ’96 em diante o Azerbaijão se tornou um membro da OTAN, tem bases militares e deixou de adquirir 25 milhões em armamento para US$2,5 BILHÕES em compras.

Com mais um cliente satisfeito, Çatli voltou a Chicago, viajou para China para fazer o mesmo com Sinkyang (região chinesa de população majoritariamente islâmica) ou como os turcos a chamam — Turquestão. E poderia ter conseguido se um acidente de carro num passeio na Turquia não tivesse frustrado os planos.

Abdullah Çatli e sua história poderiam ter acabado ai… se a inteligência e a mídia controlada pelo governo tivessem chegado antes dos investigadores e repórteres locais que ficaram muito impressionados de descobrir que no mesmo carro de um dos homens mais procurados pela Interpol estavam seus passaportes diplomáticos do ocidente, e junto com ele o (equivalente) ao Secretário de Segurança turco e um Membro do Parlamento Turco. Ah, e uma Miss Turca, mas isso é um outro mistério.

Foi o estopim para o “Escândalo Susurluk” onde toda essa imensa bola de esterco foi rolando e respingando em todo o governo. Prisões, vazamento de informações sigilosas, revelações que a Turquia gerenciava o tráfico de drogas e executava cidadãos usando os terroristas dos Lobos Cinzentos, et coetera. Alguns mafiosos que ajudaram foram assassinados, outros voltaram pra cadeia, uns viraram mercenários. E quando começou a ser descoberto que tudo isso poderia ter sido ordenado nas sombras pela OTAN? Nunca se viu tantos diplomatas e espiões (americanos inclusive) cujos nomes eu não vou mencionar fugindo sendo transferidos do país. O braço turco da Gladio tinha sido ferido. Mas o Gladio nunca foi apenas sobre ultra-nacionalistas. Gladio já tinha um Plano B… o fundamentalismo islâmico. Como o cara que atendia pelo nome de Tim Osman.

O que nos leva ao próximo turco… Fethullah Gulen. Num outro dia.