Já tive calma e uma camisa xadrez que apelidei Narina. Convivemos por 18 anos e seu xadrez era autêntico: misturava marrom e listras azuis e cinza, um misto de boniteza fora de moda ao seu modo. Tenho a sensação — hoje, a lembrança é memória quase irreconhecível — de que vê-la me remeteria ao cheiro de minhas aventuras de adolescente. Sim, esta é a suspeita ou, ao menos, deveria ser assim. Uma memória olfativa a força de Narina. O passar dos anos pesou sobre nossa relação. As mangas de Narina não atingiam mais meus pulsos e mesmo quando os alcançava, não conseguia mais fechar os botões. Ela e eu, o uso que um fazia do outro, ela, uma simples camisa com botões de plástico, nossa relação mutável que se transformou em história, Narina, a consagração inevitável de Narina, do tempo, de mim e de tudo o que é passível de mudança, como o que sinto, como nós e as coisas. Narina ficou em Praga. Eu segui para Budapeste.
Do outro lado da velha cortina, jaz invisível como foram nossas aventuras por tão pequenos mundos. Concentro-me então na nossa despedida, no gelo branco, sujo ou cinza que descoloria a cidade cavada no meio pelo Moldava, que inspirou tantos como a B. Smetana e que se entranhou como vapor congelado na narina e fez com que presumisse que qualquer outro destino seria pior que aquela parada de ônibus debaixo de uma nevasca. Flora, a estação que mais lembra teu nome e que esteve na rota, a nossa rota de fevereiro pela Česká republika, que mostrou fachadas e ruínas ocultas e o eslavo indecifrável para um viajante analfabeto em tcheco. Gozava de tudo com ela, com a tcheca, com bondes, trens e metrôs e ruas e praças cobertas pelos flocos que seriam chuva em quatro meses. O resvalo era frequente em calçadas propícias para a patinagem até que nos perdemos — ou perdemos o rochedo mítico de Vyšehrad — numa esquina em que a neblina assombrosa surgiu com o vento. Uma taverna foi refúgio temporário e uma senhora aconselhou-me a seguir para o oeste. Antes, perguntou-me alguma coisa. Ela não entendia meu exotismo, eu muito menos o dela, e, então, um jovem surgiu de repente (acredito que fosse o filho da mulher). Perguntou-me se falava alemão, Entschuldigung, ich spreche kein Deutsch, e nós sorrimos a tal ponto que a velha me tomou pelo braço e me levou de volta à calçada e apontou o poente encoberto pela bruma da tarde. E para lá seguiu uma caminhada insólita até o cume, acima das primeiras nuvens.
Recorri ao lápis e ao papel. Longe, mal avistava a Ponte Carlos, macabra com todos os seus santos. Queria registrar o que sentia, Narina, minha segunda pele, um pássaro, a buzina de um carro, o motor a óleo de um barco, o sino da Bazilika svatého Petra a Pavla, quando um ruído de passos rompeu o silêncio da neve e pensei que, de fato, lendas e mistérios de princesas e príncipes e de rainhas e reis realmente existem e que o cemitério estava logo ali. O barulho revelou uma garota, que corria no parque e fazia a neve espirrar para os lados acompanhando o ritmo de sua pisada firme. Bâiller. Foi o que escrevi. Por que cargas d’água anotaria bocejar no meu caderno de bolso? Haveria a descida da rock above the river with its dark outline of slender spires e quem sabe o que pensou P. Roth numa das primaveras de 72 a 77.
Aquela era a aventura derradeira de Narina, o sentido de sua vida de algodão.Subimos no bonde sem bilhete, vimos F. Gehry e a mobilidade de sua Dancing House em tempos de no more dancing nights — ou insights porque dá no mesmo, rima toscamente e não muda o desfecho certeiro. O calor do vagão a derreter o gelo na roupa, a pressão do degelo na testa, Narina encharcada, lindo aquilo. Fui irônico com ela, meu humor andava péssimo, Narina ficou distante, fria, indiferente, a ironia não me caiu bem, eu sabia, e em menos de 11 horas Narina seria a melhor amiga de outra pessoa. Repousei-a sobre o banco da estação de ônibus. Não virei a cabeça para dizer Adeus. Eu sobreviveria dessa vez, Narina. Não sou de pano.
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