Autonomia para transformar organizações

Como ir além das estruturas de controle e poder existentes nas empresas?

Heteronomia é um conceito filosófico que se refere a "dependência de um indivíduo à vontade de terceiros ou de uma coletividade". É agir de acordo com normas pré-estabelecidas por outras pessoas. Heteronomia remete a obediência.

Quando o sistema ético existente entre duas pessoas é a heteronomia, cria-se uma relação de submissão. Além de aceitar o modo de agir que foi determinado por outra pessoa, o indivíduo também é controlado para seguir a ordem que se impõe sobre ele.

Assim, se estabelece uma relação de comando e controle entre um indivíduo-dominante e um indivíduo-dominado. Esta relação tem em seus alicerces o medo, a insegurança e o segredo como garantidores da efetividade da heteronomia.

A heteronomia é a base do modelo tradicional de gestão.

A hierarquia formal, as descrições de cargos e funções, os planos de carreira e as definições de regras e processos são os efeitos colaterais desta tecnologia social dentro do mundo das organizações.

Nas empresas “mecânicas”, a prescrição do trabalho, a estrutura de poder, a preocupação em evitar conflitos e a valorização excessiva da previsibilidade nas relações entre os profissionais e o negócio dão o tom de como as coisas devem acontecer na execução do trabalho.

Autonomia é exatamente o contrário. Neste conceito a ação de um indivíduo é determinada por ele mesmo, segundo sua própria vontade. Entretanto, não significa agir de qualquer maneira, de forma independente, mas sim em consonância com as restrições sociais que limitam nossas atitudes e comportamentos dentro de um grupo de pessoas.

É agir de acordo com as próprias regras, mas no limite das relações sociais que estabelecemos com os outros. É descobrir qual é a melhor forma de agir levando em consideração tudo e todos que estão ao nosso redor.

Para isso, é preciso ter autoconhecimento para compreender a sua capacidade de agir, como também conhecer o outro para agir dentro de um limiar socialmente autorizado em determinado contexto. É preciso compreender os relacionamentos entre as pessoas, respeitando e participando dos acordos sociais (sejam eles mais subjetivos e informais ou mais objetivos e formais).

As relações entre indivíduos autônomos são influenciadas também pelos os fenômenos sociais da colaboração (fazer um trabalho junto com outra pessoa) e da liderança (comportamento e atitude de um indivíduo que promove condições para que um grupo de pessoas supere, coletivamente, um obstáculo difícil). Confiança, segurança psicológica e transparência são os pilares necessários para que a autonomia nessas relações seja autêntica.

A autonomia é a característica marcante dos modelos de gestão distribuídos, democráticos e centrados nas pessoas.

As decisões coletivas, a liderança emergente, as experimentações (erros, acertos e aprendizados) e o alto engajamento no negócio são evidências da presença de autonomia nas relações de trabalho.

Dentro das empresas “orgânicas”, são as definições de valores, propósitos e objetivos, a maneira de pensar sobre o trabalho e a criação de acordos sociais que dão o respaldo necessário para que um profissional possa atuar com autonomia dentro de uma equipe.

Enquanto organizações que apostam na heteronomia acreditam na capacidade de algumas poucas pessoas para alcançarem o sucesso, as organizações que apostam na autonomia valorizam a criatividade de cada indivíduo e cultivam relações sociais fortes para terem resultados superiores.