Roberto Castro/Brasil2016/Fotos públicas (08/08/2016)

Tirinhas Olímpicas — AQ

Nosso enviado, Rodrigo Galego, conta sobre alguns acontecimentos que ele presenciou nas Olimpíadas que chamam atenção e reflexão sobre o esporte brasileiro.

Passados seis dias de jogos, vivo uma experiência diferente de tudo que já vivi. Estou “in loco” nas Olimpíadas e percebo este grande evento de maneira muito diferente. Não consigo acompanhar nada pela tv, mas em compensação vivencio os jogos como nunca havia experimentado. Estar levemente “alienado” do que acontece na tv me deu a chance de ver as coisas mais de perto. Resolvi então lançar, após estes cinco primeiros dias de competição, algumas tirinhas com breves notas sobre temas que considero relevantes sobre o esporte e tudo o que o envolve:

  • As Olimpíadas no Brasil podem iniciar o processo para um legado esportivo que eu não havia incluído na minha lista de reais legados olímpicos. O povo brasileiro pode aprender mais sobre assistir um espetáculo esportivo. Aplaudir aos dois times envolvidos, não enxergar o adversário como inimigo a ser aniquilado a qualquer custo, e sim como apenas um adversário dentro de quadra. É uma oportunidade a se repensar de tudo um pouco, principalmente para os mais jovens, que podem aprender sobre uma outra forma de se consumir um espetáculo esportivo. Precisamos fugir do lugar comum que estamos afundados. Estamos muito atrasados nisso como nação e é importante que entendamos que por mais emocionante que seja, aquilo que estamos presenciando e assistindo é apenas um jogo, com pessoas, culturas e valores acima de tudo que merecem ser respeitados e preservados.
  • Um momento em que isso me deu esperança foi na cerimônia de abertura. A abertura foi linda, com bom gosto de explorar a diversidade cultural mundial e brasileira e feito com gasto baixo, buscando a simplicidade, emoção e a inclusão de todos. Na entrada da delegação da Argentina, um grupo de espectadores esboçou uma vaia aos hermanos, esperando que fosse receber apoio de todo o estádio. E a esperança está aí, o restante do público não aceitou essa atitude e encobriu a vaia com aplausos e a delegação da argentina foi uma das mais ovacionadas.
  • Quantos aos jogos (estou acompanhando modalidades coletivas), foi bonito ver o Brasil no basquete e handebol e em como a torcida vibrava tanto no momento de vitória quanto derrota. Muitos aprendendo um pouco mais sobre os esportes em questão (regras, posições, etc). O orgulho da torcida em reverenciar o handebol feminino campeão mundial, o apoio incondicional à seleção de basquete mesmo quando estava perdendo por quase 30 pontos e com uma recuperação incrível que quase fez virar a partida e que dois depois a torcida presenciou uma emocionante vitória no lance final. O mesmo aconteceu no handebol masculino, apesar da derrota contra Eslovênia, a torcida não parou de apoiar um minuto, reconhecendo o imenso esforço dos atletas. E a mesma torcida vibrou com uma vitória incrível destes meninos que não desistiam ou desanimaram nos jogos seguintes. Não foram poucas vezes em que o nó na garganta apareceu e me emocionou vendo as pessoas se dando a chance de conhecer, vibrar, torcer por novas possibilidades. Não vou entrar na ideia e discurso de que o futebol rouba o espaço da diversidade. Não é o futebol o culpado, e sim a lavagem cerebral que fazem como se fôssemos um país incapaz de produzir outros tantos talentos e ter outras tantas qualidades.
  • Alias, sempre que vejo essa temática de que o esporte é uma das únicas alegrias e possibilidades de sucesso do brasileiro me incomodo muito. Pra mim, dizer isso é assinar um atestado de nossa falência enquanto Estado, colocando no esporte a única possibilidade de ascensão social de muitos e de viver momentos de alegria. O esporte é uma ferramenta incrível capaz de educar, transformar, unir e dar voz à muita gente. Mas não pode ser a única.
  • Se a culpa não é do futebol e sim do que fazem com ele, o que podemos questionar a partir desta afirmação? Na minha ótica, há um bloqueio forte para potencializar a difusão de outras modalidades. Talvez para o crescimento de outros não dividir a “paixão nacional”. No Brasil, primeiro precisa ser campeão mundial para depois acontecer o incentivo com transmissões. O Guga precisou ganhar títulos internacionais para seus jogos serem mais divulgados nacionalmente. A ginástica passou pelo mesmo processo. O handebol feminino ganhou um mundial recente e continua escondido nas matérias jornalísticas. A tendência mundial é a multiplicidade. Mais uma vez estamos atrasados como nação. Será que estamos nos preparando para isso ou continuaremos com o orgulho de ser um país de extensão continental e ao mesmo tempo monoesportivo?
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A torcida adotou a seleção feminina de handebol como seu xodó para torcer. Por que não se transformam em mais uma paixão nacional? (William Lucas/Fotos Públicas (08/08/2016)/Além das Quadras)
  • Por fim, na vitória do handebol feminino sobre a Romênia, não bastasse a linda festa da torcida diante da bela partida da nossa seleção, presencio um momento estranho quando um setor da arquibancada começa gritar desesperadamente sendo que o jogo estava parado e sem nenhum lance decisivo. O grito foi se espalhando pela arquibancada como que num imenso “telefone sem fio” até que todos começam a gritar “Rafaela! Rafaela!” Era a comemoração da medalha de ouro de Rafaela Silva, do judô. E mais uma vez, o nó na garganta me tomou conta, olhos marejados, na crença sempre brasileira e otimista de que um dia possamos nos tornar um país que não só torça por vários esportes de quatro em quatro anos, mas que também apoie, incentive, consuma, forme e eduque por meio do esporte. Parabéns, Rafa!

Rodrigo Leonardo