“Gompa: Prática”
Trecho do livro “O Cristal e o Caminho de Luz” de Chögyal Namkhai Norbu

Perguntaram ao grande mestre dzogchen Yungtön Dorje Pal:
- Que meditação você faz?
E ele respondeu:
- Sobre o que eu meditaria?
Assim, quem perguntava concluiu:
- Então no Dzogchen não se medita?
Mas Yungtön Dorje Pal respondeu:
- E quando é que eu me distraio (da contemplação)?
A distinção entre o que se entende pelos termos “meditação” e “contemplação” é essencial no Dzogchen. A prática de Dzogchen propriamente dita é a contemplação, que consiste em se estabelecer no estado não dual, que, por sua própria natureza, se autolibera sem interrupção.
Esse estado, que não é condicionado pelo nível conceitual da atividade da mente, também inclui o pensamento e o funcionamento do que em geral consideramos nossas mentes ordinárias.
O pensamento pode, e com efeito o faz, surgir na contemplação — mas na contemplação não se é condicionado por ele.
Uma vez que o estado primordial é inerentemente autoliberador, ao simplesmente deixar o pensamento sozinho, ele se autolibera.
Portanto, na contemplação — da forma que esse termo é utilizado no Dzogchen — a mente não faz qualquer esforço: não há nada a fazer ou deixar de fazer. Uma vez que “o que é” é autoperfeito assim como é, é deixado em sua própria condição.

Por outro lado, o que se quer dizer com “meditação” no ensinamento Dzogchen é uma ou outra das muitas práticas que envolvem o trabalho com a mente relativa, dualista, a fim de se capacitar para ingressar no estado de contemplação.
Essas práticas podem incluir vários tipos de fixação do olhar — que são feitas para levar ao estado de calma — assim como várias espécies de práticas de visualização e assim por diante.
Dessa forma, naquilo que é chamado meditação, há algo a ser feito com a mente, mas na contemplação não há.
Na contemplação dzogchen, livre dos defeitos da sonolência, agitação e distração, tanto os momentos de calma que ocorrem entre um pensamento e outro quanto os próprios movimentos de pensamentos são integrados na presença não dual da consciência iluminada.
O termo ‘rigpa’ (o oposto de ‘marigpa’ — a delusão fundamental da mente dualista) indica a presença pura dessa consciência inerentemente autoliberadora, na qual o pensamento não é nem rejeitado nem seguido.

