Leves enganos e parecenças

Foto: Thaís Velloso

“Melhor que Rapunzel!”. Foi o que ouvi de uma das minhas alunas do Ensino Fundamental quando terminei de ler em sala o conto “Fios de ouro”. Antes da leitura, o título, segundo as alunas, lembrou a história de Rapunzel. Mas a menina de quem fala a narradora de “Fios de ouro” tem uma vivência muito diferente: foi trazida da África para o Brasil, para ser escravizada aos 12 anos. “Da aldeia dela parece que só Halima sobreviveu em um tempo de viagem que durou quase dois meses. Das lembranças da travessia, Halima conseguia falar pouco”.

Em Histórias de leves enganos e parecenças, Conceição Evaristo faz o leitor experimentar sensações como o encanto, a empatia, a comoção e, entre outras, o fascínio pela beleza, ao produzir narrativas que reúnem afeto, mistério, fé, diáspora e cultura africanas. Como águas que escorrem por nossas margens sem desaguar em sumiço, suas palavras reluzem em nós feito o amarelo do vestido da moça que “cantou para nossa outra Mãe, para a nossa outra Senhora”.

Dessa forma, somos apresentados a uma escrita que emociona e nos põe diante da enchente, do vento, do baobá, roda da vida. O movimento das páginas se confunde com o balanço sereno das folhas verdes no alto de uma árvore com raízes que apontam para um futuro jamais dissociado do que passou. É assim que lemos o Tempo: nos pés do dançarino que, ignorando o afeto e a sabedoria das mulheres mais velhas que um dia o acolheram e curaram, perdeu o que tinha de mais valioso em seu corpo. “Os pés dele tinham ficado esquecidos no tempo, mas que ficasse tranquilo. Era só ele fazer o caminho de volta, para chegar novamente ao princípio de tudo”.

Denunciando sem ser panfletária, a literatura de Conceição Evaristo se mostra indiscutivelmente necessária, uma vez que o cânone, tal qual a sociedade, sempre manteve os mesmos privilégios e as mesmas condenações. Nas palavras de Eduardo de Assis Duarte, em seu livro O negro na literatura brasileira, isso é destacado: “Examinados os manuais — componente significativo dos mecanismos estabelecidos de canonização literária — , verifica-se a quase completa ausência de autores negros, fato que não apenas configura nossa literatura como branca, mas aponta igualmente para critérios críticos pautados por um formalismo de base eurocêntrica que deixa de fora experiências e vozes dissonantes, sob o argumento de não se enquadrarem em determinados padrões de qualidade ou estilos de época”.

Como a literatura não se faz das amarras desses chamados estilos de época, a originalidade da autora é o que nos move. No conto “Mansões e puxadinhos”, por exemplo, de forma singularmente lírica e aparentemente sutil, fica nítido como a atitude preconceituosa atinge a vítima de tal maneira que ela passa mesmo a se enxergar do modo como é julgada: “Esses, temerosos com a ameaça constante de que seriam mandados embora da área, pois havia algo de podre no ar, mesmo com a convicção de que não eram eles os culpados, foram tomados pela síndrome da assepsia compulsória (SAC). Vítimas então de um estado de espírito, um misto de medo e de culpabilidade, apesar de serem inocentes, passaram a lavar exageradamente, noite e dia, seus puxadinhos, seus corpos e seus pertences”.

Dotada de energia, a escrita afro-brasileira da autora lembra Zâmbi, fonte de luz maior, nas miudezas que dão vida aos dias e às noites. Em cada palavra selecionada, em cada narrativa, algo mais amplo nos é revelado, como se o outro lado da História — feito de questionamentos, encantos, dança dos corpos, tambor, riso subversivo e água corrente de rio — enfim estivesse sendo contado e ensinado. Do mesmo modo que a força da presença de Zâmbi transforma o mínimo contido nos farelos de pão na fartura do alimento para os filhos de Magnólia em “O sagrado pão dos filhos”, as intensas e precisas palavras de Conceição Evaristo, evocadas pela mesma força, se convertem na abundância de sentimentos capazes de humanizar ainda mais aqueles que as leem.