A Lovely Day, ou: redescobrindo Bill Whiters

Sempre penso que sou devedor de tributos. Quero prestar tributos a grandes artistas ou grandes obras que descubro, ainda que tardiamente, e que, por terem sido muito importantes para mim — as descobertas — , penso que o mínimo que posso fazer é homenageá-las. Pra mim, tornar esta obra, ou artista, do conhecimento de todos, é compartilhar a satisfação.

Isto acontece mesmo quando faço descobertas que podem soar bastante previsíveis para os iniciados. Ainda que sob o risco de receber o epíteto OLD para o que quer que venha a revelar, prefiro vestir minha armadura de singeleza e crer que compartilhar boas descobertas artísticas é como compartilhar bons sentimentos.

E, sim, sei que seria bastante previsível sugerir “Ei, você conhece Bill Whithers, aquele de Ain’t No Sunshine? Escuta este som!”

Seria previsível fazer uma indicação destas, até pelo fato de esta canção ser um sucesso mesmo para quem desconhece seu autor. “Ain’t No Sunshine”, vencedora do Grammy de Melhor Canção de R&B em 1972, ano seguinte ao seu lançamento, vendeu mais de um milhão de cópias quando o single foi lançado, sucesso nos Estados Unidos, Austrália, Canadá e Reino Unido.

E é fascinante conhecer a história por trás deste, que é o primeiro grande sucesso de Bill Whiters. O músico tinha 31 anos quando escreveu esta música, inspirado pelos personagens do filme Days of Wine and Roses:

“Eles eram ambos alcoólatras que alternavam fraqueza e força. (…) Às vezes você perde coisas que não eram particularmente boas para você. É apenas algo que me passou pela cabeça ao assistir esse filme, e provavelmente algo que aconteceu na minha vida da qual eu não estou ciente.”

Na canção, um soul poderoso e lamurioso, Whiters repete, no terceiro verso, a frase I know 26 vezes. Ele pretendia incluir mais letra, mas aceitou a sugestão dos músicos para deixá-la assim. Na época em que a música foi feita, Whiters ainda trabalhava em uma fábrica de assentos de privada. Quando o single foi agraciado com o disco de ouro, a gravadora de Whiters presenteou-o com uma privada de ouro, dando início à nova fase da vida do artista.

Michael Jackson cedo também prestou seu tributo, com esta versão incrível da canção:

Marinheiro gago

Bill Withers nasceu em Slab Fork, pequena cidade de mineração de carvão na Virginia. Caçula de seis filhos, nasceu com gagueira e, em suas entrevistas, descreve sua infância como um período difícil. Ele tinha treze anos de idade quando seu pai morreu. Aos dezoito, Withers alistou na Marinha dos Estados Unidos, onde serviu por nove anos. Foi somente durante este período que ele superou a gagueira e se interessou em cantar e escrever músicas.

Em 1965, Whiters foi dispensado da Marinha. Mudou-se, então, para Los Angeles em 1967, determinado a seguir a carreira musical. Antes disso acontecer, no entanto, Withers trabalhou como montador de várias empresas diferentes, apresentando-se em clubes à noite. Quando ele estreou com a canção “Ain’t No Sunshine, recusou-se a renunciar ao seu emprego por sua crença de que o negócio da música era muito inconstante.

Na sequência desta música, veio um talento capaz de reunir sucessos desde seu primeiro trabalho. Seu disco de estreia é Just I Am, de 71, puxado pelos singles “Ain’t No Sunshinee “Grandma’s Hands. Este, um soul bastante poderoso também, fato comprovado por esta versão em que Whiters a interpreta somente no violão.

Quando descobri Bill Whiters

O fato é que poderia descrever aqui toda a biografia do artista — que, diferente de vários nomes da época, não é relacionada a nenhum escândalo ou envolvimento com drogas. Poderia, também, enfileirar a coleção de sucessos que fizeram a trajetória de Bill Whiters e o tornaram um dos nomes mais importantes da soul music. Porém serei mais pessoal. Já que este é um texto sobre minha relação com Bill Whiters, intensificada por um fato recente.

Conheci seu trabalho indiretamente, através da versão da banda Raw Stylus de uma música que depois descobri ser sua. É o impressionante funk “Use Me”.

Versão de outro grande sucesso de Bill Whiters, "Use Me"

Lançada como single em agosto de 1972, “Use Mevendeu mais de 3 milhões de cópias, tornando-se rapidamente a nº 2 da parada Billboard Hot 100. Foi incluída posteriormente no álbum Still Bill. A performance da canção, ao vivo, gravada em outubro de 1972, foi incluída também no álbum Bill Withers, Live at Carnegie Hall, lançado em novembro do mesmo ano.

Depois desta descoberta, comecei a pesquisar mais sobre a obra de Whiters, sendo obliterado por este outro grande som, Just the Two of Us”. Gravada em 1981, por Whiters e Grover Washington Jr., foi incluída no disco deste saxofonista, chamado Winelight. A canção chegou a número 2 da Bilboard Hot 100, ficando lá por três semanas. Em 1982, ganhou o Grammy de Melhor Canção de R&B. Além de diversas outras, Will Smith foi um dos artistas que criou a sua versão para a música.

Eis por que estamos aqui

Quando achei que já conhecia tudo o que de mais impressionante Bill Whiters produzira, eis que me deparo com esta graciosidade em forma de canção. Era o fim de uma sessão do filme Pets, para a qual levei meu filho. E nas cenas finais, edulcorando a redenção que costuma ser o epílogo emocionante destas animações, reverbera pelo cinema esta pérola:

Poderíamos falar da inexorável linha de baixo clássico de um soul setentista, cama sonora macia para o vocal grave de Whiters. Poderíamos falar dos teclados gentis, marcando, como frases sussurradas, uma confissão que pode soar ingênua em tempos de corações empedrados. Poderíamos falar de uma confissão que pode soar ingênua em tempos de corações empedrados:

Then I look at you / And the world’s alright with me / Just one look at you / And I know it’s gonna be / A lovely day / lovely day, lovely day, lovely day

Poderíamos também falar do fim da canção, em que Whiters segura uma nota por incríveis dezoito segundos.

Porém, prefiro falar de sensações. De algo que vai muito além do que as definições técnicas e todos os conhecimentos acerca de clássicos soul dos anos 70 não conseguem abarcar. De não-eficiência de palavras, ainda que tentativas de encontrar a epifania nos mais diversos elementos — na voz, na melodia, na letra — , sejam feitas.

Prefiro falar de que é isto o que faz uma grande canção. Da tentativa infrutífera de tentar descobrir o que a torna tão fascinante e não conseguir. Apenas continuar a sentir o quão fascinante uma canção pode ser.

Alessandro Garcia é escritor. Autor de A sordidez das pequenas coisas (Não Editora, 2010), finalista do Prêmio Jabuti, segundo colocado no Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, com conto traduzido para o espanhol na Revista Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional.

Finaliza o romance A Zona da Invisibilidade.

www.alessandrogarcia.com