O cinema errático de Steven Soderbergh

Alessandro Garcia
Jul 10, 2017 · 8 min read

Acionar serviços on demand de conteúdo proporciona duas impressões: que o cinema atual é dominado por produções estreladas por Channing Tatum e que todas elas são dirigidas por Steven Soderbergh.

Há um complô mundial para alçar Channing Tatum à galã do momento. O que falar sobre, além do fato de que sua dificuldade em variações expressivas — e outros recursos próprios daquilo o que chamam atuação — o tornam o mesmo personagem em filmes tão primordialmente diversos quanto Querido John, longa que o consagrou, em 2010 (embora ela já tenha dado as caras anteriormente no filme cujo título nacional aproveitou o então hit do funk, Se ela dança, eu danço) e Anjos da Lei (baseado na série homônima dos anos 80, responsável por lançar Johnny Depp ao estrelato), cujo maior mérito é todo do sempre engraçado Jonnah Hill.

E existe um diretor contribuindo de maneira bastante esforçada para transformar Tatum neste galã. Este diretor é Steven Soderbergh, que parece ter se tomado de amores pelo ator, dirigindo-o em uma sequência fílmica bastante diversa, mas ainda assim incapaz de nos fazer crer que Channing Tatum consiga alguma variação além da que vemos em filmes como O Ataque, em que a Casa Branca vira um estande de tiros de um grupo paramilitar com a missão de pôr fim à vida do presidente dos Estados Unidos, protegido pelo personagem de Tatum.

Primeira lição de todo herói de ação: nunca olhe para trás durante uma explosão.

A relação do diretor com o ator teve início em À toda prova, de 2011 — filme padrão de ação cuja maior peculiaridade é ser estrelado pela lutadora de MMA Gina Carano, além de trazer à reboque, em atuações automatizadas (e algumas, constrangedoras), Ewan McGregor, Michael Douglas e Antonio Banderas. Michael Fassbender é o único que se salva — ; Magic Mike, em 2012, veio na sequência, sobre o universo dos strippers masculinos, seguido de Terapia de Risco, de 2013, em que Tatum estrela ao lado de Jude Law, Catherine Zeta-Jones e Ronney Mara.

Proficuidade, irregularidade

Somente elencando-se estes três filmes, já é o suficiente para nos darmos conta da irregularidade e dificuldade de análise da obra de Soderbergh. O diretor, que se consagrou com seu filme independente de baixo orçamento Sexo, Mentiras e Videotape, lançado em 1989, não tardou a mostrar sua proficuidade, ao mesmo tempo em que deixava claro sua capacidade de alternar-se entre produções de estilos, temas e propostas muito diferentes. No entanto, à despeito de seu nome assinar a direção de todos, é difícil encontrarmos a unidade que faz a obra de um diretor-autor ser algo facilmente reconhecível, independente do desafio cinematográfico ao qual ele se propôs.

Andie MacDowell e James Spader no primeiro filme do diretor.

Depois do seu primeiro filme, veio o cinema artê de Kafka, em 1991, ao qual seguiram-se algumas produções pouco significativas, sendo que Sodebergh só voltou a chamar atenção novamente em 2000, com Erin Brockovich, longa com o qual o diretor foi indicado e que consagrou Julia Roberts com um Oscar.

A polifonia errática de Steven Soderbergh tem prosseguimento com uma carrega repleta de altos e baixos, tanto no ponto de vista de consagração crítica quanto de sucesso comercial. Traffic, seu filme lançado também em 2000, foi reconhecido não somente por um minucioso trabalho de direção de fotografia: Soderbergh, que assina a fotografia com o pseudônimo de Peter Andrews, criou palhetas de cores diversas para cada um dos núcleos envolvidos com a indústria do narcotráfico, exercendo uma importante função narrativa, que auxilia o espectador a identificar, de imediato, qual das três histórias está sendo enfocada naquele momento. São filtros de cores que, além de tudo, criam o clima mais do que pertinente à cada situação: o frio azul para Washington e o jogo do poder, o amarelado para as tramóias mexicanas, e cenas mescladas em azul e amarelo para mostrar os bairros de luxo da Califórnia onde moram os barões das drogas. Além disso, o constante movimento de câmera, que foi operada sozinha pelo diretor, confere o ar documental que marca o filme.

A palheta cinematográfica multicolor de Traffic.

Com um elenco fantástico, que inclui Benício Del Toro, Don Cheadle, Michael Douglas, Catherine Zeta-Jones e Salma Hayek, entre outros, Traffic é, na minha opinião, o ponto mais alto da carreira de Steven Soderbergh, um trabalho primoroso com suas quase três horas de duração, que traça o complexo painel do narcotráfico, desde a origem das drogas até seus consumidores finais. Rendeu o Oscar de Melhor Diretor para Soderbergh em 2001, além de três outros: Ator Coadjuvante, para Del Toro, Montagem e Roteiro Adaptado.

Após Traffic, exatamente quando o autor poderia fazer qualquer coisa, Sorderbergh dá início à sua série de thrillers policiais, com a refilmagem do clássico de 1960, Ocean’s Eleven. Com a missão de, no mínimo, fazer jus à Rat Pack, grupo formado pelos atores Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford, o filme de Soderbergh é divertido e cheio de charme, mas tem como maior qualidade reunir um elenco milionário — composto por George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Andy Garcia e Julia Roberts — que reduziu seus cachês “pela diversão”, de estrelar juntos o filme com o título nacional de Onze Homens e Um Segredo.

A "Rat Pack" de Soderbergh.

Full Frontal, seu próximo filme, lançado em 2002, mostra novamente a oscilação de Soderbergh entre cinemão e cineminha. Claramente membro do segundo time, o filme flerta com o movimento Dogma, com sua tentativa de experimentação, provocando estranheza aos mostrar vários personagens, em histórias entrelaçadas: Catherine (Julia Roberts) e Nicholas (Blair Underwood) trabalham em um filme produzido por Gus (David Duchovny, de Arquivo X), que se prepara para festejar seu aniversário. Lee (Catherine Keener) tem um caso com Nicholas. E Linda (Mary MacCormack) vai descobrir em Gus um “desdobramento” de sua profissão de massagista. Enquanto isso, um teatro alternativo encena uma peça sobre Adolf Hitler. Agora, como amarrar tudo isto na cabeça do espectador? O diretor não se preocupa muito: se, a princípio, utiliza imagens perfeitas e coloridas para mostrar o “filme dentro do filme”, e imagens desfocadas e desbotadas para contar o que seria a “vida real”, até o final de Full Frontal o próprio cineasta desconstrói este “esquema”.

Espaço, plástico, guerrilha

Em Solaris, de 2002, novamente Soderbergh mostra sua capacidade de fazer grandes filmes quando lhe convém. Aqui, George Clooney é um psicólogo convocado para investigar o estranho comportamento dos integrantes de uma estação espacial que orbita o misterioso planeta Solaris, que perdeu contato com a Terra. Paranóia e a sensação limítrofe do que é ilusão e do que é realidade permeiam o filme inteiro, em uma descoberta que desconcerta Kevin, o personagem de Clooney, e garantem um filme lento, mas do qual é praticamente impossível despregar o olho.

O que é ilusão e o que é realidade, Clooney?

Após o esquisito Bubble, de 2005 (que conseguiu amplo espaço na imprensa americana ao disponibilizar o filme ao mesmo tempo nos cinemas, na TV a cabo e em DVD), feito com não-atores, seguiu-se o mediano O Segredo de Berlim. No meio disso tudo, as continuações Doze Homens e Outro Segredo, Treze Homens e Um Novo Segredo, a cinebiografia de Che Guevara, Che, dividido em duas partes, cujo maior “fato”, destacado pela imprensa nacional, é o de contar com a presença de Rodrigo Santoro. O Desinformante, que vem depois, em 2009, é uma incursão bem sucedida de Soderbergh na comédia, com um registro que prima pelo não convencional, um tom quase permeando o humor negro, com grande interpretação de Matt Damon como o mentiroso patológico Mark Whitacre.

Antes deste, no entanto, Soderbergh realiza um filme que, a meu ver, insere-se como uma ruptura não somente estética em sua carreira, mas que gera o mínimo de norte para o caminho que o diretor passa a trilhar. Confissões de Uma Garota de Programa, de 2009, não é só o momento em que o flerte do diretor com a filmagem em digital atinge seu ponto mais alto (o filme é captado com a badalada Red One). Sua escolha por Sasha Grey, estrela pornô, como a protagonista de uma trama em que interpreta Chelsea, uma prostituta de luxo em Nova Iorque, diz muito sobre os constantes questionamentos de Soderbergh sobre o cinema, que o diretor esboça desde seu primeiro filme e que encontra um eco confuso em Full Frontal.

A opção pelo digital

Em sua estrutura não-linear, Confissões de Uma Garota de Programa não somente gera o estranhamento metalinguístico pela utilização de uma atriz pornô no papel de uma profissional do sexo. A tarefa de recolher fragmentos — trechos de uma entrevista que Chelsea dá a um cronista sobre seu ofício, entremeados por pedaços de conversas que a prostituta tem com seus clientes e namorado — oferece recompensa a espectadores dedicados, retratando uma história íntima e complicada sem ceder a uma análise emotiva e piegas. Ao usar Sasha Grey, Soderbergh também não cede à tentação de expor os lindos atributos físicos da atriz de maneira gratuita, entregando cenas de nudez que passam ao longe da obscenidade ou do olhar puramente voyeur. É um cinema que, obviamente, tem uma carga comercial extremamente reduzida, o que justifica sua difícil aceitação e mesmo presença na cena cinematográfica convencional.

Depois daqui, a opção estética de Soderbergh consolida-se, com a utilização da Red One novamente em seu filme Contágio (de 2011). Mas, apesar de construir um visual que passa a identificá-lo, enquanto diretor, o filme tem um roteiro previsível e tedioso, em uma trama que apenas acompanha o desenrolar dos acontecimentos com a passividade do registro jornalístico televisivo.

Difícil é entender como o diretor embarca em um cinema que não se presta nem para o divertimento mais ralo, com Magic Mike. Completamente desprovido de estilo, não ganha em nada pelo fato de ser protagonizado por Channing Tatum (o filme seria baseado na própria história do ator), e poderia estar nas mãos de qualquer realizador.

Ainda que Soderbergh confunda constantemente os críticos e espectadores com sua obra difusa, a mediocridade à que chega com este é realmente perturbadora. Ainda bem que consegue retratar-se com seu filme seguinte, Terapia de Risco. Centrado na indústria dos medicamentos, traz Rooney Mara como a paciente cuja terapia à base de psicotrópicos ocasiona resultados aparentemente desastrosos. Em sua estrutura de thriller, resta ao psiquiatra interpretado por Jude Law desvendar os meandros desta trama, que, ainda que longe de ser uma obra-prima, permanece interessante mesmo com a presença do onipresente Channing Tatum.

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Alessandro Garcia é escritor. Autor de A sordidez das pequenas coisas (Não Editora, 2010), finalista do Prêmio Jabuti, segundo colocado no Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, com conto traduzido para o espanhol na Revista Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional.

Finaliza o romance A Zona da Invisibilidade.

www.alessandrogarcia.com

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Escritor. Finalista do Prêmio Jabuti. Traduzido para o inglês e o espanhol. Host do podcast Negro da Semana. www.alessandrogarcia.com

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