Sobre um romance em progresso

Alessandro Garcia
Jun 26, 2017 · 5 min read

Um trecho do trabalho que já me toma quatro anos de escrita, rumo ao fim.

É sempre difícil dizer qualquer coisa sobre um romance em andamento. Ainda mais um dos trabalhos mais ambiciosos a que já me propus. A Zona da Invisibilidade já me toma quatro anos de escrita e sigo trabalhando nele. Há a ansiedade pelo ponto final, mas um prazer sem fim pela escrita. O que posso fazer, se a alguém interessa, é voltar a publicar alguns trechos dele. Eis um dos mais recentes.

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Baré Cola, o nome do refrigerante. E é bizarro, como tudo o que é bizarro quando se tem dez, doze anos de idade, que ele fale Baé Cola. Inserção anteriorizada do freio lingual é o nome da sua disfunção, mas, para todos, Zé da Baé é só um sujeito que fala engraçado o nome de um refrigerante que todos têm que pedir quando vão ao Ramirez ou simplesmente quando têm que comentar, de forma gratuita Que puta vontade de tomar uma Baré Cola, caralho! Fala engraçado porque tem a língua presa, e cujo nome é justificado, como uma cartão de apresentação e um cardápio, por esta limitação — deixando claro desde o princípio que tipo de zoação se deve cometer com ele. Nada de tapa na nuca, toquinho na canela. Só uma risada galhofeira a cada vez que ele pronunciar uma palavra com a letra R. Serão muitas as oportunidades de risada galhofeira, portanto.

Agora imagine este garoto: inserção anteriorizada do freio lingual, língua presa, vamos lá; cabelo tigelinha, braços magros passeando livremente dentro de uma camiseta gigante, tentando dar jeito no seu quarto na casa recém-adquirida por seus pais naquele bairro sobre o qual não sabe praticamente nada — além de, mais uma vez, se parecer com o cenário de uma das dezenas de capas das fitas K7 que está tentando organizar na sua estante, a despeito do cabelo grudando na sua testa e atrapalhando sua tentativa de compilação ordenada.

Sugar Hill Gang, Grandmaster Flash and The Furious Five, Public Enemy, Run DMC, Beastie Boys. Boas companhias no seu processo frustrado de extravasar dores incompreensíveis aos outros. Uma catarse auditiva que envolvia sessões trancado em um quarto escuro e abafado com caixas de ovos nas paredes, para poder cantar junto, no volume máximo, versos que não deveriam fazer muito sentido para seus vizinhos, imersos no torpor de Jim Beam e dos Gauloises que os defumavam, sentados em suas varandas e jogando laranjas em direção aos moleques que tentavam acertar uma goleira de chinelos, com suas bolas de capotão. Versos dominados em um idioma que não é o seu e que ninguém espera que domine; infinitos ir-e-vir da fita magnética cansada de play, rewind.

Broken glass everywhere. People pissing on the stairs, you know they just don’t care

I can’t take the smell, I can’t take the noise. Got no money to move out, I guess I got no choice. Rats in the front room, roaches in the back. Junkie’s in the alley with a baseball bat

I tried to get away, but I couldn’t get far… *

A despeito da semelhança daquele lugar com a imagem do que deveria ser o Brooklyn ou o Harlem, estampando as obras de seus heróis do rap, as coisas ali pareciam bem mais arranjadas do que tinham sido até então.

A ideia da mudança não pegou ninguém repleto de felicidade. Havia pouca probabilidade de se imaginar alguma espécie de resort ou um bairro minimante decente, depois do que seu pai lhes arranjara até então. Sua mãe se recusava minimanente a discutir a ideia. Ela não se achava nem um pouco capaz de suportar o trauma de uma nova mudança, especialmente para uma vila da qual nunca ouvira falar, além do prospecto que seu marido tentou fazer com que ela lesse, sem sucesso, uma boa dúzia de vezes. Uma idílica e aprazível comunidade distante do Centro, mas próxima do sossego. Mesmo para Zé da Baé, desacostumado com os subterfúgios publicitários dos órgãos públicos em seus materiais comerciais, aquilo parecia uma peça para pegar imbecis desinformados. Só que era difícil que alguma coisa fosse pior do que ser abordado quase diariamente por seus próprios vizinhos perguntando se tinha algum para lhes arranjar. Ou ser acordado na madrugada por batidas na porta de compensado dos fundos, por outros vizinhos — estes já interessados em saber se era seguro tentar invadir a casa. A decisão do pai, de qualquer forma, fora tomada. Independente da sua mãe, que preferia passar quase todo o tempo no quarto, folheando velhas revistas de fofoca ou parecendo, para quem olhasse, que estava assistindo a Vale a Pena Ver de Novo, por baixo do aconchego do edredon, por baixo do calor do chambre, por baixo do torpor do cloridrato de sertralina.

Mas então eles foram. Estavam ali. Habitando uma casa que se unia ao termo comunidade, estampado no prospecto, porque era igual a todas as outras que seus olhos podiam alcançar. Espécie de colônia de férias com nenhuma praia à volta e só o brilho de um sol escaldante lhes recebendo, acompanhado de olhares de vizinhos que nem disfarçavam sua atenção, janelas escancaradas, alguns saindo à rua, interessados no mais novo clã branco demais para aquela comunidade, parecia. Não estavam ali para dizimar com a aprazível comunidade. Zé da Baé esperava que o torpor de sua mãe, sendo descarregada do pequeno caminhão que lhes trouxera, como se fosse também ela uma das velhas quinquilharias que apinharam na caçamba, parecesse aos outros um atestado de tranquilidade. Olhem, vizinhos pacatos e silenciosos meneiam suas cabeças recém-chegadas em nossa direção! Saudê-mo-los, portanto. Parecem boa gente!

A casa cheirava à tinta, nas suas múltiplas demãos anteriores à sua chegada, e isto era bom. Pinceladas mal dadas sobre rodapés de madeira que não deveriam ser atingidos eram justificados pela fortaleza, muito distante do compensado da casa anterior que parecia feito unicamente para ressoar socos de vizinhos trincados de pó. Tijolo maciço lhes envolvendo, segurança de paredes nas quais se podia bater, pregar quadros, encostar móveis sem temer a possibilidade de desabamento sobre algum desavisado dormindo no quarto ao lado. O móvel está encostado na parede, uma estante toda sua para enfileirar sua coleção de K7s e seu pequeno Panasonic, ecoando sua canção-tema. Repetição ad infinitum de bumbo, inexorável linha de baixo incansável e uma espécie de deboche agudo gerado por sampler, cama sonora para o vocal grave de Melle Mel.

Junkie’s in the alley with a baseball bat.

Mas agora estava distante de tudo. O pai tomara o prumo. Fizera o que tinha que ser feito. Fugiram para longe dos socos nas paredes de compensados, de vizinhos revirando os lixos uns dos outros.

Mas o quão longe estão?

I tried to get away, but I couldn’t get far…

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* “Cacos de vidro em todos os lugares. As pessoas urinando nas escadas, você sabe que eles simplesmente não se importam. Eu não aguento o cheiro, eu não aguento o barulho. Não tenho dinheiro para sair, eu acho que não tenho escolha. Ratos na sala da frente, baratas nos fundos. Drogados no beco com um taco de beisebol. Eu tentei fugir, mas eu não podia chegar longe.” (N. A.)

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Alessandro Garcia é escritor. Autor de A sordidez das pequenas coisas (Não Editora, 2010), finalista do Prêmio Jabuti, segundo colocado no Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, com conto traduzido para o espanhol na Revista Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional.

Finaliza o romance A Zona da Invisibilidade.

www.alessandrogarcia.com

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Escritor. Finalista do Prêmio Jabuti. Traduzido para o inglês e o espanhol. Host do podcast Negro da Semana. www.alessandrogarcia.com

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