Esportes, doping e autonomia

Eu não me meto, ao menos teoricamente, em questões relacionadas com a pauta de gênero. Primeiro, que tem gente muito melhor que eu para falar sobre o assunto, segundo, por que não é, exatamente, meu tópico de estudos.

No entanto, essa história me motivou a escrever algo.

Para resumir: um adolescente no Texas passando pelo processo de redesignação sexual de mulher para homem queria competir com homens na competição estadual de luta greco-romana. A comissão desportiva do Texas agiu de forma totalmente escrota com o adolescente, referindo-se o tempo todo (apesar de saber que ele passava pelo processo de redesignação) como “ela” e insistindo que ele apenas poderia competir entre as mulheres.

O adolescente decidiu competir, e venceu.

É importante destacar que o adolescente queria competir entre os homens, pediu isso, e teve o pedido negado.

Pois bem, eu acho que cabem questões aqui que eu penso que são, sobretudo, questões de bioética, autonomia e de risco — daí que eu me sinta um pouco mais confortável em escrever sobre o assunto.

Primeiro lugar, não chamar uma pessoa que está passando por um procedimento de redesignação sexual pelo pronome que ele ou ela deseja ser chamado é uma coisa grotesca. No caso da comissão desportiva do Texas é uma forma de dar um recado bem claro de que não reconhece a legitimidade do que a pessoa tá passando. Isso é ridículo.

Daí se conclui que uma pessoa passando por um procedimento de redesignação sexual, e que está tomando hormônios, pode participar de esportes competitivos onde a ingestão de hormônios é considerada uma vantagem indevida?

O argumento do adolescente é que o uso de testosterona, no caso dele, cabia dentro da chamada “exceção médica”.

Casos de exceção médica para uso de substâncias proibidas, em esportes de combate, geralmente são concedidas em casos onde uso do medicamento não era para melhoramento estético ou para procurar uma vantagem indevida, mas necessário para a saúde do competidor. No UFC, até bem pouco tempo, se permitia a chamada terapia de complementação de testosterona, que era uma estratégia que lutadores mais velhos usavam para melhorar seu tempo de recuperação entre lutas, e de manter uma certa velocidade — mas o argumento era que esses lutadores tinham “deficiência na produção de testosterona” por essa ou aquela condição médica. Com o tempo, o UFC simplesmente cortou a possibilidade do uso da complementação, ao perceber que, bem, era só um argumento sofisticado para permitir o doping.

No caso do adolescente, a comissão do Texas aceitou a exceção do uso do medicamento — que o adolescente só toma na medida que está em processo de redesignação sexual para Homem — e permitiu que o adolescente competisse com mulheres.

A situação é bizarra em diversas fontes. Primeiro, podemos passar dias aqui perguntando se competições de força não deveriam fazer diferenças de gênero. Por exemplo, mulheres que quisessem competir com homens deveriam poder fazê-lo de forma competitiva? Essa não é a discussão, no entanto. As regras, como estão, não permitem que homens compitam contra mulheres. Ponto.

No entanto, ao permitir que esse adolescente competisse com mulheres, a comissão do Texas de fato permitiu que um homem competisse entre mulheres. E ainda colocou as competidoras numa situação complicadíssima onde desistir da competição poderia implicar em perda de status e patrocinadores, e aceitar poderia implicar em perder uma luta que era manifestamente injusta.

Mas eu queria ampliar um pouco a discussão: esse adolescente poderia competir com os homens?

Eu diria que não, infelizmente.

A questão não é de gênero, vejam bem. É uma questão de autonomia e de risco. Ele tem toda liberdade de correr o risco de praticar o esporte que bem entender, mas não tem a liberdade de impor que outros compitam com ele quando ele está usando substâncias que podem implicar em um risco não calculado (ou inadmissível) para os outros competidores.

O ponto aqui é: se para praticar um esporte você precisa tomar certas drogas, então talvez você não deva participar de competições desse esporte.

“Mas meu sonho é ser lutador profissional”

Bom, parece que não vai rolar nesse caso.

Ao menos até a gente conseguir controlar os fator de risco externo, ou aceitar que melhoramento genético/hormonal não é algo que deva ser impedido e que todos esportistas que desejam competir devem ter a liberdade de usar as drogas que bem entenderem para melhorar a própria performance. No entanto, ao menos por enquanto, nenhuma das duas coisas parece ser o caso.

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