Nós híbridos

Li o artigo da professora Tatiana Roque, no Le Monde Diplomatique Brasil ontem e, desde então, não consegui parar de pensar nele. A discussão me interessa diretamente, na medida que passei os últimos dois anos me debatendo com discussões sobre as diferentes concepções de pessoa dentro do liberalismo.

A Tatiana (e eu espero, se ela ler aqui, que não se importe de eu chamar ela pelo primeiro nome, na medida que a gente não se conhece, mas eu detesto ficar escrevendo “a professora”, e essa minha tentativa de economia léxica acabou de me custar um parênteses inútil, mas vamos lá), aponta para o que eu chamaria do núcleo duro da concepção política de pessoa no Locke, que se sustenta em três colunas inter-dependentes: propriedade, trabalho e liberdade. Quanto mais propriedade tu tem, mais lugar tu tem para produzir, quanto mais tu pode produzir, mais tu tem poder, quanto mais poder tu tem, mais livre tu te torna, quanto mais livre tu és, mais propriedade tu pode adquirir. Esse processo intelectual e material, no Locke, vai dar em uma concepção bem rígida de meritocracia, onde o pai do libertarianismo vai basicamente concluir que se somos iguais para buscar livremente nossa idéia de bem, então o lugar onde acabamos e como acabamos na sociedade é fundamentalmente responsabilidade nossa. Thomas Jefferson gostou tanto da ideia do Locke que escreveu uma carta de intenções para uma nação hipotética com base nela, e chamou de “Declaração de Independência dos Estados Unidos da América”.

Mas o libertarianismo Lockeano tem uma concepção de pessoa? Ele tem uma concepção de bem? Ele é, por exemplo, uma ideia de consumismo ou de meritocracia pelo acúmulo de capital?

Eu acho que a gente não fala o suficiente na jogada retórica que é feita a partir do final dos anos 70 com relação ao discurso liberal. Tenho incomodado o pessoal com isso faz tempo, mas vamos lá de novo, e espero não chocar ninguém dizendo isso:

O neo-liberalismo, enquanto fenômeno político, não exige uma concepção rígida de pessoa. Ao menos não na origem. Eu desafio vocês a acharem no trabalho do Hayek, no trabalho do Friedman ou mesmo no trabalho do Von Mises (e Deus abençoe vocês se vocês forem se meter a ler o Von Mises) uma concepção rígida, pré-definida, de pessoa. O ponto desses economistas é justamente que uma economia sem pressões e regulações externas deixaria as pessoas livres para buscarem seus próprios interesses — suas próprias concepções de bem — sem a imposição de uma determinação econômica pública e burocrática que só atrapalha o bem estar individual. Esse debate que é resgatado no final dos anos 60 até o final dos anos 70 vai criar, pelo menos na opinião deste escriba, uma repetição do debate entre Hamilton e Jefferson sobre fiscalidade e o papel do Estado em, através da economia, estabelecer prioridades não apenas fiscais, mas também morais. No debate contemporâneo isso é o que a gente chama do debate sobre a dicotomia entre fato e valor, que deu no período mais profícuo de filosofia política dos últimos 100 anos, com a publicação de textos como o Theory of Justice (sem dúvida o trabalho em liberalismo politico publicado nos EUA mais influente desde o Federalist Papers), o Rational Fools, o Morals by Agreement, o Thinking Fast and Slow, e por aí vai.

O que eu quero dizer com isso é o seguinte: a principal dificuldade de abordar a ideia de pessoa no neo-liberalismo é que ela é, por natureza, híbrida. Qual é a natureza humana no neo-liberalismo? Qual que tu quer que seja? Bota uma aí. Deve funcionar.

Esse hibridismo é inicialmente interessante na medida que vamos voltar para aquele mecanismo do Locke: tu quer me dizer como viver a minha vida? Bem, eu gostaria de te ver tentar. Desce aqui e dá a ordem de novo. Só que o problema é que… bem, a ideia de sujeito aberto, auto-interessado e totalmente sob controle das condições mecânicas e consequências mecânicas das próprias ações, que é central para a narrativa neo-liberal, bem, essa ideia é demente.

Essa demência fica bem clara quando os próprios neo-liberais, a partir da década de 80, transformam a narrativa “aberta” de sujeito, que poderia procurar qualquer ideia de bem, em uma narrativa “fechada” — ser um indivíduo seria ser um indivíduo capaz de consumir bens e poder de consumo é o maior marcador de cidadania (a crítica a esse modelo rendeu a Sen um nobel de Economia, não vamos esquecer).

Essa virada é o que a gente pode chamar de virada conservadora dentro do discurso liberal, e ela foi deliberada.

Vejam, o discurso libertário clássico tava pouco ligando para questões de foro privado. Para um cara educado em uma dieta de Locke, com tempero de Friedman, a ideia que o estado poderia definir e determinar quem pode casar com quem e em quais circunstâncias, ou o que uma mulher pode ou não pode fazer com o próprio corpo, seria totalmente inaceitável — claro, também seria inaceitável o Estado impor uma concepção de meio-ambiente para empresas, e inventar de dizer que tinha que regular emissão de gazes. Deixa o mercado se auto-regular, pô!

Como é que isso vai dar no Reagan, então?

O casamento entre os libertários e os conservadores, creio eu, é inicialmente estratégico. Mas com o tempo, o movimento conservador de Pat Buchanan vai pegar essa tabula rasa do sujeito Lockeano do neoliberalismo e desenhar ali um modelo de consumidor padrão, uma espécie de modelo de homem ideal para a economia de mercado.

Oi. Eu sou a cria diabólica de Ayn Rand e Buchanan.

(Ayn Rand não é sério. Não leiam Ayn Rand. Não acreditem em pessoas que dizem para vocês lerem Ayn Rand.)

Essa virada conservadora é interessante porque ela mata duas frentes das guerras culturais internas ao liberalismo. Primeiro, ela mata o liberalismo da linha Milliana e de Adam Smith, que vai defender uma ligação direta entre escolhas individuais e valores sociais (ou entre estados de coisas e estados mentais), e ele transforma o libertarianismo aberto do Locke em uma doutrina fechada, quase dogmática, sobre o que significa uma vida boa — mas uma vida boa que agora é restrita, fundamentalmente, à tua capacidade de acumular bens e capital.

Os Neo-cons, é importante ressaltar, foram uma espécie de resistência interna aos elementos mais extremos desse discurso conservador religioso e libertário. Por mais estranho que possa parecer dizer isso agora, existia certa ortodoxia no modelo neo-con. Tanto que muita gente, dentro do movimento conservador, criticou o Bush por ser excessivamente comprometido com o Medicare e outros programas sociais.

Essa tensão com a presença do governo, considerada excessiva, junto com uma ansiedade com um modelo de pessoa que agora voltava a ser aberto e não tão vinculado com uma narrativa de progresso e sucesso pessoal foi dar no Tea Party. Não acho que dá para ter alguma dúvida que o Trump representa a chegada do Tea Party ao executivo norte-americano, e o Tea Party, em grande medida, foi uma reação Lockeana/Jeffersoniana à um governo liberal clássico, de linha Milliana/Hamiltoniana, tentado pelo Obama.

Quando a Kellyane Conway, uma das principais acessoras do Trump, vai vestida fantasiada de Minutemen (Minutewoman, no caso) para a posse do Trump, ela tá mandando um recado claro sobre isso, diga-se de passagem.

Aqui, para fechar, volto para o artigo da Tatiana, com o qual o meu só tem uma semelhança de família, para apontar para uma questão interessante: o que o movimento conservador foi capaz de fazer com o libertarianismo, do ponto de vista ideológico, foi genial: eles pegaram uma tábula rasa, um vácuo híbrido num conceito de pessoa, e encheram ele com uma noção dura, determinada, de pertencimento, prática social e dinâmicas individuais — quase todas baseadas em um set simples, facilmente verificável, de consumo e expressão de personalidade pelo consumo aliado com presença em comunidades religiosas onde você mostra o que está consumindo e como e com qual propósito (e o propósito, aliado ao da comunidade, te torna um membro efetivo desse grupo). Esse movimento só é paradoxal se vocês não leram o Jefferson.

Por outro lado, a esquerda abraçou com força uma ideia multifacetada e aberta de pessoa e grupo social. A organização política dessa noção multifacetada e aberta de grupo social, aliada com os problemas que uma economia baseada em serviço traz (e isso é um problema demasiado longo para falar nesse post, que já ficou meio gigante), tá se mostrando difícil de manejar. Como organizamos grupos difusos, com demandas distintas e interesses peculiares? Nós queremos organizar esses grupos em um só núcleo?

O problema é: a difusão dos grupos de “esquerda” (que eu chamaria apenas de “liberais”) tornou fácil para uma agregação de indivíduos não-liberais se organizar ao redor de uma plataforma única, que pode ser resumida como “qualquer coisa menos liberalismo”.

A reação fragmentada ao governo Trump e ao Brexit, aqui, são ilustrativas tanto do potencial quanto dos limites de uma resposta ao iliberalismo. Mas isso a gente pode discutir outra hora.

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