O Uber e o mito do mito do livre mercado

Semana passada peguei um Uber para ir até o médico. Minha primeira surpresa: era um Uno todo fodido. Como sempre, resolvi bater papo com o motorista — e algumas coisas me chamaram a atenção.

Quando começou o Uber eu me dei conta de duas tendências: é mais fácil se tornar motorista de Uber (registrar uma pessoa) do que ser um carro para o Uber (registrar um carro). O que aconteceu com o tempo, é que o pessoal mais ágil, e com mais capital, registrou vários carros em vários lugares. Essas pessoas, agora, estão contratando motoristas registrados no Uber, mas sem carro, para dirigir os carros (exatamente no esquema de Taxi), e apostando que os passageiros não vão estranhar que 1) o motorista não é o registrado; 2) o carro as vezes também não.

Também tem um esquema interessante, que o motorista me explicou, que a galera encontra uma brecha no sistema do Uber, se registra como motorista e vai numa locadora, e, ato contínuo, registra o carro da locadora como carro do Uber. Não sei, exatamente, se isso é papo do motorista — mas se é, as locadoras se tornaram, de fato, prestadoras de um serviço de aluguel de carros registrados para motoristas registrados no Uber alugarem e trabalharem uma tarde — mais uma vez, num esquema parecido com o dos Taxi.

Então, inicialmente, eu queria fazer um papel que pouca gente faz melhor que eu, que é o de “membro antenado da nova economia, eleitor do Novo”:

“Oi filhão, vamos comprar uns carros e fazer um mercadinho livre?”

- Quem acha que isso é resultado da desregulamentação e da mão invisível está: certo. A mão invisível favorece quem aposta primeiro, quem aposta mais e quem tem mais para apostar. Quem não entendeu isso, não leu o troço direito.

- “Mas isso é errado” — ninguém se importa com tua noçãozinha de certo e errado, o ponto aqui é fazer mais dinheiro, mais rápido em buracos de entravamento para o processo de fazer mais dinheiro mais rápido. Quem é menos favorecido, nesse modelo, (digamos, o motorista que vende o tempo dele por um valor menos vantajoso) vai ter exatamente o ganho que merece no contexto — ou melhor, o ganho que ele está disposto a trabalhar. O que vocês chamam de “precarização”, o camarada tá chamando de “trickle down economics”.

- “mas isso não funciona” — o valor do Uber na bolsa é maior que o da Petrobras, e o Uber se tornou o maior agente no desenvolvimento de tecnologias de mecanização de motoristas no mundo. Me explica, do ponto de vista estritamente atuarial, como é que isso não funciona?

- “Mas as pessoas estão trabalhando por nada” — correção: as pessoas estão vendendo o trabalho delas pelo valor que elas estão dispostas a vender. É nada para ti. Para a pessoa vendendo, é o valor da hora dela.

- O Estado tem que interferir, então, para regularizar isso! — Mais ou menos como interfere no caso dos taxis, permitindo a atuação de cooperativas que vão se organizar para, bem, fazer exatamente o que o Uber faz?

(/fim do papel)

“Isso é resultado natural da política natural e da ideia de mão invisível e auto-regulação”

Tem formas e formas de fazer modelos liberais. Eu entendo o espírito de porquice enquanto modo de vida que motiva a adoção de uma perspectiva ultra-individualista. Mas também é possível, para um modelo liberal , reconhecer algumas características diferentes no que a gente entende como “mão invisível” e a forma como a mão invisível vai funcionar.

O primeiro ponto aqui é que o mecanismo de auto-regulação pressupõe uma série de condições de competências e igualdades entre o agente (um pouco parecido com o que o John Rawls sugere no Teoria da Justiça, mas sem aquele monte de Kant).

Uma desvantagem de falar sobre essas coisas (e aí entra, de novo, o ponto dos neoliberais), é que a gente vai precisar perder tempo discutindo coisas como “moral” ou sobre quanta igualdade é igualdade suficiente. O ponto do liberal, via Friedman, é dizer: escuta, para com essa merda, e vamos deixar as pessoas se virarem. Quem se der mal, se deu mal porque não sabe se virar, e não é nosso papel ser babá de incompetente.

Acreditar nisso requer um grau de puerilidade relativamente alto, e também ignora que, bom, mais cedo ou mais tarde o tipo de relação de trabalho e de mercado que surge dessas trocas é um tanto insustentável — a questão do Uber pode ilustrar isso relativamente bem, na medida que a precarização não é só do trabalho do motorista, mas do serviço, e, no fim das contas, da marca.

Só que o cara que defende o modelo do Uber vai dizer: sim, é assim mesmo. E daí o Uber vai morrer, a gente vai pegar uma outra plataforma, dizer que “essa aqui não tem os problemas do Uber”, ela vai morrer também, e daí vamos para a próxima.

A gente vê isso na prática, todos os dias, em empreendimentos que vão do serviço de motorista de carro até o restaurante da moda, passando por BARBER SHOPS. O empreendedor vai dizer: vou explorar essa ideia, essa tendência, quando ela passar, fecho, conto meus pilas, e abro um novo negócio na nova tendência.

Muita gente ( eu incluso) vai chamar esse modelo de predatório — e ele é predatório, sobretudo, para o pessoal que trabalha nesses locais, mas também é para as comunidades onde esses negócios vão abrir e fechar. Esse tipo de conduta tá mudando as nossas relações com nossos bairros, com nossos vizinhos, e inclusive com a nossa família, de formas que a gente ainda tá começando a entender — um dos livros mais importantes dos últimos vinte anos fala exatamente sobre isso.

Leiam esse livro, pelo amor de Deus.

O problema aqui é, se tu tá na posição do administrador público, o que tu faz?

Tu tem na tua frente um cenário desolador no transporte público, onde tu não consegue apoio para medidas de reforma dos ônibus, o sistema de Taxi é um horror, e aparecem esses apps. Muita gente com grana (portanto, em condições de ser ouvida por ti) demanda o serviço, na medida que ele é um pouco mais barato, e um pouco melhor. Do outro lado, pessoas falam coisas abstratas sobre condições de trabalho que, na realidade, já não são fato tem mais de vinte anos.

Tu tem empresários com muita grana abrindo negócios e depois fechando. Mas eles são as únicas pessoas em condições de fazer esses negócios. O que tu faz? Tu coloca entrave? Mas eles são os caras que pagam tua campanha! Tu tenta abrir para mercado de bairro? Mas o bairro tá completamente fodido e a tal da economia popular não tem as condições básicas para funcionar.

“Mas investir nesse tipo de modelo re-afirma desigualdades sociais”

Sim, é verdade. O problema é que do ponto de vista de administração pública essas considerações de fundo filosófico e teórico são secundárias. A pergunta tem que ser: qual é a alternativa?

Mercado livre para quem?

A economia alternativa (de verdade, não a de filhos de papai ricos e com um lugar na mesa na secretaria da fazenda) é um bom exemplo aqui. As pessoas acham formas de trabalhar, de procurar alternativas — e daí surge o poder público e de uma hora para a outra resolve ficar bem literal com esse papinho de regras de conduta e plano diretor (coisas com das quais o cara que explora, de forma predatória, um negócio num bairro rico não precisa se preocupar pois: conhece as pessoas certas).

Como a Rosana colocou na coluna dela na Carta Capital, o empresário que explora buracos na legislação trabalhista, inicia um negócio, e maximiza o tanto de capital que já tem, é um empreendedor de sucesso, a mulher que vai para a rua vender lanche, é uma criminosa atrapalhando o bom andamento da cidade.

O interessante é que do ponto de vista estritamente comunitário, a conduta da mulher que pega um isopor, e vai vender lanche na rua, maximiza muito mais utilidade do que a conduta do cara que vende um serviço de utilidade questionável na zona mais abastada da cidade. Mas o segundo tem mais reconhecimento público, na medida que ele já tem o capital necessário para ser reconhecido como membro efetivo da comunidade política.

(a palavra código para isso no Brasil é “sou contribuinte”)

Enquanto isso, seguimos com poucas iniciativas, de fato, para uma inclusão inteligente e incentivo para atitudes de mercado que possam ajudar a construir relações políticas mais interessantes e mais significativas. Pessoas abastadas brincam de ser “empresários antenados” fazendo negócios para a “nova economia”, e ganhando incentivos do Estado para abrir cervejarias e restaurantes temáticos.

Seu rico dinheiro para impostos, aplicado

Uma provocação final:

Me parece que o problema maior é de cultura política, e não de modelo econômico. Não acho que dá para simplesmente culpar “neoliberalismo” ou “mercado” nessas horas. A questão é mais funda, e parte disso é como qualquer modelo de mercado no Brasil parece favorecer sempre os mesmos agentes de sempre — a diferença é como sobra um pouco para quem tá do lado de baixo da pirâmide.

Acho que um bom ponto, e tenho insistido isso em aula, em artigos, e em conversas de bar, é voltar para modelos de enfoque em criação de competências, via foco em educação pública e prioridades ambientais (o que inclui, por exemplo, saneamento público). Só que é mais fácil falar sobre essas coisas do que fazer essas coisas, especialmente quando quem tem dinheiro para definir o discurso público não tá muito interessado em perder esse dinheiro (mais uma vez, uma questão de cultura política)

Quem se interessa mais sobre essas coisas, sugiro ler o report definitivo sobre desigualdade e capacidade do Sen e do Stiglitz, aqui.

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