A outra face do belo

foto: Martin Parr

Em uma busca incessante pelo belo, pelos padrões estéticos cada vez mais supervalorizados pela sociedade do consumo, a estética das coisas e as coisas da estética fazem parte da integração social, assim como da experimentação do que chamamos de vida. Contudo encontramos uma tentativa ou pelo menos um questionamento sobre esses padrões de estética, será que estamos fadados a sermos prisioneiros da estética ou reformularemos o que até então entendemos como belo?

O Belo, a face da beleza, resultado das tradições da consciência e da cultura, subjulga: é impiedoso. A mulher, por exemplo, é valorizada pela sua beleza e condescende a esta pré-ocupação de ser e manter-se bonita, de participar desse teatro de ser olhada e admirada como sugerido pela indústria da beleza . Valéry denuncia a inutilidade de uma estética do belo: “O prazer existe apenas no instante e nada mais individual, mais incerto, mais incomunicável. Os juízos que se fazem não permitem qualquer raciocínio, pois ao invés de analisar seu tema, na verdade a ele acrescentam um atributo de indeterminação: dizer que um objeto é bonito é dar-lhe um valor de enigma.” Para Valéry, a natureza da beleza não pode ser definida, ela é justamente, o indizível.

Mas encontramos em alguns fotógrafos como Martin Parr, Bruce Gilden, Lee Jeffries, uma busca que chamarei aqui de o anti-belo, justamente por não enquandrar-se nos padrões estéticos atuais, fugindo do status pertinente de que quanto menor o distúrbio, mais belo torna-se e quanto mais belo, mais fácil para decifrá-lo. Pelo contrário, em suas imagens podemos justamente encontrar o oposto, maior o distúrbio, por apresentar o que escolhemos não ver, o anti-belo. O mundo dos valores estéticos não se divide mais entre o “Belo” e o “Feio”, acaba-se caindo em um ciclo interminável: “feio-bonito-belo-kitsch-feio”. Talvez aí resida o trabalho desses fotográfos, que perambulam entre as zonas desse ciclo, até a hora em que abandonarmos esses conceitos, valores e padrões estipulados pela indústria, e admitirmos ou aprendermos pelo menos a respeitar o belo como um todo, livre de rótulos, padrões e regras. Assim como Bruce Gilden, também concordo que “há beleza em tudo”, apenas precisamos abrir nossos olhos e pré-conceitos para podermos enxergá-la.

Originalmente publicado pela Revista OLD em http://revistaold.com/blog/a-outra-face-do-belo/

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