Buscando referências

fonte

Não se reconhecer é um grande problema que nós LGBT temos. Desde pequeno eu ouço que ser Gay é errado, é uma escolha e um comportamento que pode ser mudado, basta querer. Muita gente cresce nesse ambiente hostil, principalmente em nosso país, onde pessoas matam a troco de nada, onde animais (posso nem chamar de pessoas) tiram vidas uns dos outros por conta de camisa de time, a terra da ignorância.

Enfrentar tudo isso não é fácil, é enfrentar a si mesmo, afinal as nossas raízes são cravadas nessa terra poluída. Nosso primeiro contato com vida social se dá na nossa família é através dos valores dela que a gente vai moldando nosso caráter. Naturalmente na adolescência a gente questiona alguns valores, mas isso pode vir em um momento um pouco tardio, como foi meu caso.

A internet sem dúvida me ajudou a me construir novamente, fui vendo a normalidade de ser gay o que me deu coragem de viver minha sexualidade como ela é. Mas ainda dói. As palavras da conversa com meus pais ainda latejam na minha cabeça e é difícil suportar a sensação de estar deslocado. É como seu eu morasse com estranhos e trabalhasse com familiares, me vejo contando da minha vida pessoal no serviço mas não posso falar disso dentro da minha casa, com as pessoas que mais amo. Essa dor é algo que enfrento diariamente, olhando para o céu e perguntando para Deus “Até quando?”.

Busco refúgio nos canais LGBT do YouTube, ultimamente os de casais que expõe seus relacionamentos, compartilham de suas experiências como amantes e como pessoas que são, pessoas normais. É nesse tipo de conteúdo que me acalento, que mantenho a esperança de um amanhã melhor para mim enquanto gay. São essas referências que eu preciso ter todas as semanas para me fortalecer e continuar lutando pelo preconceito velado, pelo silêncio acusador dos meus pais sobre o assunto, pelo barulho do eco das coisas terríveis que ouvi deles.

Tudo nessa vida passa e tudo tem seu tempo certo de acontecer, ainda não tenho condições de sair da casa dos meus pais mas eu me pego a cada instante pensando nisso, me machuca saber que preciso me afastar de minha mãe para poder viver sem esses fantasmas todos que me apavoram, e eu morro de medo de acreditar de novo que minha sexualidade é errada, que o que eu sou é motivo de tristeza e desgosto para minha família. Por isso ter me aceitado e me assumido nesses últimos anos foi algo maduro, pois hoje sou livre fora da minha casa, ou quando estou dormindo, e estar fora da caixinha me dá oxigênio suficiente para esclarecer minhas ideias.

Não é fácil estar cercado de tanta intolerância e ser esmagado por uma norma que te excluí em todos os meios públicos, e buscar referência é o melhor que podemos fazer, é isso que tenho feito e aconselho a qualquer um que esteja no início dessa caminhada.

Like what you read? Give Allan Penteado a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.