Eu não queria andar com um gay.

Uma colega de trabalho anunciou — Nosso amigo, fulano, vai vir trabalhar aqui na prefeitura também, a gente vai poder almoçar juntos!

O fulano é gay, e aquele era o meu primeiro emprego, eu tinha 16 anos e tudo o que eu mais queria na minha vida era fugir desse “rótulo” que me machucou por anos por causa do bullying. Ser gay era como um suicídio social na adolescência, além do mais, eu fazia de tudo para que as pessoas não me reconhecem assim. De fato, eu afirmava minha suposta heterossexualidade aos quatro cantos, pois na minha conturbada cabeça ser Gay era muito errado.

Eu entrei em choque. Como assim um gay almoçar na mesma mesa que eu e andar no mesmo grupo que o meu? Iriam achar que aquele era o grupo dos gays, iriam achar que eu era gay.

Pensei em mil hipóteses daquilo não acontecer, até na possibilidade de ir almoçar mais tarde que a chefe. Eu queria evitar aquela situação, entrei em desespero. Orei para que Deus que me ajudasse nessa situação, eu acreditava que toda a minha construção heterossexual que trabalhei arduamente para realizar fosse desmoronar com o simples fato de eu me direcionar ao fulano, ainda mais se ele fizesse parte do mesmo grupo que o meu.

Me angustiei de verdade. E só Deus sabe de como me envergonho desse fato passado. Hoje vejo o quanto é ridículo esse meu pensamento de adolescente e o quanto fui por anos influenciado a pensar assim. A escola não me deu base nenhuma para desconstruir esses preconceitos, nem a igreja e muito menos minha família preconceituosa e religiosa que, assim como eu, não tiveram mecanismos que possibilitasse esse tipo de desconstrução. Vejo como a heteronormatividade é cruel para quem foge do “padrão” homem e mulher. Nunca fui levado a pensar e refletir sobre esses assuntos de forma crítica e a única visão que eu tinha era uma visão imposta pelos meios sociais que eu (e maioria dos brasileiros) vivia(vivem).

Aliás, todo nosso processo de construção, seja de caráter e personalidade passam pela visão dos meios sociais que estamos inseridos.

Aquilo era cruel com o fulano, mas era mais cruel ainda comigo. Eu me auto sabotava ao ponto de orar em nome de um Deus (de amor?) que ele me afastasse desse rótulo (demoniáco?).

Entendem como isso é problemático? Olha o tipo de preocupação DESNECESSÁRIA que eu tinha na minha cabeça com 16 anos.

O rapaz entrou em um setor que era alocado em outro prédio da prefeitura e nunca almoçou conosco por causa do horário, o que eu mal sabia é que eu gostaria de ter sido aquele rapaz aos 15/16 anos. Alguém que não tivesse preocupação com rótulos e vivesse sua sexualidade de forma livre, sem se preocupar com o que os outros iam dizer a seu respeito.

Ainda naquele período eu já sentia atração física por meninos, bem, pelo menos eu os olhava já de um forma diferente. Nunca quis aceitar esse fato, mas me lembro de olhar para uns rapazes bem bonitinhos que trabalhavam lá. Ao mesmo tempo que eu descobria minha sexualidade eu a reprimia e morria de medo de assumir qualquer sentimento homossexual que vinha de dentro de mim. Não foi um período fácil, e digo mais: foi um dos piores da minha adolescência.