Minha mãe quer uma nora, eu lhe darei um genro.

Minha mãe vê uma jornalista na tevê, que parece simpática e diz:

— Será que eu vou ter duas noras boazinhas assim? (tenho um irmão).

Meu pai falou (ele sempre faz isso com a intensão de nos provocar):

— Acho que não.. acho que nem vai ter… pelo jeito que andam (sugerindo nossa “lentidão”).

Um milhão de coisas passam pela minha cabeça, ao mesmo tempo quero olhar pra ela, irritado e dizer:

— Não! Não vai ter uma nora assim, não se depender de mim, sabe por quê? Porque eu SOU GAY mãe, eu sou GAY. Será que você não enxerga?

Outro ponto de mim quer olhar pra ela, sentar-se ao seu lado e dizer:

— Mãe, preciso te contar algo…Eu não gosto de mulher, desculpe te decepcionar…Eu já tentei gostar, mãe, mas não consigo, eu te amo, muito.

São esses momentos que um turbilhão de emoções passam por dentro de mim, eu sempre me contenho, não falo de um e nem de outro jeito, eu finjo que não escuto, isso me dilacera quando estou mais frágil, mas se transforma em mal humor quando já me sinto irritado com essa situação.

Continuo não falando, continuo guardando, tentando tomar coragem, ou pra mandar “tudo” aos infernos ou pra ser calmo e passivo. Não sei qual a abordagem, e hoje, sinceramente, não sei se a reação dessas atitudes que eu adotar fara alguma diferença. Talvez a agressividade imponha respeito e espaço ou talvez gere mais revoltas. Muito provavelmente a passividade gere uma desconfiança da minha verdade, levando-os a pensar que essa é uma influência que pode ser “curada”.

Até quando isso vai acontecer? Essas respostas todas eu não as tenho, o que tenho são esperanças de um amanhã melhor, a terapia tem me ajudado a questionar meus sentimentos e os motivos deles, eu já me sinto mais seguro e mais esclarecido (mesmo tendo feito apenas três sessões até agora), saber que na terça eu vou poder falar exatamente sobre essas coisas é o que me dá energia para sobreviver o final de semana.

Hoje ainda é sexta, mas terça está chegando. Ufa. Ainda bem.