Afinal, o que é original?

Entre artistas e empreendedores é comum ver o debate sobre cópias. E seja a cópia de idéias, projetos ou trabalhos, sempre rende um momento de fúria pra quem foi “copiado”, mesmo que passageiro.

Quando alguém se ofende por ter um trabalho copiado ou quando acredita que é original, será que não é o momento de refletir: O que é meu de fato nesse processo?

Hoje em dia discutimos sobre originalidade na arte, e achamos que nosso debate é atual, mas a verdade é que no século IV a.C. os filósofos Platão, Sócrates e Aristóteles já se inquietavam com o assunto. E toda essa inquietude está documentada em A República de Platão.

Seja ela Esparta ou Atlantida, a República era a cidade descrita como perfeita, onde existiriam os humanos mais perfeitos e felizes, uma sociedade fruto da educação. E fosse na pintura, na poesia ou na literatura, a cópia incomodava e já existia a rejeição da arte mimética.

Scuola di Atenas, Raffaelo Sanzio.

Ironia não? Achamos originais até mesmo nossas reclamações, mas esquecemos que milhares de anos existiram antes de nós.

E se analisarmos friamente, quantos processos criativos hoje são na verdade resultado da nossa herança como ser humano?

Quando se estuda História da Arte, fica complicado falar em originalidade no cenário atual. Gênios e mestres de fato são aqueles que existiram antes de nós.

Seja por talento, física quântica, memória espiritual ou inconsciente coletivo, a arte hoje é quase toda uma reprodução do nosso passado.

A questão hoje não é discutir a cópia, mas sim refletir sobre o que nos incomoda ao ser copiados. Estamos reclamando por ética ou orgulho ferido?

“(…) a arte de imitar [mimetiké] está bem longe da verdade” — A República.

Para Platão o mundo estava dividido em duas partes: o mundo das idéias e o mundo dos sentidos. Tudo já existia no mundo das idéias, nós apenas transferimos pro mundo dos sentidos. Sendo assim, não era a arte o mais importante, e sim a técnica, a idéia.

A arte, que vem a ser uma cópia do mundo dos sentidos, é a cópia da cópia, uma dessemelhança. Mas não era o fato de ser uma imitação da imitação que fazia com que a arte para ele fosse desprovida de valor, mas sim o “engano que poderia causar na sociedade”.

Opa! Não deveria ser essa a nossa preocupação? Especialmente no cenário que vivemos hoje com a nossa revolta diante da falta de ética na política?

“(… ) dizemos que o pintor nos pintará um sapateiro, um carpinteiro, e os demais artífices, sem nada conhecer dos respectivos ofícios. […] o que se deve pensar de tudo isto é o seguinte: quando um indivíduo vem nos dizer que encontrou um homem conhecedor de todos os ofícios, que sabe tudo o que cada um sabe do seu ramo, e com mais exatidão do que qualquer outro, devemos assegurá-lo de que é um ingênuo e que, ao que parece, deparou com um charlatão e um imitador, que o iludiu a ponto de lhe parecer onisciente, porque ele mesmo não era capaz de distinguir a ciência, a ignorância e a imitação.” — A República.

A crítica de Platão é que os imitadores são ignorantes dos assuntos de que tratam. A natureza imitativa da arte era necessária, mas poderia levar ao engano, a instabilidade…

Vale trazer para o artigo um diálogo interessante:

Sócrates — O imitador não tem, portanto, nem ciência nem opinião justa no que diz respeito à beleza e aos defeitos das coisas que imita?
Glauco — Não, ao que me parece. (…)
Sócrates — No entanto, não deixará de imitar, sem saber por que motivo uma coisa é boa ou má, mas deverá fazê-lo daquilo que parece belo à multidão e aos ignorantes. (…)
Sócrates — Aí estão, segundo parece, dois pontos sobre os quais estamos de acordo: em primeiro lugar, o imitador não tem nenhum conhecimento válido do que imita, e a imitação é apenas uma espécie de jogo infantil. Em segundo, os que se consagram à poesia trágica, quer componham em versos jâmbicos, quer em versos épicos, são imitadores em grau supremo. (…)
Sócrates — Era a esta conclusão que queria conduzir-vos quando dizia que a pintura, e costumeiramente toda espécie de imitação, realiza a sua obra longe da verdade, que se relaciona com um elemento de nós mesmos que se encontra afastado da sabedoria e não se propõe, com essa ligação e amizade, nada de saudável nem de real.
Glauco — Exato.
Sócrates — Desse modo, a imitação só dará frutos medíocres, sendo que é uma coisa medíocre unida a um elemento medíocre.”

Aristóteles, negava a teoria platônica e acreditava que o mundo dos sentidos e o mundo das ideias não são dois mundos, mas um só. E, para ele, a arte era um processo de catarse, era imitação sim, com valor puramente artístico e purificador do sentimento (Kátarsis), não era sobre produzir coisas belas.

Assim, Aristóteles acreditava que a imitação tinha um caráter pedagógico, que a pessoa aprenderia copiando, repetindo, reproduzindo.

Por sinal, nós aqui do Alma também acreditamos que a arte é um um processo muito mais psicológico. O artista encontra na arte uma forma de expressar sentimentos e emoções, mesmo que ele nem saiba que está diante da própria catarse.

E também acreditamos que copiar faz parte do crescimento, do processo criativo. Copiando a pessoa se aproxima de suas referências, torna-se capaz de identificar estilos… reproduzindo ela consegue se encontrar, para então produzir. São etapas do desenvolvimento da identidade mesmo.

Basta olhar pra Historia da Arte e ver que os grandes artistas imitaram seus antecessores, até atingirem a criatividade para construir. Rafael, um dos grandes pintores do Renascimento, imitava desde os seus mestres às obras pictóricas e esculturas da Antiguidade Clássica. E não foi o único e nem deixou de ser brilhante.

“Ou crês que é possível não imitar aquilo de que a todo o momento nos aproximamos com admiração?” — Sócrates

Nesse ponto, em nada nos agride as cópias que são fruto do processo de auto-conhecimento. Faz parte do aprendizado! Nos incomoda a cópia que leva ao engano, aquela em que o autor busca ser o que não é, para iludir admiradores e transformá-los em súditos, essa sim parece condenável!

Quando o artista vende o que no fundo ele mesmo sabe que é apenas reprodução das referências e pesquisas. Ou pior, quando ele se torna professor de um assunto que ele próprio não domina, apenas repete como um papagaio que cantarola o hino.

E voltando ao século IV a.C.

“Se imitarem, que imitem as virtudes que lhes convém adquirir desde a infância: a coragem, a sensatez, a pureza, a liberalidade e as outras virtudes da mesma espécie. Porém, não devem imitar a baixeza nem ser capazes de imitá-la, igualmente a nenhum dos outros vícios, pelo perigo de que, a partir da imitação, usufruam o prazer da realidade. Tu não percebeste que quando se cultiva a imitação desde a infância, ela se transforma em hábito e natureza para o corpo, a voz e a mente?

Talvez muitos só despertem do mal que fizeram quando suas artes já não fizerem mais sentido nem pra eles mesmos. Afinal, é simples arrancar aplausos quando se treina oratória e meia dúzia de truques pra dominar uma platéia, mas a realização como artista, a paz como autor de suas próprias idéias, isso não se conquista da mesma maneira.

E encerro ainda com a Republica:

Sócrates — Não devemos procurar artistas de mérito, capazes de seguirem a natureza do belo e do gracioso, a fim de que os nossos jovens, a semelhança dos habitantes de uma terra sadia, tirem proveito de tudo que os rodeia, de qualquer lado que chegue aos seus olhos ou ouvidos uma emanação das obras belas, tal como uma brisa transporta a saúde de regiões salubres, e predispondo-os insensivelmente, desde a infância, a imitar e a amar o que é reto e razoável?

Glauco — Seria uma excelente educação.”

Essa é uma das razões pra existência desse projeto: aproximar o aprendiz de pessoas que são referência, como artista e ser humano