Agnósticos por frustração

A fé em ruínas

Marcelo quis crer em Deus, em alguns momentos de sua adolescência. O mundo seria mais interessante caso fosse habitado por seres imateriais ou sobrenaturais, almas desencarnadas, Jesus Cristo ressuscitado, demônios e santos milagreiros — pensava.

Ruínas (por Bernardo Monteiro)

Tinha treze anos. Estava na capela com sua turma do colégio de padres. O professor de religião fazia testes para selecionar meninos para o coral. Não cantava bem, não tinha esperança de ser escolhido. Prestava atenção ao colega Jair, na fila de espera, que lhe contava uma estória sobre o Segredo de Fátima.

Jair se dizia muito religioso. Ao menos parecia conhecer muito bem a Bíblia e a religião católica. Amava ópera. Cantava razoavelmente. Tinha um interesse especial por Marcelo, como se sentisse a obrigação de contribuir para sua formação cultural, moral e religiosa… e também sua formação sexual e afetiva, limitada ao campo teórico, digamos assim. Suas preleções, sempre riquíssimas em detalhes, mas cheias de contradições e imaturas — natural para um menino da sua idade — , passavam por críticas ao comportamento de Marcelo perante outros colegas; sugestões de como Marcelo deveria seduzir meninas; técnicas e posições sexuais inusitadas a serem testadas por Marcelo, que apenas sonhava com mulheres ainda… Jair não se achava atraente ou fisicamente desenvolvido, nem capaz de realizar por si mesmo qualquer dos conselhos que dava a Marcelo. Admirava o colega, sentindo-se inferior, e fazia de tudo para enriquecer os encantos e as virtudes do rapaz.

Naquele momento discursava sobre o conjunto de revelações da Virgem Maria em 1917 — hoje Nossa Senhora de Fátima — a três crianças portuguesas. As duas primeiras revelações eram conhecidas desde 1944. A primeria, a visão do inferno, com demônios e almas queimando como se fossem eles mesmos o próprio fogo. A segunda, a necessidade de pedir a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados, para evitar a guerra e o sofrimento.

A terceira revelação foi guardada em segredo até o ano 2000. Jair, com base nas duas primeiras revelações, só podia presumir o conteúdo da terceira, ainda em segredo naquela época. Ele dizia que a terceira seria a mais terrível de todas.

Inebriado pela religiosidade de amigos e padres cuja cultura invejava, que contavam estórias de estátuas que sangravam e de retratos de padres falecidos, que caíam da parede no dia do aniversário da sua morte, Marcelo olhava para as imagens na capela e esperava que a Virgem Maria olhasse para ele de forma eloquente. Queria ler nos lábios de uma estátua ou pintura de santo alguma mensagem, alguma nova revelação. Procurava as almas refugiadas nos cantos mais escuros da capela. Fazia perguntas a Deus, em pensamento, silenciosamente. As estórias de Jair eram um estímulo para que ele experimentasse o que julgava ser a religiosidade: o contato com Deus e o mundo sobrenatural.

Eu já vi uma alma, — dizia Jair — você já viu? Aquela pergunta fazia Marcelo gelar. O desconhecido era aterrorizante para ele. A alma era separada do corpo pela morte, a fonte do maior dos medos humanos. O estado da alma no momento da morte definia seu destino para o céu, para o inferno ou para o purgatório. O pecado poderia ser perdoado pela confissão. Mas após a morte não era mais possível confessar. Não era à toa que se falava em alma penada. Deve ser puro sofrimento — pensava Marcelo. Para quem pouco havia vivido, a ideia de sofrimento contínuo era mais que apavorante.

Marcelo esperava viver até o ano 2000 para conhecer a terceira revelação de Nossa Senhora de Fátima. O desconhecido era para ele como o fim do mundo além do horizonte onde viviam monstros.

Jair parecia não ter medo. Seu orgulho por saber contar tantas estórias fantásticas da Igreja Católica era maior que sua crença religiosa.

Os anos se passaram enquanto as estórias de Jair alimentavam em Marcelo o medo do escuro ou do encontro solitário com algum ente desencarnado, e a frustração de não ter testado seus nervos enfrentando algum ser sobrenatural, nem mesmo uma vez. Por outro lado, a falta de um verdadeiro diálogo com Deus, a ausência de visões de almas vagantes nos cômodos vazios de sua casa, e o avançar da idade por sua adolescência, tendiam a enfraquecer o medo e a frustração. Até os seus sonhos, muito mais instigantes e desafiadores das leis da física que qualquer situação de seu dia-a-dia, afastavam Marcelo de seu sentimento religioso, sua curiosidade pelo além.

Os padres ensinavam provas racionais da existência de Deus, elaboradas por filósofos como Descartes, Hegel, São Tomás de Aquino, Kant, mas para Marcelo não havia prova. O que havia, ou poderia haver, era a fé. Ele queria ter fé. Repetia para si mesmo que Jesus e seus ensinamentos eram tão adoráveis que ele deveria acreditar, ter fé. Queria ter fé como quem confia em outra pessoa por amor. Não eram esses os ensinamentos principais? Amar a Deus e ter fé? Ou seria ter fé e amar a Deus?… O que deveria ocorrer primeiro? Haveria um sentido de causa e efeito?

Marcelo teve a oportunidade de conhecer o pensamento de alguns filósofos e cientistas ateus. Gostava de Bertrand Russell, que era ateu! E conheceu outros agnósticos. Marcelo era agnóstico, mas ainda não tinha certeza de que essa posição se firmaria após a adolescência.

Por que afirmar com certeza algo sem nenhuma base? A ciência não é o campo dos conhecimentos questionáveis? O que não tem a possibilidade de ser provado falso não é científico, assim entendia Marcelo.

A filosofia também não é capaz de afirmar nenhuma verdade absoluta. Várias verdades filosóficas convivem pacificamente, ainda que gerem acaloradas discussões.

Só as religiões continham verdades absolutas. Só as religiões afirmavam com certeza a existência ou não de algum Deus ou de algo sobrenatural.

No colégio de padres, Marcelo ouviu de Jair estórias fantásticas, que o fizeram tremer de medo por muitos anos. Pensava nas relíquias de santos, como a língua de Santo Antonio que não se decompõe mesmo depois de oito séculos de seu falecimento. Sinal de Deus? Como saber?

Marcelo era agnóstico, mas nem sobre isso ele tinha certeza. Achava que podia crer em Deus. E quando não conseguia, nunca contava a Jair, com receio da vergonha de não entender a verdade mais importante.

Jair propalava com orgulho sua própria fé, cuja imagem sustentava-se aos olhos dos amigos pelo seu repertório de fatos religiosos. Mas sua fé não tinha substância. E Jair não tinha vergonha de nada. Frustrava-se, no entanto, por não alcançar o que supunha ser a perfeição de Marcelo. Ao pensar nisso, era triste.

A inquietude de Marcelo dissipou-se com o passar da adolescência. Sua frustração por não crer em Deus tornou-se uma confortável resignação. Marcelo, por sua racionalidade — que sabia, era limitada — nunca alcançou o que supunha ser a perfeição de Jair. Assim sentia-se humano e saudável. Ao pensar nisso, era feliz.

Para Jair, o orgulho deu lugar à frustração, que deu lugar à tristeza. Em sua tristeza, Jair pôs em dúvida a sua fé.

Para Marcelo, a humildade deu lugar à frustração, que deu lugar à felicidade. Em sua alegria, Marcelo pôs em dúvida a sua fé.

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