Ares da Fazenda
3ª parte: o almoço com os anjos

Os adultos foram chamados à sala de jantar mas as crianças permaneceram na cozinha, acompanhadas pelos caseiros, pois na mesa da sala cabiam no máximo doze cadeiras, mesmo com duas em cada cabeceira. Eram onze adultos, dos quais ainda não mencionei três: Gaio Bonfim, Tallis Smith e Luis Bagarotes, os últimos a se apresentarem para o almoço.
Tallis era amigo de Luis, o irmão mais novo de Alma. Naquela mesma manhã, horas mais cedo, Tallis foi apresentado à família Bagarotes. Sabia-se que Tallis era inglês, mas Vittorio gostaria de descobrir a origem de seu nome, que parecia inspirado no matemático grego Thales. O moço logo explicou a grafia correta do nome que havia pertencido ao menos a uma figura ilustre, o compositor e organista inglês Thomas Tallis, renascentista nascido em 1505. Seus pais teriam hesitado entre grandes compositores renascentistas: T. Tallis, G. Allegri e W. Byrd. O rapaz agradecia a escolha dos pais pois, entre os três, era o nome mais discreto, apesar de os outros dois comporem música sensivelmente superior à de Tallis. Ao notar a incredulidade dos de Russo, continuou dizendo: “Ouçam a ‘Missa para cinco vozes’ de William Byrd e digam se existe equivalente em Thomas Tallis”, e assim encerrou seu esclarecimento. O casal Bagarotes gostou do rapaz — os dois se entreolharam e pensaram juntos: queriam as partituras da Missa de Byrd! Já os de Russo se perguntaram discretamente por que Tallis não havia mencionado o compositor Palestrina, mas depois concordaram que seria o pior dos nomes para o rapaz, apesar de um dos mais célebres do século XVI.
Gaio Bonfim era amigo de infância de Eros e frequentava a família Bagarotes desde o casamento de Eros com Alma. Quando chamaram para o almoço, Gaio contava a Margaret sobre as dificuldades que enfrentava em seu projeto do órgão para a capela da fazenda. Gaio era empregado da empresa Valère, que construía os melhores órgãos para sete continentes. O instrumento deveria ter registro de fagotes, oboés e clarinetas, vibrantes mas não excessivamente potentes, respeitando a acústica da pequena capela. O órgão assim encomendado era como um sonho para Margaret, que acompanhava a sua construção com brilho nos olhos, e plena confiança em Gaio.
Na sala de jantar havia um aparador com um pato assado; onze tapiocas recheadas com verduras braseadas no suco da ave; purê de maçã; onze linguiças de sangue, miúdos, cravo e canela; pães com nozes; e uma pequena molheira com redução de vinho tinto, o restante do suco do pato e um toque de mel. Ludovic glutão aproximou-se do pato, pensando que aquele seria o primeiro de três ou quatro a serem servidos — tinha certeza de que não era possível alimentar onze pessoas com um único pato — extraiu coxa e sobrecoxa inteiras para si, um pouco de puré de maçã e uma linguiça de miúdos. Derramou um pouco de molho sobre a carne e sentou-se. Eros serviu vinho a Marta e pousou a garrafa, como se recusasse bebida ao amigo Ludovic. Todos comentavam a aparência e os aromas agradáveis da comida. Ludovic virou-se para Eros e pediu vinho. Irritado com a atitude do francês, Eros encheu-lhe o copo quase até a borda e devolveu a garrafa para o aparador com aparente desatenção, cuidando para que Ludovic levasse uma garrafada na cabeça. Nenhum sinal era suficiente para que Ludovic tomasse consciência de como era inconveniente e despreocupado com o grupo. Bebeu avidamente seu vinho, deleitou-se com a comida e passou a apreciar a ornamentação da sala de jantar, suas pinturas a óleo, os vasos de flores… Enquanto isso, Eros nem ao menos sentou. Preferiu continuar de pé, servindo vinho à família, do que deixar algum Bagarotes ou os de Russo sem ao menos um pouco da carne do pato. Em poucas e rápidas garfadas Ludovic terminou de comer… mas o almoço estava apenas começando.
Monsieur Dumont não era uma pessoa mal quista, mas era capaz de exigir exercícios de compaixão inesperados. Os Bagarotes, os Currentzis, os de Russo, Gaio Bonfim, Mario Ricardo e Ana Menezes aceitavam Ludovic como aquele que os fortalecia. Parecia saudável a convivência esporádica com Ludovic, que despertava desafios espirituais eventualmente enriquecedores. Mas ninguém havia entendido ainda o interesse da adorável Marta Harit em uma vida compartilhada dias e noites com o francês. A sua inabilidade social dificilmente poderia ser compensada pela cultura e pelos intermináveis anos de estudos de que Ludovic tanto se orgulhava.
Quando Eros pousou o vinho sobre o granito verde escuro do aparador, em meio a um suspiro por ter acertado a garrafa na têmpora direita de Ludovic alguns instantes antes, sem machucá-lo realmente, o leve choque do vidro contra a pedra fez soar nos ouvidos de Eros uma nota como a da soprano que tivera a felicidade de assistir na Catedral de Roma, uma das vozes de "Miserere", de Gregorio Allegri. A música polifônica de Allegri, um pedido de misericórdia, voltou à sua memória como se os anjos dos afrescos do teto da sala cantassem por ele, por Ludovic e por todos os presentes: "Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam"… A tarde começava bem para Eros e Ludovic ainda era uma pessoa querida. Sem o francês, o almoço não seria acompanhado pelo canto dos anjos.
– Antoine Bernardaud
(Continua em https://medium.com/alto-falante-de-formiga/ares-da-fazenda-44aa0daa2f0#.qjsi8rfq1)