Minhas estórias como caçador de rãs na Amazônia

Aqui começa o relato de alguns fatos reais sobre os dez dias da viagem para caçar rãs venenosas, da espécie Dendrobates tinctorius, na Serra do Navio, Amapá.
1ª parte: a escapada do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Eu não sabia como seria a viagem; não sabia como era a rã, nem como eu faria para caçá-la; não fazia ideia de onde eu dormiria, ou como faríamos as refeições. Fui convidado para integrar uma expedição à Amazônia para caçar a pequena Dendrobates tinctorius e aceitei sem fazer nenhuma pergunta.
Foi em 1992 ou 1993. Eu tinha 22 anos. Em breve me formaria pela faculdade de Biologia da UFRJ. Trabalhava no LMM-FTC — Laboratório de Metabolismo Macromolecular Firmino Torres de Castro, no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro. Eu era estagiário de iniciação científica sob orientação do Professor Edson Rondinelli, desenvolvendo minha pesquisa um tanto indisciplinada — mea culpa — sobre os efeitos do estresse na expressão gênica de protozoários. Vinha tentando reproduzir um resultado anterior, sem sucesso, na análise da síntese de proteínas em resposta a estresse na Crithidia fasciculata — um ser unicelular microscópico. A Crithidia respondia ao estresse, provocado pela mistura de 5% de álcool em seu meio de cultura, com uma esperada elevação da produção das proteínas de estresse, mas apresentava uma surpreendente manutenção de altos níveis de produção de tubulina, enquanto reduzia drasticamente a produção das proteínas restantes. Esse resultado era bastante interessante, por uma série de motivos ligados ao importante papel da tubulina no ciclo de vida do Trypanosoma cruzi, protozoário encontrado no aparelho digestivo do inseto barbeiro e causador da Doença de Chagas. Porém, na pesquisa científica, se um resultado não pode ser reproduzido, ele não é confiável.
Eu vinha gastando grandes quantidades de material radioativo, enzimas e reagentes caros, tentando reproduzir aquele resultado infame. Já tinha acumulado várias decepções, mas continuava tentando. Havia empregado muitas horas de trabalho e materiais do laboratório para simplesmente jogar tudo no lixo e começar outro projeto do zero. Eu era persistente, mas estava desanimado. Em breve chegaria o dia em que eu abandonaria o laboratório para ser cozinheiro. Mas, antes disso, veio o convite para a caçada às rãs.
Eu estava preparando mais uma eletroforese de proteínas, em gel de poliacrilamida, quando um pesquisador do laboratório vizinho colocou a cabeça pela porta entreaberta do LMM e disse com pressa e ar pouco esperançoso: "Boa tarde. Com licença, gostaria de saber se alguém pode ir para a floresta amazônica no Amapá, amanhã, com tudo pago."
O bioquímico americano John W. Daly precisava de maioria de brasileiros para montar uma expedição com o objetivo de capturar algumas dezenas de espécimes da rã venenosa. John desenvolvia uma linha de pesquisa sobre o veneno da rã, e trabalhava em colaboração à distância com o nosso vizinho que, naquele momento, aguardava uma resposta na porta do LMM.
Eu pensei que todos no laboratório teriam interesse em viajar com o John, por isso deixei que os mais graduados se manifestassem primeiro… mas ficaram todos calados. Nenhuma reação. Eu estava inibido, mas resisti apenas por uns 5 segundos… em seguida levantei a mão e disse "eu gostaria de ir."
Acho que ninguém se surpreendeu. Todos conheciam minhas aventuras anteriores pela Amazônia. Edson ficou com pena de não poder enviar o outro estagiário Robert Lees, que ainda não conhecia aquela região e falava inglês como um nativo britânico, mas o Robert não estava no laboratório naquele dia. Era preciso decidir de imediato e se preparar para embarcar. Edson aceitou que eu viajasse, apesar de contrariado. Devo todas as estórias que guardo dessa viagem ao dia de folga do Robert e à gentileza do Professor Edson Rondinelli.
No dia seguinte tomei o avião para Macapá, com os outros integrantes da expedição. Para minha surpresa éramos apenas três. A maioria de brasileiros que acompanhavam o John eram eu e um pesquisador da USP chamado Gabriel Skuk, herpetólogo uruguaio (sic).
Eu não fazia ideia do que eram capazes os meus companheiros de viagem. A aventura que eu vivi nos dez dias seguintes iria muito além das minhas expectativas. Depois de conhecer melhor John e Gabriel, acho que eu não teria coragem de acompanhá-los novamente. Eu descobriria durante a viagem que eles eram sobre-humanos.
2ª parte: conhecendo John Daly, Gabriel Skuk e a Serra do Navio

Encontrei John e Gabriel no aeroporto, onde embarcaríamos com destino a Macapá. John era alto, tinha 60 anos, mãos trêmulas e um leve sorriso no rosto. Caminhava e falava lentamente. Parecia ter muitas estórias para contar, mas nenhuma pressa. Quando nos encontramos, o dia estava quente e ensolarado e conversamos sobre a expansão do buraco de ozônio na atmosfera. Depois contei que trazia na mochila camisas sociais, de mangas compridas, para proteger contra mosquitos e reduzir a exposição ao sol, me gabando da experiência adquirida em viagem anterior pela Amazônia. Logo passamos a falar sobre a origem do cacau, a qualidade do chocolate produzido no Brasil e outras amenidades. Ele parecia não estar preocupado com nenhum detalhe sobre a nossa expedição de caça às Dendrobates tinctorius na Serra do Navio, Amapá. Aparentemente tudo estava sob controle.
Gabriel Skuk tinha 30 anos e um corpo atlético. Carregava uma mochila pesadíssima e quase não falava conosco. Tinha a mesma serenidade do John no sorriso, mas seus olhos brilhavam com vivacidade enquanto o John aparentava uma resignação um pouco melancólica.
Gabriel perguntou se eu era zoólogo. Quando eu disse que era geneticista, ele não ficou apenas desapontado. Disse que eu estava retirando a oportunidade de muitos zoólogos que gostariam de participar da expedição. Eu não tinha culpa, era tarde demais para resolver isso. A decepção do Gabriel não interferia em seu sorriso nem alterava sua fala gentil. Combinamos que eu levaria um casal de Dendrobates tinctorius para o Departamento de Zoologia, no Instituto de Biologia da UFRJ, o que dava um propósito científico à minha participação na viagem. Os herpetólogos, na época, tentavam reproduzir Dendrobates tinctorius em cativeiro, para evitar a captura de espécimes na natureza, para uso em pesquisa.
Quando chegamos a Macapá, tomamos um trem que cruzava o Amapá até a Serra no Navio, passando por estações do tamanho de um ponto de ônibus, onde alguns índios com expressões muito sérias olhavam o trem sem saudar os poucos viajantes. Nosso destino era a usina mineradora ICOMI, que explorava manganês em grandes crateras abertas na floresta. Depois de retirado o minério, a cratera era fechada e a floresta era replantada, enquanto era aberta outra cratera em um ponto próximo. Segundo eles, em poucos anos a floresta readquiria o porte original.

Da estação do trem, fomos até os alojamentos da mineradora em um automóvel. Cada um tinha seu quarto com banheiro e geladeira. A geladeira do quarto do Gabriel, nos dias seguintes, abrigaria algumas dezenas de bichos que ele capturaria na floresta. Ao lado do prédio dos quartos, havia um refeitório. Estávamos confortavelmente instalados.

O engenheiro que nos ciceroneava fez a apresentação completa da cidade construída para os empregados da usina. Segundo ele, a mineradora seria desativada naquele local em poucos anos, e portanto tinha interesse em hospedar cientistas, em trabalho na Serra do Navio, que pudessem ajudar a avaliar a possibilidade de compra das instalações por outras empresas.
Até aquele momento, nenhuma orientação sobre o que faríamos para caçar as rãs. Mas eu estava tranquilo e confiante nos meus seis anos de experiência em montanhismo. Só não sabia que a minha experiência era tão pequena comparada à dos meus companheiros, e que tudo seria tão diferente.
No dia seguinte, tomamos café da manhã, recebemos caixas com sanduíches e frutas para o almoço e tomamos um Jeep às 8:00, que nos levou até a mata virgem. Em um ponto, a estrada acabou. John e Gabriel desceram do Jeep e olharam para mim com o sorriso de sempre. Desci acompanhando os passos deles. O Jeep voltou para a mineradora. Nós ficaríamos na floresta até as 17:00, quando o carro voltaria para nos buscar. Recebi 4 sacos plásticos para guardar toda rã azul e dourada que eu encontrasse. Elas deveriam ser amarradas à minha cintura. Procurei a trilha para iniciar a caminhada, como um bom montanhista. Enquanto isso, John e Gabriel entraram na floresta. Cada um em uma direção. Não havia trilha. Eu decidi fazer o mesmo que eles. Entrei na floresta escolhendo uma terceira direção. Confiava nos meus instrumentos de navegação: um relógio de pulso e o sol como referência.
3ª parte: os dias na floresta

Quando John, Gabriel e eu entramos na floresta na Serra do Navio, a vegetação não era tão densa que impedisse a comunicação visual, mesmo a uma dezena de metros de distância. Fazia sentido nos separarmos para aumentar as chances de encontrar a rã — estávamos em busca da Dendrobates tinctorius, não era uma simples caminhada. Eu seguia uma regra para não me perder: quando eu não podia mais ver o John ou o Gabriel, eu gritava “Êeeeeoooo!” como os montanhistas, e ouvia as respostas dos dois, como ecos. A regra era boa, mas como toda regra, tinha exceções, e eu acabei me perdendo, como você pode imaginar. Foram umas 3 horas de desespero, sem fazer ideia de onde eu estava. Quando reencontrei uma árvore conhecida, voltei a tomar a água do cantil, que eu já estava economizando para poder sobreviver mais tempo na floresta. Comparado ao estresse total da viagem, essas 3 horas em que estive perdido foram fáceis de superar. Vários foram os outros sustos.
Durante todo o tempo em que estive na floresta, caminhando sem nenhuma trilha, o que mais me dava medo era a falta de conhecimento de onde eu pisava. Quando eu olhava para baixo, não via nada além de um espesso colchão de folhas e gravetos em decomposição, onde meus pés afundavam a cada passo. Essa superfície, que eu me recusava a chamar de chão, era parcialmente ocultada por uma vegetação cuja altura média correspondia aos meus joelhos. Muitas vezes eu não via os meus pés e isso me dava medo. Que animais poderiam habitar as camadas inferiores daquelhas folhagens? Eu não via nenhum animal. Nada. Era tudo verde das folhas e marrom dos troncos das árvores e vegetais apodrecendo. Tudo parecia estar em algum estágio de decomposição. Era a estação seca, nenhum sinal de animais — o que dizer de anfíbios? Ainda assim, era bastante úmido.
Eu me sentia cego: ouvia as folhas sendo reviradas por lagartos gigantes correndo em alta velocidade quando eu me aproximava, mas não via nenhum animal. Eu sabia que eles estavam lá, mas invisíveis. Após alguns dias, comecei a pensar que eu nunca pegaria uma rã sequer. Para mim, a Amazônia parecia um grande deserto verde, úmido e assombrado. Não havia um mosquito.
Por volta de meio dia, encontrei um tronco caído que ainda não estava se desmanchando, e sentei para almoçar. Eu estava sozinho, mas sabia que Gabriel e John estavam ao alcance da minha voz, cada um para um lado. Acho que descansei em torno de meia hora sentado naquele tronco. Ali parado, observava a floresta imóvel, a altura das árvores, o chão de folhas… Para quem não está acostumado ao ambiente, tudo parece igual. Fiz um esforço para observar os detalhes, as formas das folhas no chão, raízes que se levantavam cobertas de musgos, gravetos, galhos caídos, e algo me chamou a atenção, a aproximadamente dois metros de distância: avistei um corpo com finas escamas verdes, visíveis por entre as folhas. Pensei que poderia ser um lagarto. Tentei seguir a direção pela qual o corpo se estenderia, para frente e para trás para entender o que era. Procurei no chão, na área mais próxima aos meus pés, no raio de um metro. Depois de uns dez segundos de observação atenta, encontrei a cabeça de uma cobra, ligeiramente levantada, olhando para mim, para o meu rosto. Ela parecia amigável, estava só olhando. Lembrei de aulas sobre cobras, de professores de biologia. Se ela fosse venenosa, eu estaria seguro.
Eu havia aprendido na prática que as cobras venenosas são as mais dóceis e tranquilas. As que não têm veneno entram em desespero por qualquer susto e mordem repetidas vezes, em ataques velozes. Tudo o que eu tinha que fazer era não a ameaçar. Eu sabia, no entanto, que o Gabriel era colecionador de répteis e anfíbios desde os sete anos de idade. Ele trazia bolsas de lona em que guardava cobras vivas. Ele amarrava a boca da bolsa com uma corda e carregava sua presa debaixo do braço, com a alça no ombro. Enquanto ele andava no sol, a bolsa se contorcia, e os sacos plásticos amarrados à cintura saltavam alternadamente a cada pulo de uma rã. Gabriel encontrava dezenas de animais por dia, enquanto eu continuava naquela cegueira. Mas finalmente eu havia encontrado um bich0, uma cobra de aproximadamente um metro e meio. Gritei, tentando não assustá-la: “Gabriel, achei uma cobra!!” A resposta dele foi surreal: “Distrai a cobra!!!”
Logo em seguida, ouvi da direção do Gabriel a vegetação estalando e se agitando — ele vinha correndo como um foguete arrancando toda a vegetação no seu caminho. Imaginei que ele continuaria naquela velocidade até avistar a cobra, faria uma pausa para estudar o ataque, pegaria um bastão, se aproximaria lentamente e com um golpe preciso imobilizaria a cabeça da cobra. Mas antes que a minha imaginação elaborasse metade desses movimentos, Gabriel surgiu de repente, sem hesitar, voando por entre as folhagens, mergulhando de cabeça bem onde estava a cobra. Enquanto ele caía, abraçou as folhas do chão com se fossem um travesseiro. A cobra sumiu embaixo do corpo dele.
Segurando as folhas pressionadas contra o seu peito, Gabriel começou a se levantar. Sem mover os braços, seus dedos escolhiam algumas folhas e jogavam-nas no chão, aos poucos, até surgir a cabeça da cobra. Sem nenhuma chance, em menos de dois segundos o réptil estava dentro da bolsa de lona, ainda vivo.
Eu estava começando a ver os animais que me cercavam. Ouvi uma espécie de rugido; vi um macaco; um pássaro do tamanho de um pavão, no alto das árvores; insetos de todo tipo. Eu estava me acostumando ao ambiente, mas ainda tinha medo de pisar no chão. Após alguns dias, o medo seria resolvido em segundos.
Eu andava lentamente, tentando observar o chão de vários ângulos antes de pousar o pé em algum lugar. Avançava sempre com medo, até o momento em que senti uma nuvem de vespas ao meu redor, e uma picada dolorosa. Eu senti que as vespas tentavam entrar na minha roupa, o que me deixou em pânico. Arranquei a camisa enquanto corria como um keniano correria de uma leoa, gritando e batendo no meu próprio corpo como se eu estivesse em chamas, tudo em uma fração de segundo. Eu nunca correria 200 metros com barreiras em menos tempo. Corri sem pensar por onde, pisando em qualquer lugar que o pânico me levasse. Não houve tempo para pensar. Mas foi tempo suficiente para me livrar do medo do chão. Depois disso, passei a andar normalmente, relaxado. E a minha mente foi liberada para prestar atenção aos detalhes da floresta e aos pequenos animais. Passei a enxergar melhor as belezas da mata. Por outro lado, passei a ter mais consciência dos riscos reais de andar desarmado na Amazônia.
Gabriel tinha um revólver preso à cintura, de chumbinho, suficiente para assustar qualquer animal e matar lagartos que tentassem fugir de sua coleção de répteis conservados em formol. Ele era veloz, mas não conseguia acompanhar a velocidade de um lagarto de mais de 50 centímetros.
John passeava desarmado e despreocupado. Passei a levar um facão comigo, e por precaução, procurava andar mais próximo do Gabriel. Tudo foi diferente depois do ataque das vespas. Os perigos que eu não imaginava começaram a se revelar.
4ª parte: fotografando os animais

Quando saíamos da floresta na Serra do Navio, às 17:00, o Jeep nos levava de volta aos alojamentos da usina mineradora. Os répteis e anfíbios capturados vivos eram colocados na geladeira do quarto do Gabriel. Nós tomávamos banho e jantávamos cedo. Depois retornávamos ao alojamento para fotografar os animais. Os répteis e anfíbios resistem bem ao frio, baixando o seu metabolismo quanto mais baixa for a temperatura. Na geladeira, as rãs e as cobras ficavam imóveis, respiravam menos, relaxavam os músculos e pareciam dormir. Podiam sobreviver dias ou semanas assim, mesmo sem comida. Dessa maneira Gabriel guardava seus bichos de sangue frio em sua casa quando viajava: na geladeira. E assim fazíamos para acalmá-los antes das fotos.
Gabriel montava um cenário sobre sua mesa de cabeceira com galhos cortados de arbustos. Retirava uma cobra da geladeira e enrolava-a no galho. A cabeça da cobra ficava pendurada, voltada para o chão, até que o seu corpo retomasse a temperatura ambiente e começasse a se mover. Nesse momento, eu segurava os dois flashes, um de cada lado da cabeça da cobra. O Gabriel operava a câmera SLR de película 35mm, com uma lente de 50 mm, se não me engano. Era preciso fotografar a cobra de perto, para ter um bom enquadramento. Quando Gabriel acionava o obturador, os flashesdisparavam, ligados à câmera por uns 2 metros de fio, deixando o animal nervoso. Era preciso acertar nas primeiras tentativas.
Apesar de tudo, a cobra não mostrava os dentes — estava muito tranquila, para a decepção do fotógrafo. Tentando estimular a modelo, Gabriel pegou o facão e pediu que eu desse uma batidinha com a lâmina na bochecha da cobra. Foi o suficiente para que ela abrisse bem a boca, mostrasse os dentes e chiasse de raiva. Os flashes brilharam no momento certo. Os meus olhos piscaram com o ofuscamento, e quando voltei a ver, a cobra estava descendo do cenário pela mesa de cabeceira. Mais uma piscada de olhos e vi os pés do Gabriel se agitando enquanto ele lutava com a cobra debaixo da cama. Cinco segundos depois ele se levantou trazendo enrolada na mão a cobra verde que eu havia encontrado na floresta. O seu antebraço sangrava. Enquanto ele guardava a cobra na bolsa de lona, perguntei se era venenosa. Ele achava que sim. Perguntei se tínhamos soro antiofídico, ao que ele respondeu que não seria necessário, a mordida tinha sido superficial, bastava lavar o braço. Eu não discutiria com o Gabriel sobre picadas de cobra. Ele passou bem o resto da viagem. Segundo ele, não era a primeira vez que isso acontecia. Eu estava lidando com um dos maiores herpetólogos da USP. Portanto, crianças, nem pensem em fazer isso em casa.
Passamos às fotos das rãs. Ainda não tínhamos achado nenhuma Dendrobates tinctorius. Todos os animais encontrados até então eram bonitos, mas eu ainda não tinha ideia da beleza escandalosa que eu encontraria com a tinctorius. Tudo que eu sabia era a origem de seu nome: tinctorius significa pintada a ouro. Era, literalmente, “ouro sobre azul”, como dizem alguns, quando se referem a algo maravilhoso.
5ª parte: a escuridão na floresta

Após jantarmos e fotografarmos os animais capturados durante o dia, voltávamos para a floresta, na Serra do Navio, para explorar a vida dos animais de hábitos noturnos. Nessas ocasiões eu levava minha lanterna. Mas, após alguns dias de expedição, descobri que o Gabriel tinha sempre a lanterna consigo. Ela realmente tinha utilidade durante o dia.
Eu estava andando à tarde por uma região com alguns morros. Cada dia o Jeep da mineradora nos levava a uma área diferente da floresta, pois ainda não tínhamos localizado nenhum espécime de Dendrobates tinctorius. O Gabriel estava andando a poucos metros de distância quando encontrou um buraco no chão. Eu estava observando e me aproximei. Era como como um bueiro aberto no meio da floresta. Eu não conseguia ver o que havia dentro, era tudo escuro, mas lá estava o Gabriel com sua lanterna, em plena luz do dia. Foram dois segundos de observação, um sorriso, e em um pulo ele estava dentro da caverna.
Fiquei pensando se o Gabriel encontrasse um bueiro aberto no Centro do Rio de Janeiro, se ele daria o mesmo sorriso e pularia dentro. Não, acho que não. Ele era doutor no que estava fazendo, pela USP. Aproveitei para seguí-lo. O foco da lanterna percorreu todas as paredes de pedra da galeria, que devia ter uns 50 metros quadrados. Nos cantos, víamos uns olhinhos brilhando na escuridão. Eu perguntei que bichos eram aqueles, e o Gabriel respondeu que eram Bufos, espécies de sapos gigantes. Acho que ele disse isso só para me acalmar, eu não enxergava nada naquela escuridão.
O foco da lanterna começou a percorrer o teto da galeria, provavelmente em busca de morcegos, mas não havia nada lá. De repente Gabriel avistou outro buraco, outro bueiro aberto, no teto, por onde era possível passar para outra galeria, mais alta e ainda mais escura. Ele me passou a lanterna, pulou, agarrou as bordas da pedra e se ergueu pela passagem circular, ligeiramente mais larga que seus ombros. Subiu até que metade de seu corpo passasse para o andar de cima. Eu tentava ajudá-lo com a lanterna, próximo à sua cintura, quando ouvi um farfalhar, e dezenas de morcegos começaram a tentar escapar da galeria, voando pelo caminho estreito entre o corpo do Gabriel e a pedra. Nenhum morcego tocou em mim, mas enquanto o Gabriel tentava voltar para a galeria de baixo, os morcegos se expremiam entre seu tronco e a parede da caverna. Anos depois eu veria em “Batman begins”, no cinema, a cena do “trauma” do garoto envolto em uma nuvem de morcegos. Tive dificuldade para entender aquilo. Saímos tranquilos da caverna da Serra do Navio, sem a intenção de incomodar mais os bichinhos notívagos.
Alguns cientistas sacrificam animais em pesquisas, mas a intenção a longo prazo é a de preservar as espécies e o meio ambiente. Nós capturávamos animais e alguns eram mortos e conservados em formol, para estudos em laboratório. Quando explorávamos a mata à noite, nunca capturamos um animal adormecido. Não sei por que razão… na época não me veio a dúvida. Será que o Gabriel, nosso principal coletor, se recusava a tocar em um animal que não pudesse se defender? Acho que nunca saberei. John e Gabriel já não estão mais vivos, é uma pena.
À noite entrávamos em lagos com água até a cintura, à luz da lua e das lanternas. Os olhos dos répteis e anfíbios brilhavam nas margens. Nunca tive coragem de perguntar se ali havia jacarés. Alguns lagartos dormiam deitados com a barriga sobre um galho baixo nos arbustos, com as quatro patas penduradas para baixo, como contrapeso. Mas eu não vi nenhum jacaré. Só lembro de uma noite em que o John apontou a lanterna para uma margem do lago onde estávamos, e pelo brilho dos olhos que viu, ordenou com muita calma e firmeza que recuássemos. Também nunca perguntei o que ele tinha visto. Saímos da água em silêncio e logo estávamos falando de amenidades.
6ª parte: final

Encontramos as Dendrobates tinctorius na tarde do décimo e último dia da expedição. Em torno de 20 delas. Não sei como John e Gabriel conseguiram a metade das rãs. Eu estava andando sozinho e encontrei as outras dez reunidas ao pé de uma árvore úmida, cheia de musgos.
Eu nunca tinha visto uma tinctorius antes. Sabia apenas a descrição: uma rã azul com arcos dourados no dorso; menor que a palma da mão. Quem poderia errar? A paisagem monótona da floresta fazia com que as tinctorius reluzissem como jóias em exibição sobre um veludo verde. Pareciam estar esperando por mim. Eu me aproximei devagar. Elas me olhavam discretamente e se movimentavam, às vezes, para ajustarem seu campo de visão. Tive a impressão de que eu poderia me sentar ao lado delas, sobre as raízes da árvore, e aproveitar o resto da tarde naquela companhia tão agradável. Eu estava feliz.
John havia falado sobre o veneno espalhado sobre a pele dos dendrobates. Essas rãs têm a pele úmida e permeável, por onde respiram. Como qualquer mucosa, a pele das rãs é mais suscetível ao ataque de fungos e bactérias. Também como em qualquer mucosa, a superfície é protegida com substâncias no mínimo antissépticas, como a nossa saliva. E algumas rãs são protegidas por substâncias mais nocivas a outras espécies vivas. Dessas substâncias nocivas ou venenosas, espalhadas sobre a pele das rãs, algumas são permeáveis à pele humana. Nesses casos, um simples toque em uma rã dourada pode levar a uma paralisia ou à morte. Mas esse não é o caso da tinctorius, cujo veneno não passa pela pele humana, mas apenas pelas mucosas. Eu podia pegá-las sem luvas, e foi o que eu fiz.
As tinctorius não reagiam. Assim constumam se comportar os animais venenosos. Eles são extremamente coloridos: amarelo ouro, azul celeste, vermelho ferrari… cores nada convidativas aos predadores. O vapor do veneno costuma arder nos olhos quando nos aproximamos de algumas espécies. Os índios costumam envenenar as pontas de suas flexas umedecendo-as nas costas de alguns dendrobates. Imagino que essas rãs se voluntariem, sem objeções, assim como elas não se incomodaram em subir na minha mão. Elas eram seguras de si e de suas armas. Normalmente não precisavam lutar para sobreviver. Mas elas não estavam preparadas para a evolução do homem, que passou a ter outras preocupações além de se alimentar e se reproduzir. Eu precisava alimentar a ciência, e elas não tinham como entender o meu propósito.
Recentemente encontrei na internet uma notícia de que as Dendrobates tinctorius estão em extinção.
Quando eu estive em Nova York, vi um exemplar em cera da rã pintada de ouro, uma tinctorius perfeita, no Museu de História Natural. Tenho medo que aquela passe a ser uma fonte primária de conhecimento da espécie.
Muitas pessoas pagam um bom dinheiro na compra de animais silvestres, destinados a morrer em cativeiro, sem condições de se reproduzirem. Outros interferem no meio ambiente desses animais alterando o delicado equilíbrio do ecossistema. Entendo que o mundo não pode continuar o mesmo para sempre e que o destino de todas as espécies é a extinção. Mas a lógica da vida é a manutenção e a evolução da informação genética por quanto tempo for possível. Espero que o nosso instinto de sobrevivência não despreze o conhecimento de que mudanças drásticas na biodiversidade podem afetar a nossa própria vida. Espero que tenhamos bom senso.
Por fim, tomo a liberdade de utilizar fotografias públicas de John W. Daly e Gabriel Skuk, com a intenção de homenagem póstuma, dedicando-lhes essa série de 6 textos. Sou muito grato aos dois pesquisadores e ao meu orientador, na época, o professor e pesquisador Edson Rondinelli. Eles permitiram que se tornasse realidade a expedição à Serra no Navio, no início da década de noventa.


– Bernardo Monteir0


