Um motorista, doze passageiros e uma galinha

Uma viagem de três dias pela Transamazônica, em uma caminhonete D-20

Estávamos no ano de 1991. Havia duas opções para ir de Itaituba a Marabá pela Transamazônica, no estado do Pará: uma D-20 com motorista e tração em duas rodas, ou um ônibus. A D-20 era mais cara, mas chegava em apenas 3 dias. O ônibus levaria pelo menos o dobro do tempo, ou talvez semanas, se chovesse muito. Optamos pela D-20.

O que o meu amigo Ricardo e eu estávamos fazendo em Itaituba? Turismo de baixo custo, para conhecer o Brasil. Nenhum dos garimpeiros da região acreditava, assim como você também deve estar duvidando. Mas é verdade, já estávamos viajando havia mais de trinta dias. Começamos em um ônibus do Rio de Janeiro para Bauru, em São Paulo, onde tomamos o trem até Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Conhecemos o Pantanal de carona em um barco boieiro carregado de bois, no Rio Paraguai; visitamos Bonito; acampamos 5 dias em uma caverna na Chapada dos Guimarães; passamos o reveillon no cume do Morro São Gerônimo; visitamos parentes do Ricardo em Cuiabá; seguimos até Porto Velho, em Rondônia; descemos o Rio Madeira em barco recreio; subimos o Rio Amazonas e o Rio Negro até Manaus, onde enfrentamos uma greve dos portos, sem dinheiro para voltar de avião; e por um milagre conseguimos chegar a Itaituba, ainda vivos e ansiosos por percorrer o que prometiam ser emocionantes mil quilômetros de Transamazônica, atravessando a floresta até a cidade de Marabá. De lá seguiríamos para Brasilia, de onde voltaríamos de carona para o Rio de Janeiro.

Era necessário esperar até que a última passagem da D-20 fosse vendida, para que o motorista iniciasse a viagem para Marabá. Isso poderia levar alguns dias. E o motorista nos alertou: ele sairia com os passageiros que estivessem à vista. Quem comprasse a passagem e não estivesse ao lado da caminhonete no momento da partida, ficaria em Itaituba. Tínhamos que esperar de olho no carro.

Cozinha do estabelecimento onde compramos e cozinhamos os ovos de galinha.

Compramos ovos de galinha e pedimos ao vendedor para cozinhá-los no fogão da própria loja, que parecia ser também residência do comerciante. Comemos os ovos com pão, e tomamos água, pois a caninha 61 que encontramos no bar parecia uma péssima ideia. Esperamos sentados, conversando por um dia inteiro. A noite veio e tivemos que escolher um dormitório. Pagamos pelo pernoite o mesmo que gastamos com os ovos.

“Vocês são pesquisadores, desses de universidade?” perguntaram. Não fazia nenhum sentido para os garimpeiros que estivéssemos ali a turismo. E a nossa câmera fotográfica, de película de 35 mm, só poderia servir para ilustrar o nosso trabalho científico sobre a região. Para eles não havia beleza nenhuma naquele lugar que justificasse qualquer fotografia. “Eu não desejo essa viagem de Itaituba para Marabá nem para o meu pior inimigo” disse um deles. “Vocês estudam tanto, depois vêm para Itaituba fazer pesquisas…”

As pessoas de lá faziam piadas sutis. A ironia era subentendida pelos próprios fatos, sem necessidade de entonação ou qualquer expressão facial. Eram pessoas sofridas. Ouvíamos contarem as estórias da violência, do Zé do Abacaxi, dos mandantes de mortes por retrato falado, e dos garimpeiros que morriam por engano, pelas mãos dos assassinos de aluguel mal informados. A vida não valia nada naquele lugar.

No dia seguinte, voltamos cedo à vigília para não perdermos o transporte. Mais algumas horas e chegaria o último passageiro. O motorista nos chamou, amarramos as mochilas sobre a cabine da D-20 e subimos na caçamba. Mesmo que não quiséssemos economizar comprando a passagem mais barata da caminhonete, teríamos que ceder os lugares mais confortáveis da cabine, ao lado do motorista, pois havia uma grávida de 7 meses entre os passageiros. Ela merecia o banco estofado com encosto, compartilhado com outro desconhecido. Na caçamba, contamos nove pessoas, todas sentadas em um banco quadrado, de madeira, com uma ripa horizontal para apoiar as costas. Quando todos se acomodaram, não havia possibilidade de mexer o pé para qualquer lado, sem que duas pessoa trocassem de posição.

Omotorista deu a partida e acelerou. Tive a impressão de que ele só acelerava, não freava nem aliviava o pé no acelerador. Tínhamos que viajar com os braços levantados, com as mãos bem firmes segurando em vergalhões sobre nossas cabeças, como a armação de uma barraca de acampamento. Não havia cinto de segurança. Avançávamos rápido, trepidando muito, sofrendo pancadas e solavancos. Eu comecei a pensar que não sobreviveria àquilo por muito tempo. Em dez minutos tudo doía muito, e as minhas mãos já estavam dormentes. A viagem duraria três dias, com meia hora de descanso para cada refeição e cinco horas para cada noite de sono. O mesmo motorista guiaria por todo o tempo a D-20 na estrada enlameada.

Subíamos e descíamos os morros do caminho, aproveitando cada descida para tomar o máximo de velocidade para subir o morro seguinte. Em cada vale havia uma frágil ponte de duas tábuas paralelas sobre um pequeno riacho transversal. O motorista precisava mirar bem nas tábuas, para que o carro em velocidade máxima não chocasse as rodas dianteiras contra a vala em que corria a água. A cada descida eu tinha a impressão de que capotaríamos. O carro seguia trajetórias retas, mas raramente a sua dianteira apontava para frente — o carro girava de um lado para o outro enquanto deslizava ladeira abaixo pela lama. Apesar de tudo, nunca erramos uma ponte.

Durante as primeiras três horas, eu não perdi os sentidos nem fui jogado na mata por uma das guinadas do motorista, como imaginava que aconteceria. Meu corpo se habituou ao suplício, e não sentia mais nada, nenhuma dor. Entrei em transe e continuei assim até Marabá, falando quase nada e esperando apenas que saíssemos logo daquela floresta.

Lembro que paramos no segundo dia, e um dos garimpeiros desceu da caminhonete para capturar uma galinha encontrada no meio da estrada. A ave foi amarrada pelos pés, junto com as bagagens, no alto do carro. Horas depois a galinha pôs um ovo. Passei a ver a ave como a nossa palhaça, que sofre por nós, nos redimindo e nos divertindo com sua impotência, sua teimosia e seu otimismo, de quem insiste em viver e ser feliz, e escapa da tragédia apenas pelo fato de sua existência ser insignificante para os deuses.

Atolamos muito. Tínhamos apenas uma enxada e doze homens para desatolar o carro. Uma vez desitimos de cavar e empurrar, e resolvemos esperar que passasse algum outro carro com tração nas quatro rodas. Algumas horas esperando e lá veio um caminhãozinho, equipado com corda, já habituado aos percalços da estrada amazônica.

Passamos pela barragem da usina hidroelétrica de Tucuruí, onde fomos parados por guardas. Perguntaram se tínhamos nota fiscal da nossa máquina fotográfica. Quando dissemos que não, queriam confiscar a máquina. “Vocês terão que confiscar as nossas roupas e as nossas bagagens, então”, disse o meu amigo, “pois não temos notas fiscais de nada, nem da galinha! “ — agora o palhaço era o meu amigo Ricardo… Algum garimpeiro soprou para os guardas que nós éramos pesquisadores do Rio de Janeiro, e o conjunto dos fatos foi suficiente para dissuadí-los do confisco.

A viagem continuava, e eu pensava na impotência da galinha, enquanto o Ricardo ouvia as estórias das mortes no garimpo. Nós nos submetíamos àquela provação voluntariamente, enquanto a galinha, caída de algum caminhão, tentava ser livre na floresta. Eu já não tinha a esperança de ser livre naquela viagem. Vendi por três dias a liberdade das minhas pernas, das minhas costas e dos meus braços para me agarrar aos vergalhões presos sobre a caçamba da D-20. Durante esses dias pensava na galinha amarrada pelos pés aos mesmos vergalhões, apertada entre as bagagens, e ria da bichinha. Aquele mais impotente do que nós, que sofre como nós sem reclamar, e sem perder a alegria de viver, esse é o palhaço, de quem rimos sem culpa. A galinha era o meu palhaço, e me dei conta de que eu poderia ser o palhaço de alguém.

Ricardo e eu, quando chegamos a Marabá.

Após os três dias previstos, chegamos a Marabá. Cansados, imundos, mas orgulhosos por termos sobrevivido. Nunca mais tive a mesma satisfação juvenil de vitória por simples sobrevivência a um ordálio. Há experiências que parecem fazer sentido aos vinte e poucos anos, mas hoje posso dizer que passei a concordar com os garimpeiros: não se deve desejar aquilo nem para o pior inimigo. Fizemos os nossos retratos no estado em que nos encontrávamos. Pintados de lama, a roupa desajeitada… o sorriso de um e a tranquilidade de outro não escondiam o nosso contentamento por todos os riscos que passamos, sem nenhum preparo, sem recursos, sem segurança. Sobreviver em adversidades era a nossa alegria, a alegria sofrida dos palhaços.

– Bernardo Monteiro


Originalmente publicado no Medium.com em TUDO sobre NADA, em 25/01/2015.