É virose, sim. Pode acreditar!

Por mais genérico que pareça o diagnóstico, o médico tem critérios para estabelecê-lo com segurança, descartando outros problemas mais sérios. Entenda o que caracteriza os quadros de “virose” e como funciona o raciocínio médico para chegar a essa conclusão.

Febre, dor no corpo, vômito, prostração, diarreia, tosse, congestão nasal. Quem mal consegue sair da cama nem seguir sua rotina, por conta de sintomas como esses, pode ficar frustrado ao ouvir do médico que tem apenas uma “virose”. Mais do que isso: que não há um remédio específico para combatê-la (apenas, para atenuar o mal-estar) e que é necessário esperar o ciclo do vírus se completar sozinho. Ou seja, ele sai do consultório só com uma receita de analgésico, antitérmico ou outro remédio de venda livre e, muitas vezes, sem ter sido submetido a nenhum exame laboratorial. É compreensível que se sinta inseguro.

Daí a importância de explicar como é feita a avaliação dos profissionais de saúde, capaz de excluir causas mais sérias para sintomas tão incômodos. Primeiro, é importante deixar claro que a intensidade do desconforto, por si só, não determina o diagnóstico. “Tanto quadros virais como bacterianos podem ocasionar febre alta e baixa, dor de cabeça, prostração, tosse, náusea e assim por diante”, avisa a Dra. Bianca Miranda, infectologista do Hospital Samaritano de São Paulo. “O que define a causa provável é uma série de fatores, como histórico do paciente, estado geral, evolução de suas condições, exame físico e, se necessário, testes laboratoriais complementares, como os de sangue e de urina”, complementa. Veja, a seguir, alguns critérios que os especialistas adotam para chegar a uma constatação:

• Aspecto clínico: “Assim que o paciente surge na porta do consultório, começamos a observar características como coloração da pele, frequência respiratória, maneira como fala e tônus do corpo”, exemplifica a Dra. Bianca.

• Anamnese: Histórico de doenças crônicas, de vacinação, de infecções recorrentes, de problemas genéticos na família; hábitos, como tabagismo; uso de certos medicamentos; viagens para zonas endêmicas; contato com pessoas doentes; dores como lombar ou ao urinar; consistência das fezes, alimentação e eventuais lesões recentes são outras pistas que direcionam o raciocínio.

• Exame físico: ao examinar a garganta, o ouvido e a mucosa nasal, o médico consegue observar se há sinais de inflamação ou infecção por micro-organismos. A vermelhidão e o inchaço locais, bem como a presença de pus, são alguns desses indícios. Temperatura corporal, pressão arterial, palpação do abdômen e dos seios da face, batimentos cardíacos, ausculta do pulmão (para verificar se há chiado, por exemplo), também ajudam a distinguir uma virose de uma pneumonia, sinusite ou intoxicação alimentar.

• Evolução dos sintomas: “Embora não exista um padrão exato, algumas manifestações são mais típicas de doenças virais e outras, de infecções bacterianas”, esclarece a Dra. Bianca Miranda. Segundo ela, no caso de enfermidades provocadas por bactérias, os sintomas tendem a se intensificar muito rápido, enquanto as viroses costumam melhorar após 48 ou 72 horas.

Precisa de exame?

Nem sempre eles são mandatórios. No entanto, se o médico tiver determinada suspeita clínica, pode recorrer a métodos complementares de avaliação. Nesse caso, uma das opções é solicitar testes sanguíneos (para verificar a concentração de células do sangue, como as de defesa, indícios de inflamação ou de alterações hormonais e metabólicas, entre outros parâmetros); de urina; de fezes; ou de imagem, como o raio-x, o ultrassom e a tomografia, a fim de detectar alterações como cálculos renais, hérnias de disco e muitas outras.

Devo ir ao pronto-socorro?

Não é preciso correr ao hospital diante de qualquer mal-estar leve. “Em geral, nas primeiras 48 a 72 horas, os sintomas podem ser inespecíficos, o que inviabiliza um diagnóstico preciso”, justifica a Dra. Bianca Miranda. Sem contar que o contato com outras pessoas doentes, quando o organismo já está fragilizado, pode abrir portas para complicações.

Por isso, a médica recomenda que, na presença de sintomas como febre baixa (inferior a 38,5º C), tosse, congestão nasal ou diarreia iniciais, o paciente fale com seu médico de referência, que irá acompanhar a situação e orientar sobre possíveis medicamentos para aplacar o desconforto. Entretanto, se o problema se agravar nesse período de três dias, é necessário recorrer a auxílio especializado.

Atenção redobrada

Há pessoas para quem o excesso de zelo é bem-vindo e que devem consultar um médicos sempre que suas condições de saúde fugirem do habitual. Confira:

-Idosos e crianças: quadros respiratórios, por exemplo, podem progredir rapidamente nesses pacientes. Já os bebês, especificamente, desidratam facilmente. Portanto, os dois extremos de faixa etária merecem uma pronta avaliação em caso de mal-estar.

-Portadores de doenças crônicas: asma, diabetes, hipertensão, HIV, imunodeficiências, doenças cardíacas, entre outras patologias, justificam uma visita precoce ao consultório.

Sinais de alerta

As manifestações que devem despertar seu senso de urgência:

· Rigidez na nuca

· Vômito em jatos

· Chiado expressivo no peito

· Dificuldade de respirar

· Arroxeamento dos lábios e dos dedos

· Febre que não cede com medicação

· Interrupção da frequência urinária

· Em idosos: confusão mental, excesso de sonolência, dor no peito.

· Em crianças: letargia, irritação exacerbada sem causa aparente, perda de apetite e choro frequente.

Erro de diagnóstico? Não, necessariamente

Uma semana depois de passar pelo consultório e receber o diagnóstico de virose, os sintomas ficam mais intensos e você volta ao pronto-socorro. Ao passar pela reavaliação, o profissional de saúde suspeita de uma infecção por bactéria. Isso não quer dizer que o primeiro médico errou em sua análise. “Algumas vezes, o problema começa com uma virose, que sobrecarrega o sistema imunológico para combatê-la, abrindo a guarda para o ataque de bactérias”, explica a Dra. Bianca. Em outras palavras, a novela começou, mesmo, com a ação de um vírus, mas só terá seu desfecho quando a bactéria oportunista for vencida.

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