Check-up contra o câncer

Flagrar um tumor escondido no corpo, antes que ele comece a dar sinais da sua presença, é o segredo para ampliar as chances de combatê-lo, sem ter de enfrentar muita complicação. Descubra como manter uma vigilância efetiva e sem exageros

Se existem mais de 200 tipos de câncer, pense na dificuldade que seria fazer uma triagem de todos eles, periodicamente. Além de desnecessário, isso geraria uma angústia enorme na população, sem contar o gasto de tempo e de recursos.

Por isso, as recomendações de rastreamento se restringem aos tipos de câncer mais frequentes e que dispõem de exames com bom valor preditivo, ou seja, aqueles cujos resultados apontam, de modo fiel, as pessoas que realmente necessitam de intervenções ou de uma avaliação mais aprofundada, evitando procedimentos inadequados.

Quando se fala em avaliação preventiva, é preciso considerar dois times: o dos indivíduos que apresentam risco aumentado para determinado tipo de tumor e todos os demais.

“Histórico familiar de câncer antes dos 45 anos pode levantar suspeita para síndromes genéticas, capazes de ser transmitidas por gerações”, exemplifica a Dr. Maria Angélica de faria Domingues de Lima, geneticista do Americas Centro de Oncologia Integrado (ACOI), no Rio de Janeiro.

Já quem se expõe ao sol sem proteção está mais sujeito ao câncer de pele. No caso dos fumantes, é o câncer de pulmão que pode estar à espreita. Mulheres que tiveram a primeira menstruação muito cedo ou menopausa tardia, bem como aquelas que nunca tiveram filhos, são mais propensas ao câncer de mama. O mesmo vale para as obesas e para quem se submete à terapia de reposição hormonal. E assim por diante.

Mas, atenção: nada disso quer dizer que a pessoa está fadada a encarar a enfermidade. Essa classificação serve apenas para identificar quem tem uma probabilidade maior de enfrentá-la e, por isso, necessita de cautela redobrada, para que um eventual tumor possa ser detectado e tratado em estágio inicial.

Ou seja, todas essas informações podem e devem ser relatadas para o seu médico, que vai ponderar se é o caso de antecipar algum exame ou tomar alguma precaução adicional.

Sem exceção

Mesmo que você não se encaixe em nenhum grupo de risco, isso não é razão para descuidar do check-up. Nesse caso, o critério de inclusão no rastreamento será a sua idade. A razão é simples: à medida que as células envelhecem, a probabilidade de elas se multiplicarem de forma desordenada, desencadeando um tumor, fica elevada. Ou seja, a partir de determinada faixa etária, todo mundo deve se certificar de que não há nenhum crescimento de tecido anormal. Como? Submetendo-se, periodicamente, aos exames estabelecidos pelas diretrizes médicas, conforme o esquema a seguir:

Câncer de mama

Mulheres com idade entre 50 e 69 anos devem fazer uma mamografia a cada dois anos. Antes disso, o teste fica a critério do médico, especialmente diante de fatores de risco. É claro que alterações observadas em exames clínicos também justificam uma investigação mais completa. Sempre é bom lembrar que lesões menores de dois centímetros de diâmetro têm uma chance de cura superior a 90%.

Câncer de colo de útero

Este é o segundo tumor mais prevalente entre as mulheres brasileiras, ficando atrás, somente, do câncer de pele não-melanoma. Por isso, as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Cólo do Útero preconizam a realização do teste citopatológico, popularmente conhecido como Papanicolao, com a primeira coleta aos 25 anos de idade, no caso das mulheres que já tiveram relações sexuais.

Antes disso, o rastramento deve ser evitado. A recomendação é que os dois primeiros exames sejam feitos com intervalo de um ano e, se os resultados forem negativos, que a frequência passe a ser a cada três anos. A regularidade deve se manter até os 64 anos de idade. Depois disso, mulheres que nunca desenvolveram a doença são dispensadas da rotina de triagem, mas só após obterem dois resultados negativos consecutivos, em um período de cinco anos. Portadoras de HIV ou pacientes imunodeprimidas devem ter uma rotina de rastreamento individualizada.

Câncer de próstata

Embora ainda não haja um consenso sobre o rastreamento desse tipo de câncer, a Sociedade Brasileira de Urologia recomenda que todos os homens com mais de 50 anos consultem um urologista para uma avaliação da próstata. Aqueles que têm antecedentes familiares de câncer de próstata, são negros ou obesos mórbidos devem antecipar a visita para os 45 anos.

“Durante a consulta, o médico pode solicitar exames como o de toque retal e a dosagem de uma substância conhecida como PSA, para verificar se há indícios de problema na glândula”, comenta a Dra. Clarissa Baldotto, diretora médica de cuidado integrado, do Americas Centro de Oncologia Integrado (RJ).

Câncer de cólon e reto

Via de regra, quem tem mais de 50 anos precisa se submeter a uma colonoscopia — exame invasivo, com acesso pelo ânus, que permite analisar as condições da mucosa intestinal. Mas, novamente, é importante ressaltar que a ocorrência da doença na família pode justificar uma antecipação do exame.

“A partir da primeira investigação, se estiver tudo normal, a colonoscopia pode ser repetida em 10 anos, desde que se faça uma pesquisa anual de sangue nas fezes, que é outro indicativo de alterações”, complementa Clarissa Baldotto.

É de família

Casos de câncer muito precoces ou episódios recorrentes em uma mesma família acendem o sinal amarelo para síndromes genéticas. Nesse caso, o ideal é que o paciente procure um geneticista. “A partir de uma investigação de seu DNA, será possível orientar familiares que, eventualmente, apresentem risco de desenvolver o câncer em questão, garantindo que sejam adotadas todas as medidas preventivas necessárias”, avisa a Dra Maria Angélica.