Proteína anti-envelhecimento

Cientistas investigam associação entre uma molécula chamada klotho e alguns efeitos da idade avançada sobre o organismo, abrindo perspectivas de prevenção e tratamento para o futuro
Imagine se fosse possível preservar a juventude, barrando doenças como as do coração, dos ossos e do sistema nervoso, que promovem déficits cognitivos. Por mais ficção científica que pareça, essa possibilidade já começa a engatinhar.
Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas, da Universidade de São Paulo (USP), estão pesquisando a relação entre a redução de uma proteína chamada klotho no organismo e problemas ligados ao envelhecimento.
Segundo escreveram os autores do estudo, baixas concentrações de klotho parecem levar a uma “diminuição acentuada da expectativa de vida, além do surgimento precoce de doenças e síndromes relacionadas ao envelhecimento, como aterosclerose, osteoporose, atrofia da pele, enfisema pulmonar e declínio cognitivo, enquanto uma superexpressão [da proteína] aumenta por volta de 30% a expectativa de vida”.
O objetivo, agora, é investigar a ação da klotho no metabolismo energético, na capacidade adaptativa do sistema nervoso central, nos mecanismos de inflamação e de ação do hormônio insulina, visando desvendar seu real papel na desaceleração do envelhecimento.
A geneticista Mônica Lipay, do Hospital Samaritano de São Paulo, comentou o papel da klotho no organismo e esclareceu as hipóteses mais conhecidas para justificar o benefício. Confira a entrevista:
Alguns dos mecanismos que associam a klotho à desaceleração do envelhecimento já foram esclarecidos?
A descoberta do gene Klotho (KL) gerou enorme interesse e compreensão avançada sobre o processo de envelhecimento. Nos camundongos (cuja proteína é 98% idêntica à dos humanos), uma superexpressão do gene que induz a produção da proteína prolonga a expectativa de vida em até 30%, enquanto as mutações que diminuem sua quantidade promovem o efeito contrário.
De caráter multifuncional, a proteína regula o metabolismo de substâncias como o fosfato, o cálcio e a vitamina D, além de haver suspeita de que ela também atue como um hormônio.
Nos seres humanos, seus níveis diminuem progressivamente no sangue, a partir dos 40 anos. Essa redução pode ser observada em pacientes com várias doenças relacionadas ao envelhecimento, como câncer, hipertensão e doença renal.
No entanto, embora a existência da klotho tenha sido descoberta há 20 anos, sua função ainda não foi completamente esclarecida. Estudos recentes vêm revelando inúmeros mecanismos moleculares de envelhecimento previamente desconhecidos.
Que fatores determinam a progressão do envelhecimento?
O envelhecimento está relacionado aos genes, hábitos de saúde (positivos ou negativos), condições do ambiente familiar e profissional e ao acúmulo de experiências de vida.
Quando negativos, esses fatores intensificam o processo natural de oxidação celular, atrelado ao envelhecimento?
Sim. Todos os organismos vivos usam oxigênio para processar e utilizar os nutrientes da dieta, a fim de produzir energia para a sobrevivência. O oxigênio é, portanto, um componente vital. Ele está envolvido nas reações químicas que metabolizam as gorduras, as proteínas e os carboidratos para gerar energia. No entanto, ele é um átomo reativo e pode se tornar parte de moléculas potencialmente nocivas, popularmente chamadas de radicais livres. Eles danificam as células saudáveis do organismo, contribuindo com o envelhecimento e a ocorrência de doenças.
De que forma essa descoberta pode contribuir com a desaceleração do envelhecimento e com o tratamento de doenças relacionadas à idade, no futuro?
Ela pode facilitar o entendimento de como esses processos acontecem e permitir que esse conhecimento seja utilizado para retardar ou reverter o processo de envelhecimento.
