MEMÓRIAS

Era dia de visita, o velho fora acordado bem cedo para a rotina comum a tal ocasião. Auxiliaram no banho, fizeram sua barba e lhe vestiram com o melhor terno, afinal, a visita daquele dia era ilustre, o neto doutor, finalmente, daria o ar da graça.
Enquanto o preparava para a visita, a enfermeira não parava de tagarelar, repetia o que ouvira sobre o moço e dava conselhos ao velho de como deveria se comportar quando o visitante chegasse, mas nada daquilo era ouvido, pois o velho optara por revisitar suas lembranças e abstrair a presença incômoda da enfermeira.
Fechou os olhos e se viu ainda menino de sete ou oito anos, acocorado à sombra de uma árvore, mastigando um capim limão, enquanto vigiava a pequena plantação de arroz. Sua tarefa era impedir que os pássaros levassem os grãos que germinavam. As lembranças eram tão vívidas que até sentiu o vento morno da tarde daquele dia perpassando a camisa de algodão que a mãe lhe fizera.
O velho foi trazido de volta à realidade por uma manobra brusca da cadeira de rodas, porém não repreendeu a moça nem esboçou movimento que expressasse algum desconforto, apenas deixou-se conduzir pelo longo corredor que o levava à sala de visitas.
Ao entrar, viu um belo rapaz de porte atlético, segurando um envelope amarelo em uma das mãos, parado ao lado da janela que dava para o jardim. Reconheceu nele o neto que há muito não via, percebendo de imediato a natureza da visita. Certamente, não eram saudades ou qualquer coisa parecida. Era necessidade. Desespero por transferir logo a propriedade do avô para o próprio nome. Afinal, o moço trabalhara arduamente por isso, acompanhando o velho por anos a fio, até conseguir enfiá-lo definitivamente naquela casa de repouso. Luxo que lhe doía no bolso, mas era necessário para alcançar seu objetivo.
O neto o cumprimentou educadamente, sentando-se a uma certa distância. Pensou em puxar assunto, mas nada lhe ocorreu. O velho o olhava em silêncio, ignorando seu desconforto. O rapaz se mexia desajeitadamente na cadeira, tentando descobrir uma maneira rápida de colher a assinatura do avô e cair fora daquele lugar.
Como o velho o encarava em silêncio, desviou o olhar na direção do jardim, afrouxando o nó da gravata. Depois de um breve instante, sentiu-se mais seguro para enfrentar aquele olhar desafiador, projetou o peito e virou-se com a intenção de também fitar o avô, pois pretendia acabar logo com aquela situação. Contudo, seu movimento perdeu o ritmo ao perceber que grossas lágrimas serpenteavam nos sulcos da pele enrugada do rosto do avô.
Embora trêmulas, as mãos do velho arrebataram vigorosamente o documento que o neto segurava. Livrou-se do lacre com gestos bruscos, rasgando o envelope, contudo, na medida em que lia a descrição da propriedade, sua fúria momentânea era substituída por gestos suaves e melancólicos que foram diminuindo lentamente até repousar as páginas do documento sobre suas pernas inertes.
Em silêncio, o velho se perdera novamente em suas lembranças. Viu-se um jovem de 19 anos já casado e pai de família. Moravam com a sogra em um casebre com telhado de folhas de buriti, paredes de adobe e chão batido. À noite, o vento frio entrava assoviando pelas frestas das janelas apavorando as pobres almas que lá viviam. Às vezes, passava a noite toda se contorcendo sobre o colchão de capim e palha de milho, tentando encontrar saída para aquela vida carcomida pela miséria.
Certo dia, enquanto comprava mantimentos na mercearia, ouviu alguém dizer que a casa atrás da igreja do vilarejo estava à venda. Embora soubesse perfeitamente que sua condição financeira não lhe permitia sequer alugar uma casa como aquela, decidiu que iria comprá-la. Tentou arquitetar um plano, mas suas ideias não lhe eram favoráveis, todavia, aquele desejo crescia em seu peito, afinal, era um desejo muito nobre; o que queria não era apenas para si, mas para melhoria da qualidade de vida da família.
Passou dias remoendo aquela ideia. Ficou febril. Em seus delírios, via-se deitado em uma rede pendurada no alpendre da casa. Não comia. Definhava. Todas as tardes após o árduo trabalho na colheita do café, acocorava-se diante da casa objeto de seus desejos, sonhando possuí-la. Depois de um tempo, pareceu-lhe que aquela ideia estava desaparecendo, chegou a sentir certo alívio. Voltaria a viver seus dias, aceitando o que a vida lhe resignara. Mas não teve jeito, de repente lá estava novamente a chama do desejo a lhe queimar o peito.
Numa fria manhã de inverno, acordou de madrugada e foi ao encontro do proprietário da casa. Sabia bem o caminho que o homem percorria todos os dias da fazenda até o vilarejo. Enquanto caminhava pela estrada empoeirada, ia enrolando as abas do chapéu tentando construir um bom argumento, mas nada lhe ocorria. Ao chegar na encruzilhada onde esperaria pelo fazendeiro, sentou-se no barranco à beira do caminho e pôs-se a rezar. Rezou tão longa e fervorosamente que não percebeu suas preces ecoando pela mata ainda adormecida, fazendo com que os pássaros saíssem aos bandos numa barulhenta revoada.
Quando abriu os olhos, viu diante de si o fazendeiro ainda montado no cavalo. Gaguejou um cumprimento com o fio de voz que a surpresa daquela aparição lhe permitia. Fez-se então um silêncio entrecortado apenas pelos relinchos do cavalo que pareceu estar também incomodado com aquela situação.
O fazendeiro estivera observando a cena já há algum tempo, ouvindo aquele clamor por intervenção divina. Como era homem de poucas palavras, mas de rápida e firme decisão, ponderou sobre o desejo do pobre sonhador e foi logo ordenando que mudasse para a casa ainda naquele dia, pois ela estava vazia há bastante tempo e, morando lá, o homem pelo menos evitaria que o lugar virasse maloca de bandido. Quanto ao pagamento, descobririam depois como seria feito. Embora relutante com a proposta, o homem cumpriu o que determinara o fazendeiro.
Passados alguns dias, estabeleceu uma rotina de visitas ao fazendeiro a fim de definir como pagaria sua dívida, mas a resposta era sempre adiada por um motivo qualquer: o fazendeiro estava atrasado para um batismo, não negociava na semana santa, estava de luto, e por aí a fora. Nesse ínterim, a vida tratou de seguir seu curso normal: filhos nasceram, a casa foi ampliada e a prosperidade bateu na porta daquele lar.
Finalmente, o homem pode acertar um valor com o fazendeiro e quitar a dívida, recebendo então a escritura do amado imóvel. Nele, viu seus filhos crescerem e seguir suas vidas. Meio século viveu naquela casa, onde pode presenciar a evolução daquele lugar. A casa antes no meio do nada, agora estava em um elegante bairro e se encolhia tímida entre casarões imponentes. Era o último resquício de um tempo que há muito deixara de existir.
A velhice foi chegando lentamente trazendo consigo os sofrimentos próprios da idade. O homem, já viúvo e solitário, viu suas forças partindo, levando consigo até o brilho do olhar. Lutou enquanto pode, mas as mãos deformadas pelo reumatismo eram trêmulas e incertas. As pernas já não podiam com o peso do corpo. Resignado, deixou ser internado na casa de repouso onde, assegurara o neto, receberia cuidados adequados.
O velho não havia percebido que durante o longo tempo em que permanecera mergulhado em suas lembranças o dia se declinara lentamente, dando lugar a uma noite negra e chuvosa. O vento açoitava as vidraças das janelas, e o reflexo dos raios desenhavam sombras ameaçadoras nas alvas paredes da sala. Enfermeiros se apressavam em fechar as cortinas e recolher os pacientes ao conforto de seus quartos.
O neto, que permanecera estático ao lado do avô durante todo o tempo, mostrava sinais de impaciência, pois vislumbrava a possibilidade de ter que sair dali sem a desejada assinatura. Percebendo o desespero, o velho acariciou levemente o papel, como se pela última vez tocasse nas paredes da velha casa, e, segurando a caneta desajeitadamente, preparou-se para escrever.
Enquanto desenhava lentamente seu nome no papel, paz e sensação de dever cumprido inundaram seu coração. Aquelas velhas lembranças lhe acalentaram o coração, de modo que, ao estender o documento ao neto, o velho não mais via diante de si um homem, mas o menino que, durante os longos passeios dominicais da infância, enganchava no pescoço do avô, abria os braços balançando o corpo franzino, imaginando ser um avião.
Não se despediram. Enquanto o velho, e suas lembranças, era conduzido de volta ao quarto, o jovem observava a cena, parado exatamente onde estava. Absorto naquela contemplação, parecia que as lembranças de sua infância com seu avô começavam a aquecer seu coração, seu rosto se iluminava e um leve sorriso começou a se desenhar no canto dos lábios, contudo, conteve o impulso, virou as costas e caminhou com passos rápidos e decididos em direção à porta. Tinha urgências em chegar no escritório, pois agora não havia mais impedimentos para executar seus planos; a casa era legalmente sua. Quanto ao avô, certamente o visitaria em ocasião oportuna; talvez fizessem até um passeio pelas alamedas floridas do jardim da casa de repouso.
O jovem abriu a porta, dando passagem a uma violenta rajada de vento, e desapareceu na escuridão da noite em meio a relâmpagos e trovoadas, enquanto uma grossa chuva começava a cair.