Ansiedade e aceitação

Giovanni Alecrim
Nov 15 · 8 min read

Compreendendo como nosso desejo de sermos aceitos precisa ser transformado

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Houve momentos em minha vida que a angústia e tomou conta de mim a ponto de me fazer paralisar, ou quando não paralisava, me fazia procrastinar tudo. Sentava-me na cadeira de meu escritório e orava e, pode parecer estranho, mas sentia que minha oração não passava do teto. Era como se eu orasse e nada acontecia. Deus parecia distante de tudo, da minha vida, dos meus problemas, das minhas preocupações. Um sentimento de vazio, de que estava nadando contra a maré, que a vida estava estagnada num eterno andar em círculos. É como se Deus não estive ali do meu lado. Nestes dias nebulosos, eu era tomado por uma grande ansiedade de que as coisas se resolvessem logo, não conseguia aceitar a condição de silêncio e estagnação. Havia uma tempestade acontecendo dentro de, por mais que eu clamasse, não via perspectiva

Esse relato pessoal não é exclusividade minha. Você já deve ter se sentido assim, ou até se sente assim agora. Muitos parecem viver a fé numa toada automática, sem olhar para sua situação como um momento, uma circunstância. O problema, é que muitas vezes as circunstâncias se arrastam por anos. De fato, existem problemas que parecem não haver solução, por isso, quero convidar você a ler comigo o Salmo 37, versos 3 a 6.

O Salmo 37 está na categoria de salmos cuja tradução para o português não honra a beleza de sua estrutura poética. Não importa a tradução. Começa pelo fato de ser um Salmo acróstico. Dois versos para cada letra do alfabeto hebraico. Além disso, pode ser chamado de salmo sapiencial, onde os versos são mais provérbios que propriamente uma canção. Há mais verdades coletivas que promessas individuais no Salmo 37. Talvez seja por isso que este salmo tenha me impactado tanto nos dias difíceis e, aliado ao Salmo 13, é uma das orações que faço quando as coisas não vão bem.

O texto que extraio do Salmo 37 para nossa meditação está no início do Salmo e apresenta como Javé convida o povo a confiar nele. O contraste são os perversos, que praticam o mal e são prósperos. O fim deles é o mesmo do capim e a grama, que logo murcharão. Parece haver uma ausência de prosperidade e recursos, de reconhecimento, e por isso o Salmo inicia dessa forma, mostrando que o perverso não vai prosperar. “Não se preocupe com os perversos”, começa o salmo. A palavra preocupar aqui não indica uma preocupação de fato, mas sim de uma ocupação em vigiar e invejar o perverso. Diante da perversidade, o salmista indica: Confie no Senhor e faça o bem.

O que somos hoje é parte da construção de toda uma vida, nossas emoções estão diretamente ligadas à essa construção. O que não nos atentamos, ao longo dessa jornada, é o quanto nossas emoções estão ligadas aos nossos pensamentos e convicções. Hoje olhamos para a nossa ansiedade diante das circunstâncias e vemos como nos falta reconhecer, aceitar que as circunstâncias são o que são. Por isso, vamos olhar para três verbos que nos intimam a transformar nossa forma de pensar para que nossas emoções sejam saudáveis diante das dificuldades.

Confie

“Vivemos num mundo carente de atenção e a desatenção aprofunda ainda mais a ansiedade”. O salmista, diante da carência do povo de Israel, é direto: Confie. Pode parecer não ter relação o pedido de confiança diante da insegurança do povo ante a prosperidade do perverso. É, parece, mas não é. Confie, pois isso o levará a fazer o bem e confiando você terá segurança, o que permitirá que prospere. Não há porque o povo de Israel achar que não é capaz de prosperar na terra que Javé estava lhes dando. Confie.

O desejo por atenção não é uma invenção dos dias atuais. Não nasceu com as redes sociais e suas fotos cheias de filtros e aperfeiçoamentos para que pareçamos pessoas lindas dentro de um parâmetro mortífero de beleza que nos é imposto. Não. O desejo por atenção é tão antigo quanto a humanidade. E para mostrar isso o Gênesis nos mostra como Caim desejava a atenção de Deus de maneira tão equivocada que isso o levou à amargura, ressentimento e desencadeou um assassinato. A busca por atenção constante é nociva demais para ser uma realidade constante em nossas vidas.

A nossa busca por atenção vem acompanhada daquilo que mais criticamos no outro: a falta de atenção, desatenção dele em relação a mim. Quando buscamos atenção, nos tornamos desatenciosos. Isso é fruto de uma busca por perfeição em tudo. Queremos que tudo funcione direito. Que os equipamentos não travem, que o celular e o computador sejam rápidos, que a banda larga seja “mega-ultra-blaster-master-advanced-plus” larga. Se não funciona, o que fazemos? Trocamos, jogamos fora, descartamos. Onde a perfeição e funcionalidade são valorizadas não há espaço para o erro, os desejos, os maus momentos.

Busque

O salmista sabia bem dessa realidade e por isso ele continua no verso quatro dizendo: busque no Senhor sua alegria. Não é a conquista da terra, a vitória militar, o expandir das fronteiras ou a escolha de um rei justo que trará a alegria para o povo. Não é a colheita farta, a casa cheia e o gado numeroso. Toda essa prosperidade é circunstancial, passa assim como o capim logo seca e a grama logo murcha. Também não será no fato de apenas carregar o nome de Javé que fará você ser feliz, bem sucedido. Não, é preciso confiar, fazer o bem e buscar em Javé a alegria.

Se há uma ilusão que nos foi incutida na mente desde sempre é a de que somos autossuficientes. O mundo tecnológico potencializou tal verdade. Um exemplo bobo disso é o GPS, você não precisa mais parar no posto de gasolina ou no ponto de taxi para pedir informação. Confiamos tanto na tecnologia que não nos importamos em ler os termos de uso das redes sociais e cedemos o direito de nossos dados e imagens para que empresas façam uso dele para obter lucros. E achamos isso normal! A busca por reconhecimento e atenção nos faz baixar a guarda quanto à nossa intimidade e nos permite desnudar nossa alma diante de um público que não está interessado em ser, mas em consumir.

Por isso o salmista nos diz para buscar o Senhor. Somente Javé pode nos dar a verdadeira alegria. Portanto, busque ao Senhor. Quando me recordo dos dias que narrei no início, percebo o quanto tratava minha relação com Deus como sendo distante e impessoal. Queria que Deus resolvesse meus problemas, mas não me ocupava em ouvir o que ele tinha a me dizer independente dos meus problemas. Não via Deus como pai bondoso e misericordioso, mas como um provedor de bênçãos, que eu peço e ele tem que me abençoar. É singular observar como oramos. Quando as frases são vagas, as expressões de gratidão são repetitivas e as súplicas aleatórias percebemos o quanto estamos distantes de uma relação com Deus que nos chama para a alegria. O que fazer, então, diante disso? Entregue!

Entregue

“Entregue seu caminho ao Senhor, confie nele, e ele o ajudará”. Israel tinha pela frente a construção de sua identidade como povo e nação. Sendo o salmo 37 de Davi, podemos dizer que estamos no meio do estabelecimento de normas e regras para a vida social e religiosa da época. Na mesma media que o culto a Javé era estabelecido na região, ele convivia com o culto a outros deuses, já presente ali a muitas gerações. O caminho de se estabelecer naquela região era longo e difícil, a comparação com os que ali já viviam e com os povos vizinhos era inevitável, diante de toda a prosperidade que há ao redor, nas mãos dos perversos, o salmista canta: “Entregue seu caminho ao Senhor, confie nele, e ele o ajudará”.

Entregue. Como é difícil entregar os problemas de nossa vida para que Deus nos mostre como devemos agir. Queremos a solução rápida, o milagre no estalar dos dedos. Quem nunca foi dormir pedindo a Deus que o dia que chegava ao fim não passasse de um pesadelo de mau gosto? Acordou no dia seguinte e se deparou com a realidade cruel de que as dificuldades estavam lá, e o pior, parecia que estavam maiores que no dia anterior. Os problemas do passado nos perseguem na medida que os tornamos senhores de nossas vidas. Confiamos tanto nos problemas que não os deixamos ir.

Isso me faz lembrar dos versos do genial Belchior. Ando numa fase musical bem Belchior ultimamente. Em sujeito de sorte o artista cearense nos diz

“E assim já não posso sofrer no passado”. Essa é uma verdade que precisamos viver. Se eu não entrego ao Senhor o meu caminho, eu continuo sofrendo no passado. Carregamos nossos sofrimentos como se eles fossem presentes, mas são passado, estão no passado e lá devem ficar. Sim, eu sei, existem traumas doloridos de mais pelos quais passamos e que se refletem até hoje. Graças a Deus temos no Espírito Santo a força para buscar ajuda e superá-los. Ajuda nos amigos, nos profissionais como psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, pessoas capacitadas por Deus para nos conduzir ao caminho do presente, para que o passado seja uma marca na história e não um presente amargo. Acho muito poético como Belchior expressa isso ao dizer “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Ou seja, no passado eu não vivi, eu não fui pleno, eu não me aceitei enquanto pessoa, eu me anulei em busca de uma falsa aceitação. Se não vivi, morri. Mas esse ano, hoje, eu não vou aceitar isso, vou viver. Daí eu pego o verso poético de Belchior e somo com o salmo 37 para te dizer: “Entregue seu caminho ao Senhor, confie nele, e ele o ajudará”.

E já que falei da poesia de Belchior, não posso deixar de olhar para a beleza poética do salmista: “Tornará sua inocência radiante como o amanhecer, e a justiça de sua causa, como o sol do meio dia”. Que imagem fantástica. Somos inocentes diante das acusações do pecado. Somos inocentes diante da perversidade, pois confiamos no Senhor e fazemos o bem. Os nossos problemas, as nossas causas, serão tratadas com justiça por Deus, a ponto do se tornarem claros como o sol do meio dia.

Finalmente

Quero concluir convidando você a não permitir que a ansiedade e o desejo de atenção e aceitação tomem conta de sua vida. Compreenda que em Deus temos a oportunidade de deixar o passado no passado e que, pelo sangue de Jesus, somos aceitos por Deus, que nos convida a uma vida de alegria por meio de seu Filho Jesus. Jesus nos chama para vida abundante, ou como diz o salmista, próspera. Prosperidade não tem nada a ver com bens materiais, mas com vitalidade. Como você vive sua vida? Preso ao passado?

Precisamos romper com o passado para que ele seja apenas uma ilustração que se conta em uma conversa, como a ilustração pessoal que contei na abertura da mensagem. Citando novamente Belchior, dessa vez em velha roupa colorida: “O passado é uma roupa que não nos serve mais”. Você vai insistir em vestir essa velha roupa remendada, apertada e sufocante? Não! Em nome de Jesus, não! Confie! Busque! Entregue! Deus é a nossa alegria, ele é o único capaz de transformar as noites escuras da vida em manhãs radiantes.

Texto adaptado do sermão pregado em 15 de novembro na Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi

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