Convicções moldam pensamentos

Giovanni Alecrim
Nov 9 · 6 min read

Quando nossas convicções determinam nossa forma de pensar

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¹Irmãos, o desejo de meu coração e minha oração a Deus é que o povo de Israel seja salvo. ²Sei da dedicação deles por Deus, mas é entusiasmo sem entendimento. ³Pois, não entendendo a maneira como Deus declara as pessoas justas diante dele, apegam-se a seu próprio modo de se tornar justos tentando seguir a lei, e recusam a maneira de Deus. ⁴Pois Cristo é o propósito para o qual a lei foi dada. Como resultado, todo o que nele crê é declarado justo.

Romanos 10.1-4

que somos hoje é parte da construção de toda uma vida, nossas emoções estão diretamente ligadas a essa construção. O que não nos atentamos, ao longo dessa jornada, é o quanto nossas emoções estão ligadas aos nossos pensamentos e convicções.

O texto que lemos mostra como o apóstolo Paulo trata dessa verdade à luz da relação do povo de Israel e a salvação em Cristo Jesus. Diz o apóstolo “Sei da dedicação deles por Deus, mas é entusiasmo sem entendimento”, em outra tradução, “’Porque dou testemunho a favor deles de que têm zelo por Deus, porém não com entendimento”. Todo o conhecimento que eles tinham acerca de Deus não se transformava em atitude ou ação diante da mensagem do Evangelho. Suas convicções estavam tão enrraigadas que limitava seu entendimento. Sua paixão pela Lei impediam ver e viver a graça. Convicções moldam pensamentos, e vamos começar indo direto ao ponto.

Direto ao assunto

“Muitos cristãos têm grande dificuldade em estabelecer uma relação coerente entre o que creem e a realidade à sua volta”. A imensa maioria das pessoas estão acostumadas a uma vida de fé restrita ao templo, onde o local de culto é importante por sua atmosfera, presença das pessoas e conteúdo do que é ensinado, no entanto, quando se trata de fazer a relação entre a verdade bíblica e o ambiente ao redor, muitos se perdem por não compreender o pouco que leem na Bíblia e não conseguem aplicar ao dia a dia.

Um bom exemplo disso são as adversidades. O sentimento de que Deus nos abandonou em meio a uma pandemia, uma enfermidade mortal ou o falecimento de um parente, ou amigo é recorrente. A dor nos faz questionar, no entanto, muitos se deixam tomar pelos questionamentos e passam de fieis frequentadores da igreja a céticos e críticos ferrenhos da fé. Por que isso acontece? Porque não sabem fazer a relação entre os ensinos da fé e a realidade ao seu redor. São acostumados a ouvir mensagens sobre a Bíblia e ler o texto bíblico no “automático”, com entusiasmo, mas sem entendimento.

Uma forma de encararmos tais situações é compreendermos que a personalidade e o comportamento humano são moldados por três fatores ao menos. O primeiro, o ambiente em que fomos criados, com as experiências – principalmente da primeira infância – e tudo o que faz parte de nossa formação. A segunda, a genética. É amplamente aceito pelos estudiosos do comportamento que filhos de pais depressivos, por exemplo, têm chances maiores de serem pessoas depressivas, independente de traumas ou eventos que desencadeiam a depressão. O terceiro, você mesmo. A maneira como você reage e interpreta os fatos ao seu redor. Aprender a reagir com maturidade e santidade é uma escolha e um exercício que devemos fazer. Isso passa por reconhecer de quem é a responsabilidade pelo que se está vivenciando.

Qual a minha responsabilidade?

“A culpa é minha eu a coloco em quem eu quiser”. Já ouviu essa frase de Homer Simpson? Ela é o retrato da nossa realidade. Eu não assumo meus erros e ainda quero que os outros sejam responsabilizados por eles. Que outros? Não importa. Deus, o governo, os pais, os avós, o passado, o cônjuge, os amigos, o chefe. A lista é grande e diversa. É assim desde o Éden. Adão responsabilizou Eva, que responsabilizou a serpente. Desde lá, o ser humano se tornou especialista em abrir mão da responsabilidade de seus atos.

Com o Evangelho, no entanto, não é assim. Vemos um claro exemplo disso em Lucas 19. Ali está registrado o encontro de Jesus com Zaqueu. Após receber Jesus em sua casa, Zaqueu se levanta, solenemente, na presença de todos e declara: “Senhor, darei metade das minhas riquezas aos pobres. E, se explorei alguém na cobrança de impostos, devolverei quatro vezes mais!”. (Lucas 19.8). O impacto da mensagem de salvação proclamada por Jesus levou o chefe dos cobradores de impostos a reconhecer sua condição de explorador e voltar-se para o explorado, restituindo quatro vezes mais de tudo o que havia roubado.

Zaqueu serve de exemplo para nós. Quem de nós teríamos coragem de se levantar e, solenemente, reconhecer os próprios erros e repará-los? A prática de colocar a culpa no outro é a saída mais fácil para justificar nossos erros. Não estou querendo, com isso, minimizar os acontecimentos de nossa infância, nossos traumas e erros de nossos pais e parentes que nos afetaram diretamente. Pelo contrário, estou dizendo que eles são tão reais e tão verdadeiros que precisam ser cuidados e superados. Muitas vezes, precisaremos de ajuda nesse processo, quer da comunidade de fé, quer de profissionais qualificados para nos ajudar. Só quem está disposto a trilhar o caminho da cura e de assumir seus erros pode compreender que precisa de ajuda para seguir adiante. Alguns chamam isso de fraqueza, mas não, isso é maturidade.

Conversão e maturidade

“A paisagem interior determina a paisagem exterior”. As nossas convicções determinam nossos pensamentos, nossos pensamentos conduzem a maneira como reagimos ao nosso ambiente. Isso explica porque um determinado acontecimento causa reações diferentes em pessoas diferentes. “Não são as realidades exteriores que nos desestruturam emocional ou espiritualmente, mas o julgamento que fazemos delas, principalmente o modo como cremos que Deus participa delas”. Isso está diretamente ligado ao que entendemos como vida cristã.

Conversão é o primeiro grande ato de Deus que nos coloca diante de uma jornada constante de maturidade. Conversão sem maturidade é mero emocionalismo. O cristão convertido é aquele que caminha olhando para as estruturas fundantes de suas convicções e pode as sujeitar a Cristo, para que sejam revistas e atualizadas. O próprio apóstolo Paulo trata disso em Filipenses 4.8: “Concentrem-se em tudo que é verdadeiro, tudo que é nobre, tudo que é correto, tudo que é puro, tudo que é amável e tudo que é admirável. Pensem no que é excelente e digno de louvor”.

A caminhada de fé pressupõe mudança. Não é uma caminhada em que agendamos a igreja como um compromisso de domingo, mas sim, nos despimos da velha roupa remendada de nossos passados e nos vestimos da nova roupa que Cristo nos dá. Esse processo, no entanto, não se consuma na mesma velocidade em que você tira o seu pijama e veste uma roupa para ir trabalhar. Ele é um processo lento e exige de nós renuncias, reconhecimento e assumir responsabilidades. Rever nossas convicções e revisitar nossos erros do passado não são tarefas fáceis. Causa medo e insegurança.

Finalmente

Quero concluir retomando as palavras de Paulo em Romanos 10: “Pois, não entendendo a maneira como Deus declara as pessoas justas diante dele, apegam-se a seu próprio modo de se tornar justos tentando seguir a lei, e recusam a maneira de Deus”. Muitos de nós fomos ensinados a amar a igreja, a reconhecer símbolos de fé, a distinguir o que é certo e o que é errado. Muitos de nós fomos formados em nossas igrejas com a certeza de que o que estávamos vivendo era Evangelho, quando, na verdade era apenas o “nosso próprio modo de se tornar justos”. Com isso, criamos fantasmas, alimentamos teorias da conspiração, elegemos inimigos inexistentes e excluímos pessoas da graça de Deus como se tivéssemos poder para tal. É preciso reconhecer que as nossas convicções estão equivocadas para que nossa emoção seja redimida diante de nossa realidade.

Esse é um processo que demanda tempo e compromisso. Como disse à pouco, rever nossas convicções e revisitar nossos erros do passado não são tarefas fáceis.

Texto adaptado do sermão pregado em 1º de novembro na Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi

Anarco Cristianismo

Pensamentos de um anarquista cristão em construção

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