Desatrofie a mente e o coração

Giovanni Alecrim
Sep 6 · 8 min read

Um olhar sobre a cura do homem da mão atrofiada e a necessidade de acolher quem é diferente

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Desatrofiar, deixar de encolher e expandir. Tomo a liberdade de criar um termo para me referir a esse episódio singular do Evangelho que nos convida a olhar o diferente, mesmo que o diferente seja um fariseu querendo te matar.

¹Em outra ocasião, Jesus entrou na sinagoga e notou que havia ali um homem com uma das mãos deformada. ²Os inimigos de Jesus o observavam atentamente. Se ele curasse a mão do homem, planejavam acusá-lo, pois era sábado.

Não quero olhar para esta passagem pelo viés da cura. Nos evangelhos toda cura tem um propósito definido. Jesus não cura ao acaso. O milagre acontece para que haja aprendizado. Não é diferente aqui. Jesus estava em uma sinagoga. Os testemunhos mais antigos datam o surgimento das sinagogas por volta do século III a.C. Estes são relatos que temos comprovados. Há, no entanto, teorias que dizem que a sinagoga surgiu na Babilônia, durante o exílio. Outros atestam que foi na Palestina, no mesmo período. Asseguradamente podemos cravar o pós-exílio como período de surgimento.

E o que acontecia na sinagoga? Basicamente a leitura dos rolos e oração. Era uma espécie de síntese do que acontecia no templo, excluído o sacrifício. A leitura podia ser da Lei ou dos Profetas. Eventualmente se entoava um salmo. É interessante notar que no século I, no ambiente da sinagoga, diferentemente das ruas, o messianismo não era tão evidente nem discutido. As orações e os salmos incluíam as grandes esperanças bíblicas de redenção e alento, mas não focavam na vinda de um messias. Essa esperança, ao que parece, era legada aos judaísmo popular.

É neste local e ambiente que Jesus entra num sábado, como era costume de todo judeu do século I. Ali, diz o texto, ele se encontra com seus inimigos, seus opositores. Quem eram eles? Os fariseus. Geza Vermes, em seu livro “Jesus e o mundo do judaísmo”, das Edições Loyola, anota que

Pode surpreender a muitos o fato de, à época do nascimento de Jesus, a fraternidade farisaica somar apenas, segundo Josefo, pouco mais de seis mil membros, contra quatro mil essênios, enquanto a população total da Palestina é estimada em cerca de dois milhões e meio de pessoas¹”

Ainda olhando para os adversários, é interessante também que o evangelista registra a associação, após a cura, dos fariseus com os herodianos. A aliança é meramente estratégica para aquele momento. Não há muito em comum entre os judeus que trabalhavam no palácio e viam em Herodes a saída para a libertação da Palestina, e os fariseus, detentores da interpretação e da aplicação da lei.

Estamos, então, num ambiente religioso, para uma prática religiosa e para um momento em que as atenções se voltam para Javé, não para o homem. No entanto, há ali, uma pessoa que chama a atenção de todos. Primeiro, por ser enfermo. Segundo, por estar ali, num canto, com sua mão atrofiada, meio que querendo se esconder. O que Jesus faz é chamar este homem à frente e tirar o foco dele, colocando o foco na questão primordial, que é curar o ou não no sábado, que era o motivo pelo qual os fariseus queriam condenar Jesus, pois, para eles, curar significa trabalhar, e não se trabalha no sábado.

Jesus conhece o coração daqueles homens e toca na ferida. Percebam que há uma luta constante entre os fariseus e Jesus. Essa luta não se trava por questões religiosas, mas sim de poder político, econômico e social. Os fariseus estavam preocupados em manter a estrutura, deixar que a estrutura funcione, sem abalos, sem problemas. Salvar o judaísmo de aventureiros e quem quer que seja que tente derrubá-lo. Mesmo que, para isso, tenham que transgredir a lei de Deus e tirar a vida de alguém inocente. A tensão, naquele sábado, na sinagoga, era entre quem interpretava a lei e quem a vivia de fato. O que é correto? Fazer o bem ou o mal? A pergunta de Jesus revela que o mal não é praticado apenas na ação, mas também na omissão. Omissos provocam o mal tanto quanto quem o pratica. Ora, o que é fazer o bem, se não promover a vida e combater o mal? Os fariseus interpretavam a Lei pelo viés da instituição, Jesus pelo viés do amor.

Quando Jesus pergunta aos presentes “O que a lei permite fazer no sábado? O bem ou o mal? Salvar uma vida ou destruí-la?”, ele está chamando a todos a olhar para a Lei como um meio de promoção da vida. É como se ele dissesse: “Ei, vocês, fariseus, prestem atenção, cês estão interpretando a Lei de maneira equivocada, a Lei manda fazer o bem ou o mal? Entendem, é o bem, não o mal. É o bem, não o dia” Jesus está aqui convidando o diferente a pensar fora de sua regra e ortodoxia.

Olhando para todo esse contexto, o que percebo é que muitos de nós nos tornamos como os fariseus, preocupados com a manutenção da instituição, dos valores, bons costumes, tradição e não nos atentamos para o fato de que a vida vai além disso e que Jesus combateu tais práticas e nos enviou a combater qualquer tipo de ação que não seja para promover a vida. É por isso que ele age com sabedoria, e nos convida a agir assim.

O que a lei permite fazer no sábado? O bem ou o mal? Salvar uma vida ou destruí-la?” Ao levantar tais questões, Jesus não está querendo promover um debate teológico, mas elas são tremendamente oportunas e de ordem prática. O mestre estava lidando com pessoas cultas, conhecedoras da Lei e detentoras da religião. Havia muito medo no ar. Medo de rebelião social, luta armada, morte e fim dos privilégios de todos que estavam, de alguma forma, atrelados ao poder. Esse medo fervilhava no século I, tanto que eclodiu com a revolta em 70d.C. e com a derrubada do templo. Este temor impedia que os fariseus atentassem contra sua própria interpretação da lei do sábado. Se eles respondessem, teriam que responder conforme Jesus queria, e isso seria atentar contra eles mesmos, podendo gerar um efeito em cascata até chegar ao palácio de Herodes. Não dava para responder. Por isso o silêncio como resposta. O silêncio é uma resposta dura demais. Até mesmo Jesus não concordou com o silêncio. Ele estava muito triste, indignado, irado. Olhou a todos ao seu redor e curou aquele homem. A atitude de Jesus acendeu um sinal de alerta. Ele ousa confrontar a interpretação oficial para praticar o que bem entende.

Sem sabedoria não se interpreta as escrituras. De que adianta saber e conhecer tudo sobre a vontade de Deus, se você age com sabedoria? O que aconteceu naquela sinagoga, no século I, acontece hoje em muitas igrejas de nosso país. Toda vez que se interpreta as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento de maneira a favorecer a vida, a oposição se levanta contra quem explica. O discurso que defende valores e tradições não é o discurso do Cristo, mas sim dos seus opositores. Não fomos chamados, resgatados, perdoados e santificados para pregar bons costumes. Como pastor, não me preocupo muito com isso, mas sim se você compreende a dimensão comunitária e ampla do amor de Deus sobre sua vida, se você deixa de lado o egoísmo de querer fazer valer as suas vontades em detrimento do amor e o fazer o bem, não importando a quem.

Interpretar exige sabedoria. Aprendamos com Jesus. Ele olha primeiro para a vida, depois para a instituição. Ele não parece preocupado em cumprir aquilo que os fariseus consideram primordial, mas cumpre aquilo que Deus determina como sendo essencial. O amor ao próximo, a preservação da vida, a integração do ser humano enquanto pessoa a um grupo, uma família maior que a família “de sangue”. Não pense que o Evangelho é o caminho das massas, da certeza, da preservação dos valores. Não, o Evangelho é o caminho do acolhimento. Por isso, Jesus acolhe aquele homem da mão atrofiada, mas quer acolher também os fariseus, mostrando que a interpretação da Lei se dá na perspectiva da promoção da vida, não o contrário. Você não vai à Lei para saber como viver, você vai à vida para saber como viver, e vida, para nós cristãos, tem nome: Jesus. Ele é o Senhor da vida, que nos chama para novidade de vida, para viver abundantemente. Viver se aprende vivendo, no caso, ao lado de Jesus.

Acontece que as pessoas pensam que viver ao lado de Jesus é uma caminhada solitária, mas não. Jesus nos chama para uma caminhada em grupo. É no comunitário que nossa fé é vivida e alimentada. Não existe fé sem acolhimento do diferente, do enfermo, do estrangeiro, do perdido. Não se pode querer ser cristão sem acolher o diferente. Foi assim que Jesus agiu naquela sinagoga, disse ao enfermo que viesse onde todos pudessem vê-lo, não para constranger, mas para acolher aquele homem em sua enfermidade e permitir que os fariseus fossem também acolhidos. Só que a reação dos fariseus foi contrária. Quem caminha nos caminhos do poder, quando encontra a graça e o amor, ou cai de joelhos arrependido, ou sai correndo procurando uma maneira de se livrar do que encontrou.

A maneira como acolhemos o diferente diz muito a respeito de nossa fé. Se nossa fé está centrada em nós mesmos, na preservação de nossos costumes e métodos, dificilmente o diferente será bem-visto e bem quisto por nós. No entanto, se nossa fé está centrada em Jesus, nossa caminhada será para acolher o que pensa diferente de nós, que está na margem do que o senso comum evangélico pauta como necessário. Aliás, se há algo que precisa ser derrubado de uma vez por todas é o senso comum evangélico, por ser tal qual a prática dos fariseus do primeiro século.

O desafio para nós, cristãos, é a construção de uma vivência comunitária da fé, que acolhe a todos e todas, sem deixar ninguém de fora. Veja, não são os privilegiados, nem os “filhos de Deus”, não, são todos. Todos devem ser acolhidos como são e como estão, pois é assim que Deus me acolheu e acolheu você. Sempre que digo isso, me perguntam: mas e a transformação de vida da pessoa? Isso a gente vê no caminho, tenho muito que ser transformado, você também, o outro também, mas não nos ocupemos da transformação que achamos que precisamos, nos ocupemos da graça de Deus que acolhe a todos e todas.


¹VERMEX, Geza. Jesus e o mundo do judaísmo. Edições Loyola. São Paulo, SP. 1996. p. 20. n.8

Anarco Cristianismo

Pensamentos de um anarquista cristão em construção

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