Por favor, me ajude. Não sei se sou de Esquerda ou de Direita.

“…as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando. Não temos ainda uma visão de longo prazo, e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão, uma é substituída por outra, as manchetes de hoje amanhã já caducam, e as próximas manchetes apagam as antigas da memória…”

Zygmunt Bauman


Atenção: este texto pode conter ironia.


A criança se vê pela primeira vez refletida no olhar da mãe.

São os olhos da mãe que dão nascimento ao ser.

Depois que a gente cresce, seguimos precisando dos outros, pelo menos em parte, para entender quem somos.

“Será que sou um cara firmeza ou um puta mala sem alça?”

Tem que observar como as pessoas te tratam.

Você é repetidamente tratado como um cara firmeza ou como um mala sem alça?

Ou descobrir o que andam falando de você.


Aí você abre o FB, ou o Twitz, ou o Whazap, e vê lá:

— Esquerdista!

— Tucanalha!

— Petralha!

— Comunista!

— Fascista!

— Esquerdopata!

— Reaça!

— Coxinha!

— Esquerda Caviar!

— Direita Mortadela!

— Militonto!

Quando estão mais calmas, as pessoas também usam outros termos: liberal, conservador, socialista, anarquista, marxista, republicano, democrata.

Uns são de Esquerda; outros de Direita. Tem os moderados. E os Ultra.

Eu não me reconheço em nada disso. Não me encaixo. Não sei…

Mas as pessoas parecem lançar etiquetas com tamanha convicção, que devem saber muito bem do que estão falando.

Então, se você tem o hábito de usar essas palavras , talvez possa me ajudar.


Praticamente todos os meus amigos do colégio se tornaram advogados, médicos, engenheiros e administradores de empresas.

Eu não ouvi meus pais. Fui estudar Humanas em uma instituição pública.

(Me fodi: agora alimento dois filhos e tenho que tirar leite de pedra).

Estudei Psicologia, Psicanálise, Filosofia, Antropologia e Pedagogia.

Para os meus amigos, sofri doutrinação marxista e virei petista. Eles olham para mim e vêem o Fidel Castro.

E tem mais.

Saca aquele almoço de domingo ou a festa de Natal em família? Para essa galera, minha família, sou o próprio Che Guevara.

Por outro lado, quando fui visitar uma escola ocupada aqui de Sorocaba, em uma dessas comunidades onde polícia não entra, ouvi de um dos adolescentes:

“Aê, tio, carro de patrão, hein?”

Ou você é trabalhador, ou é patrão.

E, lembrando agora, na faculdade de Psicologia, muitos dos meus colegas me viam como burguesinho, filhinho de papai.

Tô confuso.


Essa coisa de política ficou séria. Hoje, onde você vai, te cobram uma posição.

De que lado você está? Será que é um deles?

Nunca sei se é melhor atacar o PT ou defender o PT. Ser sincero, irônico ou bater com a testa na prateleira e pedir licença para ir ao pronto-socorro.

Difícil ser o outro.

Afinal, na briga de torcidas, quem não está conosco só pode estar contra nós.

Então, preciso saber o que responder: será que sou de Esquerda, de Direita, de Centro, Norte, Sul, Leste ou Oeste?

Vou falar um pouco sobre mim e o que penso, para ajudar você a me ajudar, ok? Por favor, não desista agora. Estou contando com você.

Vamos lá:

  1. Nunca votei no Maluf
  2. Votei no Collor (mas eu era jovem e inocente)
  3. Votei no Lula e achei que a esperança venceu o medo
  4. Não votei no Lula (para o segundo mandato)
  5. Não confio no Lula
  6. Por outro lado, acho que o Lula obteve conquistas sociais sem precedentes na história do Brasil, sobretudo quanto à diminuição da fome e da miséria — na diminuição da desigualdade social
  7. E acho que o Lula é o inimigo número 1 da Mídia de massas no BraZil
  8. Acho que o FHC contribuiu (embora não como protagonista) para a estabilidade econômica do país
  9. Nunca votei no FHC
  10. Não confio no FHC
  11. Nunca votei na Dilma
  12. Acho a Dilma antipática, arrogante, incompetente e desarticulada
  13. Acho que a Dilma só foi eleita, em primeiro lugar, porque era o Pitta do Lula
  14. Quando a Dilma fala, eu sinto vergonha
  15. Acho o governo petista da Dilma o mais esquizofrênico da história do país
  16. Sou contra o impeachment nas condições atuais
  17. Acho o PT indefensável
  18. Acho Aécio pior
  19. No primeiro turno, votei na Luciana Genro
  20. Simpatizo com a Marina, mas acho que ela tem contradições difíceis de engolir
  21. Achei a campanha petista contra a Marina, quando ela tinha alguma chance de ir ao segundo turno, violenta, desonesta e escrota
  22. No segundo turno, recusei-me a votar em ambos os candidatos (Dilma ou Aécio): anulei meu voto
  23. Acho o PMDB o partido mais podre do país
  24. Tenho vergonha profunda da Marta Suplicy. Chego a sentir dó
  25. Acho o Cunha um sociopata
  26. Acho o Bolsonaro um psicopata
  27. Jean Wyllys me representa
  28. Acho o Feliciano um personagem de ficção. Não pode ser real
  29. Acho Silas Malafaia um bufão
  30. Votei no Haddad (mas só para evitar um Serra ou um Russomano)
  31. Acho o Serra muito feio
  32. Acho que o Russomano se fodeu
  33. Acho as propostas de Haddad para sp visionárias e corajosas
  34. Acho o Alckmin um fascista de fala mansa
  35. Apoio as manifestações populares contra aumento de tarifas e as ocupações das escolas públicas
  36. Acho inacreditáveis as repressões a manifestações populares e o cerceamento de direitos civis sob o governo Dilma
  37. Sou a favor da desmilitarização da PM — inclusive para a preservar os policiais do treinamento e do cotidiano brutais
  38. Direitos Humanos não são coisa da Esquerda. São o fundamento do pacto social (que abrange todo o espectro político) que torna a convivência em sociedade possível — e separa a civilização de um desmoronamento para a barbárie
  39. Sou a favor da igualdade de gênero e de políticas públicas de empoderamento e proteção das minorias
  40. Acho o Brasil um país de herança autoritária, coronelista, e profundamente racista
  41. Acho inaceitáveis crimes contra pessoas que têm cor da pele, orientação sexual ou crenças religiosas diferentes das nossas
  42. Acho que pior do que a ameaça comunista é a ameaça dos malucos cujo fetiche é nos defender da ameaça comunista
  43. Defender a volta da ditadura militar é crime contra a democracia
  44. Acho a mídia comercial de massas, o Quarto Poder, tão podre quanto os outros três
  45. Acho que a Globo, a Folha e o Estadão têm um lado muito claro e são exímios manipuladores
  46. Veja não é revista; é incubadora de discurso de ódio
  47. Não acho que a corrupção no Brasil começou com Lula
  48. Fico indignado com a indignação seletiva
  49. Acho que o PSDB é (pelo menos) tão corrupto quanto o PT
  50. Acho o PT indefensável (já falei isso?)
  51. Acho os tucanos muito hábeis em engavetar e silenciar denúncias
  52. Acho que os tucanos fazem uma oposição extremamente incompetente
  53. Acho vergonhoso com a história do partido que o PSDB tenha acolhido sob seu manto, de maneira covarde, dissimulada e sobretudo oportunista, representantes da direita mais retrógrada e autoritária em nome de um vale-tudo pelo Poder
  54. Acho que nunca se combateu tanto a corrupção quanto neste governo da Dilma
  55. Acho que a Dilma abraçaria o capeta em pessoa a fim de se manter no Poder (afinal, Sarney, Maluf e Edir Macedo o PT já abraçou)
  56. Acho que governabilidade de c* é rola
  57. Acho o Olavo de Carvalho um paranoia delirante
  58. Não sei se sinto mais pena, vergonha ou desprezo pelos Olavetes do mundo
  59. Acho que existe financiamento econômico e o dedo pesado de Think Tanks americanos em posições estratégicas para a disseminação de uma agenda conservadora no nosso país
  60. O Papa argentino, o Dalai Lama e o Mujica são meus heróis
  61. Donald Trump debandou pro lado negro da Força
  62. Não acredito no Estado — que passou a ser usado exclusivamente para a perpetuação do Poder
  63. Não acredito nas grandes corporações — que só falam a linguagem do lucro, antes e acima de tudo
  64. Meritocracia e Mão Invisível do Mercado, no Brasil real das desigualdades gritantes, são piadas de mau gosto — de gente cínica, iludida ou ignorante
  65. Acho que a concentração de renda atual e a promiscuidade entre Poder Político e Poder Econômico transformam a ideia de Democracia em conversa ideológica mole para boi dormir
  66. Sou contra o financiamento privado de campanhas
  67. Sou visceralmente contrário à redução da maioridade penal e à revogação do estatuto do desarmamento
  68. Acho que não utilizamos suficientemente um dos instrumentos políticos mais poderosos à nossa mão: o boicote econômico contra empresas, produtos e serviços
  69. Acho que o modo de vida capitalista está destruindo as condições que tornam possível a existência humana no planeta
  70. Sou a favor do empreendedorismo e da livre-iniciativa
  71. Acho que o que dá alguma legitimidade ao Estado é a proteção dos mais fracos e a promoção de bem-estar e justiça social
  72. Acho que o sistema financeiro internacional é uma loucura coletiva e que quem manda mesmo nessa porra toda são os Bancos
  73. Bancos privatizam os lucros e socializam, por meio de governos, os prejuízos
  74. Não tenho muito respeito por quem não reconhece os próprios privilégios e só se manifesta politicamente com o objetivo de perpetuar e ampliar os próprios privilégios
  75. Tenho um carro turbo, moro em condomínio e uso iPhone
  76. Acho perfeitamente legítimo lutar por justiça social motivado por empatia com quem vive em condições precárias sem precisar abdicar seja das minhas conquistas pessoais, seja das vantagens que a vida burguesa me proporciona — e não vejo aí hipocrisia ou contradição
  77. Acho que a democracia representativa fracassou de vez; não adianta trocarmos engrenagens individuais (partidos e candidatos) — é a máquina como um todo que está podre
  78. Acho que quem realmente manda nessa porra toda (os patrocinadores dos políticos) adora ver a gente se estapeando no Fla-Flu partidário. Deve ser tipo assistir briga de formigas — do conforto do sofá
  79. A crise brasileira — e mundial — é fabricada. São convenções. O dinheiro está aí. Os meios de produção estão aí. Os trabalhadores estão aí. Temos tudo de que precisamos. O problema é que tá tudo distribuído segundo uma lógica que torna a coisa impossível. A máquina está toda programada para produzir um nível insustentável de concentração de renda (e poder). A crise é, na verdade, de narrativas
  80. A Terra produz o suficiente para alimentar três planetas com a mesma população. Uma em cada nove pessoas na Terra passa fome. Como a gente vive com isso?
  81. Em suma: nem Capitalismo, nem Comunismo. Nem Direita, nem Esquerda. Nem o Estado nem o Mercado irão nos salvar. Eles funcionam inerentemente para nos devorar. Não há solução para essa porra toda no interior do mesmo paradigma em que os problemas foram gerados e agravados. É justamente essa mentalidade — do velho paradigma — que nos aprisiona. A gente precisa mudar a narrativa e encontrar uma nova linguagem para descrever as complexidades do mundo atual e agir a partir disso
  82. Como na passagem da Idade Média para a Civilização Industrial (e conforme a citação de Bauman em epígrafe), vivemos uma transição de limiar para um novo paradigma, em que a tecnologia permite ao cidadão comum atuar em redes de colaboração sem a mediação de instituições. 
    O jogo de forças tende a se reequilibrar conforme os cidadãos comuns apoiem-se mutuamente em projetos e parcerias, dependendo menos de empregos, governos e corporações (que detinham o monopólio dos meios de produção e distribuição) para viver como acham que devem viver
  83. Pensar, sentir e atuar a partir do novo paradigma é nossa melhor chance (possivelmente a única) de sobrevivência
  84. Agora pense na importância do tipo de Educação que nossas crianças andam recebendo — um modelo organizado para formar seres humanos para encarar os desafios do século 19

Taí um panorama geral do meu pensamento ‘político’ atual. Deve ser suficiente.

Então, diante das evidências que compartilhei, o que você acha?

  • sou Petista enrustido, como acreditam meus amigos do colégio?
  • sou Esquerda Caviar, como acharia o blogueiro demitido da Veja?
  • sou Burguês, como sugeriu o adolescente da comunidade dominada pelo tráfico?

Por favor, use o espaço de Respostas, aqui embaixo, e me diga qual lhe parece ser minha verdadeira identidade política.

Você vai me ajudar a ter o que falar na próxima vez que todo mundo estiver olhando para mim em silêncio, com aquela cara enrugada, garfos e facas em punho, só esperando por uma resposta.


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