o menino e a senhora

sem saída

Ontem fui no prédio onde passei a minha infância. Onde meu quarto se transformava diariamente num novo castelo e os tacos de madeira do chão eram lavas fervendo. Passei por lá sem querer, sem ter planejado nem nada. Aí já foi suficiente pra dar um ar mais dramático pra um dos nossos acasos diários. As memórias iam sendo resgatadas daquela gaveta grande e bagunçada. O grande sentimento disso tudo foi a sensação de que tudo diminuiu. Nada mais normal pra quem via tudo da altura da cintura do pai, não alcançava o interfone e fazia de todo degrau de cada um dos 3 lances de escada um imenso desafio.

Talvez uma outra mudança de perspectiva tenha sido ainda mais forte que essa. Pisei na mesma calçada de tempos atrás e vi ressurgir aquele capitão que observava a imensidão do mar lá fora completamente inexplorado. Aquele comandante que, ainda de dentro do seu navio ancorado na segurança da sua ilha, imaginava o que o outro lado da rua ou o prédio ao lado ou o fim da rua ou aquela rua ainda mais longe no horizonte poderiam oferecer. Anos depois, o navio desancorou e avançou. Saiu pro mar, foi e deu várias voltas por ai. Viu muita coisa. Muito tropeço, erro, acerto, riso, descobertas, dores e amores. De tanto andar, acabou se deixando levar pelas curvas infinitas da Terra que o trouxeram de volta pra mesma redondeza de anos atrás. Daquele íntimo ponto de vista conseguiu entender alguns recados que o mar já estava tentando dar, mas que não estavam engarrafados nadando por aí; estavam espalhados no ar, para serem lidos só quando fosse a hora certa.


Na verdade, essa história começa antes. A bênção do não saber, o prazer pelo desconhecido já tinha aparecido horas antes, mas ainda não estava pronto pra se abrir de verdade e assim mostrar a sua dimensão.


Ontem, logo antes de passar pelo tal prédio, tinha acabado de sair do meu retorno a uma aula de pandeiro. A primeira experiência, há um bom tempo, tinha me ensinado o básico pra enganar um surdo distraído. O tempo passou e mostrou que era hora de voltar e aperfeiçoar o que eu nunca tinha aprendido direito.

Cheguei pra desenferrujar as platinelas da falta de prática e encontrei um curso pra iniciante, curto e intensivo. Ao entrar na sala antes mesmo do professor, respirei fundo e me preparei como um ator que aguarda o abrir das cortinas e o iluminar dos refletores amarelos e quentes no rosto. Queria dar uma impressionada. Aquela armadilha de não querer ser iniciante bateu na porta. Quando a outra aluna chegou e se apresentou, automaticamente senti a armadilha ainda pior. Extremamente poderosa. Senti arrepiando a minha pele e a do pandeiro. Era pra ser bonito, ritmado e caprichado, tinha que ser. Fui dominado e deixado sem reação contra aquela força que me obrigava a me mostrar melhor que a minha colega de turma: Cecília, carioca, baixinha, cabelos curtos e sorriso fácil. Cecília, carioca, baixinha, passos lentos pelo tempo, cabelos curtos e grisalhos e um sorriso fácil de quem acabou de deixar a Tia Nastácia fazendo bolinho de chuva pros netos. Cecília era uma senhora que nunca tinha batucado um pandeiro na vida. Assim que o professor abriu a porta, um estalo me trouxe daquela hipnose terrível que me fazia escravo da perfeição, mesmo em algo que eu sabia que não era bom. Consegui superar os longos segundos de cegueira provocada pela tal armadilha, voltei e aí comecei a ver a beleza daquilo tudo.

Depois de uma hora de aula, acabei melhorando alguns movimentos. Depois da mesma uma hora de aula, acabamos todos comemorando as primeiras vezes que Cecilia acompanhou no pandeiro um choro lento que saia do amplificador. Uma sensação, uma beleza que fez ainda mais sentido depois, na calçada em frente ao antigo prédio.


Cecília driblou o tempo. Continuou criança e mostrou que o não saber é uma benção. Saber que não se sabe é o exato último instante antes do conhecimento. É coragem, humildade e liberdade. É frio na barriga e vertigem. Cecília foi uma aula à parte, que se completou no reencontro com aquele moleque que amava o desconhecido e não ligava pra quem já era o sabichão dos sete mares. Eles dois, o capitão moleque de um navio e Cecília, caminham juntos e inseparáveis pelas calçadas antigas de prédios lotados de memórias e de quartos vazios preparados para receber novidades. Depois de ver os dois juntos, só o que resta é saltar do precipício, livre de todo falso conhecimento que vive a solta por aí. A mania de achar que sabe de tudo só atrapalha esse voo. Cada certeza vazia dispensada é um fôlego a mais nessa caminhada, dando mais leveza e velocidade e assim nos deixando mais perto deles dois. Quem sabe assim não consigo alcança-los?


Amanhã tem mais aula.


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