Sua Linha do Amor Acaba Aqui

Um conto

Alonso não se sentiu bem ao entrar na barraca com temas circenses. O cheiro de incenso o enjoava, em um misto de canela e lavanda. O aroma trazia lembranças de um passado complicado que ele não queria revisitar.

Um dos gatos — eram três — parecia com aquele que arranhou sua perna no susto de um trovão. Mais uma memória surgia no pouco espaço de sua mente.

O rapaz de turbante azul com estrelas de papel laminado estava sentado em uma poltrona vermelha. A cadeira do visitante era de ferro, daquelas de boteco, com uma longa colcha de retalhos jogada sobre ela. As pontas do tecido eram acinzentadas, em uma repugnante mistura de terra, asfalto e pelos felinos.

O que se parecia com uma barraca era, na verdade, quatro ripas de madeira suportando um teto de compensado, sujo e úmido, que por sua vez carregavam outros pedaços de madeira cobertos pelo toldo vermelho e dourado. De fora, parecia uma grande barraca. Por dentro, era um pequeno barraco, um cubículo.

Cubículo este que surgia em seu cérebro. Ele se lembrou do primeiro, do quartinho pequeno em Tóquio, das lâmpadas Neon que não o deixavam dormir. O incenso o lembrava do segundo, o surfista, e como sexo na praia é insuportável. O gato era do terceiro, ou quarto. Tanto faz, todos se tornaram passado.

“Venha”, disse o rapaz, com um forte sotaque, de Salvador ou Recife. Dois lugares em que Alonso já esteve. Memórias, lembranças, recordações, tudo naquele lugar era familiar. Algumas delas traziam momentos de prazer, alegria e excitação. Todas terminavam em dor. Alonso sentou-se na cadeira e aceitou o convite do vidente, que estendia suas mãos em direção às dele.

“Já estou te sentindo”, disse o rapaz. “É sempre ele, né? Nunca teve nada na sua vida mais interessante?” Alonso não entendia como o rapaz fazia aquilo mas sabia que era verdade. Tinha que ser verdade, afinal, ele estava pagando para que aquilo fosse real.

“Você acredita em Deus? Pois Deus não acredita em você”, falou o menino. “A vida roda em círculos concêntricos que nunca se encontram, já pensou nisso?”. Alonso não entendia as metáforas mas franzia a testa como se captasse cada palavra. Pena que o rapaz sabia ler rugas tão bem quanto lia mãos.

“Seu marido é um zero à esquerda. Essa coisa que vocês tem não é nada, acredite”. As mãos do vidente sentiam cada vinco e ranhura nas mãos de Alonso. “Não sei como isso começou, só sei que já está acabando”. Alonso arregalou os olhos. O rapaz, que virou seu rosto para ele pela primeira vez, sorriu e continuou seu discurso. “O que, está surpreso? Surpreso estou eu em te ver com esse homem. Veja, sua linha do amor acaba aqui”.

Enquanto o dedo indicador do rapaz tocava uma das várias linhas da mão direita de Alonso, os outros dedos roçavam lentamente em seu pulso que, por sua vez, acelerava. O rapaz teve um deja-vu, ou seria uma memória real? Ele se recordou que muitos momentos dolorosos começaram com carícias como aquelas.

“Você parece tenso”, disse o rapaz. “Parece infeliz. Se arrepende dos caminhos que tomou? Se arrepende de ter deixado as coisas para trás? Ninguém gosta de lembranças incompletas, sempre na ponta da língua mas nunca da boca pra fora.” Ele se levantou e deu a volta na pequena mesa redonda no centro do cubículo. Vestia uma camisa surrada e calças jeans relaxadas, além do turbante. “Você precisa se deixar levar, esquecer um pouco das experiências ruins. Deixar com que as coisas aconteçam”, continuou o rapaz. Alonso não falava, só escutava e se mantinha concentrado. Ele bem sabia que aquela situação se parecia com a do incenso, do gato, a do cubículo, aquela de copacabana e, claro, a do camping com os amigos. Todas elas começavam assim, de repente.

O vidente chegou ao seu lado e colocou a mão em seu ombro. “Seu problema não é astral, é material”. Levou a mão para a nuca de Alonso. “Você precisa se libertar das amarras dos amores passados.” Levou o rosto para mais perto e sussurrou. “Só há um jeito de resolver o seu problema. Dizem que só um novo amor cura outro”.

O beijo não foi longo. Alonso afastou o vidente e correu para fora da barraca, sem olhar para trás. Ignorou os gritos do rapaz, os faróis vermelhos e sua vontade de voltar, arrancar aquele turbante idiota e se perder em seus cabelos loiros. Sim, ele sabia que eram loiros.

Alonso não havia se sentido bem ao entrar na barraca de temas circenses e a culpa não era do incenso, dos gatos ou do cubículo. A culpa se revelou no beijo, que Alonso já conhecia.