As ideias-elementos da Sociologia

Sociologia

NISBET, Robert. La formación del pensamiento sociológico. Capítulo 1.

Para entender o pensamento sociológico, adotam-se os enfoques voltados aos pensadores, aos sistemas e às ideias-elementos. Quanto às suas origens, analisa-se o contexto ideológico, principalmente no que toca as influências do liberalismo, do radicalismo e do conservadorismo, sendo este último presente até mesmo nas obras de Durkheim, notoriamente moderno. Além do contexto, analisam-se também as fontes do pensamento, que na sociologia surgem muito mais da filosofia moral e da arte que do método científico, com a perspectiva da imaginação sobrepujando o lógico e o empírico.

Ideias e antíteses

A história do pensamento costuma ser abordada de duas maneiras. A primeira é um enfoque nos pensadores que geraram sua bibliografia. Enquanto seja imprescindível adotá-lo para entender forças motivadoras e contextos pessoais, este método transforma-se facilmente numa mera biografia do pensamento, com as ideias reduzidas a prolongações de certos indivíduos. Perdemos de vista a continuidade e relação das ideias quando focamos nas vidas daqueles que as pensaram.

A segunda maneira dirige-se não às pessoas mas aos sistemas, os “ismos”. Não Bentham ou Mill, mas o utilitarismo; não Marx ou Proudhon, mas o socialismo. Indubitavelmente, a história do pensamento é a história dos sistemas nos quais as ideias se cristalizam. No entanto, estes sistemas acabam sendo tomados como irredutíveis ao invés do que realmente são: constelações de suposições e ideias, que podem reagrupar-se em sistemas diferentes. Mesmo aqueles que já são ultrapassados contam com elementos que ainda hoje estão em vigência, mesmo que de outra forma.

Isto nos leva a um terceiro enfoque, das ideias, geradas pelos homens e agrupadas nos sistemas. Enxergando os elementos constitutivos, isto é, as ideias-elementos, apreciamos afinidades e oposições entre homens e sistemas as quais do contrário nunca imaginaríamos existir.

Quais são as ideias-elementos essenciais da sociologia, que a distinguem frente às outras ciências sociais? Segundo o autor, são cinco: comunidade, autoridade, status, sagrado e alienação.

A comunidade abarca os laços sociais como a religião, o trabalho, a família e a cultura. A autoridade é a ordem interna de uma associação, seja religiosa, política ou cultural, que recebe legitimidade por sua função social. O status é o posto de um indivíduo nas hierarquias de prestígio que caracterizam comunidades e associações. O sagrado é dos costumes, tudo não-racional cuja valoração transcende sua utilidade. Finalmente, a alienação é uma perspectiva histórica na qual o homem se torna alienado quando são cortados os laços que o unem à comunidade e aos propósitos morais.

Cada uma destas ideias se associa a um conceito antinômico, a sua antítese. Oposta à ideia de comunidade está a de sociedade, dos vínculos de grande escala, impessoais e contratuais que se multiplicam na modernidade às custas da comunidade. A antinomia da autoridade é o poder, da força militar e burocracia administrativa surgidas diretamente de uma função social. O antônimo de status é a ideia de classe, e o do sagrado é o utilitário, o secular. Por fim, a alienação é uma inversão do progresso.

Estas ideias e suas antíteses são temas do pensamento do século XIX, das quais nascem a tradição sociológica.

A rebelião contra o individualismo

É evidente que estas ideias e antíteses não apareceram pela primeira vez durante o século XIX. Platão tinha profundo interesse na comunidade, na alienação, na hierarquia e na geração e degeneração social, e não é exagero dizer que os elementos essenciais do pensamento social do Ocidente aparecem primeiro em suas ideias e na resposta de Aristóteles.
 
Apesar de atemporais e universais, também estas ideias têm períodos de ascensão e de obscuridade. Houve épocas em que sua significação foi escassa, como na Idade da Razão, dos séculos XVII e XVIII, cujo racionalismo individualista era sintetizado na razão, no progresso, na natureza e no contrato. A começo do século XIX, reagem o comunalismo contra o individualismo, o não-racional contra o puramente racional, com uma reorientação do pensamento europeu constituído pelas ideias centrais já mencionadas (comunidade, etc). Em lugar da ordem natural tão cara à Idade da Razão, temos agora a ordem institucional —da comunidade, do parentesco, da classe social— como ponto de partida para filósofos sociais de opiniões tão divergentes como Marx e Tocqueville. A própria ideia de progresso sofre nova definição, fundada não sobre a liberação do homem da tradição mas sim sobre uma espécie de anseio por novas formas de comunidade social e moral.

Liberalismo, radicalismo, conservadorismo

Esta reorientação do pensamento social não é resultado de correntes puramente intelectuais ou científicas da época. No pensamento político e social, é preciso que as ideias de cada época sejam vistas como respostas a certas crises a estímulos procedentes de grandes mudanças na ordem social. Essas ideias seriam incompreensíveis a menos que analisadas em função dos contextos ideológicos da época em que apareceram. Os grandes sociólogos do século XIX foram arrastados pela corrente de três grandes ideologias: o liberalismo, o radicalismo e o conservadorismo.

O liberalismo se destaca por sua devoção ao indivíduo. A autonomia individual é para o liberal o que a tradição é para o conservador, e o que uso do poder significa para o radical. Aceita a estrutura fundamental do Estado e da economia, não considerando a revolução base indispensável para a liberdade, e tem a convicção de que o progresso reside na emancipação da mente e do espírito humano dos laços religiosos e tradicionais que os uniam á velha ordem. Conservam a fé do iluminismo na natureza autossuficiente da individualidade, quando libertada das bragas das instituições corruptoras. Sua pedra de toque é a liberdade individual, não a ordem social. As instituições e tradições são secundárias ao indivíduo, obstáculos que se opõem à sua autoafirmação.

Já o radicalismo tem como elemento distintivo a fé nas possibilidades de redenção que oferece o poder político: coloca a esperança da Europa e da humanidade não na religião, mas na força política da sociedade. Não atua o poder por si mesmo, mas sim a serviço da liberação racionalista e humanitária do homem das tiranias e desigualdades que lho acossaram durante milênios.

Finalmente, se o liberalismo se baseia na emancipação individual e o radicalismo na expansão do poder político a serviço do fervor social e moral, o conservadorismo se funda na tradição, principalmente na tradição medieval. De sua defesa da tradição social provém sua insistência nos valores da hierarquia, da autoridade e da religião, assim como suas premonições de um caos social se os indivíduos forem arrancados destes valores pelas forças das outras duas ideologias. Podemos conceber o conservadorismo moderno como um primeiro grande ataque contra o modernismo e seus elementos políticos, econômicos e culturais, com a sociedade medieval proporcionando uma base de comparação.

Ideologia e sociologia

O paradoxo da sociologia reside em que enquanto seus objetivos e valores políticos e científicos a colocam como parte da corrente central do modernismo, seus conceitos essenciais e perspectivas implícitas estão, em geral, muito mais próximas do conservadorismo filosófico. A comunidade, a autoridade, a tradição, o sacro: estes temas foram preocupações de conservadores, assim como os pressentimentos de alienação como consequência do poder totalitário que haveria de surgir da democracia das massas e da decadência cultural.

As fontes da imaginação sociológica

As grandes ideias das ciências sociais tem invariavelmente suas raízes em aspirações morais. Por mais abstratas que sejam, por mais neutras que pareçam aos teóricos, nunca se despojam destas origens. Os grandes sociólogos jamais deixaram de ser filósofos morais.

São também, no entanto, artistas. Em nossa época, as ciências sociais se apoiam demasiadamente naquilo que é científico — e por conseguinte importante — em sua disciplina, colocando a razão a serviço da definição e solução de problemas. Ninguém se atreveria dizer que a concepção weberiana da racionalização e a ideia de anomia de Durkheim provém do que hoje entendemos por análise lógico-empírica. A ideia de sociedade e do homem subjacente no grande estudo de Durkheim acerca do suicídio se trata, fundamentalmente, da perspectiva de um artista, não de um homem de ciência.