Desinência, caso, declinação e verbo

Introdução ao Latim Jurídico

Além das variações de gênero e número, o latim conta com as declinações, que indicam a função sintática da palavra na oração de acordo com o caso, que altera a desinência. Os verbos não se declinam, mas se conjugam.

Desinências

Desinência é a terminação da palavra, a sua última sílaba. Quando a palavra é declinável, esta terminação se altera de acordo com a função sintática desempenhada na oração, seja pela palavra em si ou pelo termo com o qual ela concorda, como é o caso dos adjetivos.

Poeta dat rosam puellae: o poeta dá a rosa à menina.

Na frase acima temos três desinências: -a, -am e -ae. A partir delas, identificamos que “poeta” é o sujeito, “rosam” é o objeto indireto e “puellae” o objeto indireto.

Isto é significante pois o latim não funciona como o português, em que a posição das palavras na oração determina sua função sintática, vide “O poeta dá a rosa à menina” e “A menina dá a rosa ao poeta”. Poeta dat rosam puellae e puellae dat rosam poeta têm a mesma tradução. Assim, é essencial examinar as desinências e identificá-las com seus respectivos casos.

Casos

As formas que a palavra pode assumir variam de acordo com a função, o caso, que ela exerce na frase. São seis os casos latinos:

Nominativo é o caso correspondente ao “nome” da palavra; isto é, à sua declinação no dicionário. Declinamos no caso nominativo o sujeito da oração, que é a parte da oração sobre a qual o restante se refere, e o predicativo do sujeito, que atribui ao sujeito uma qualidade. Na frase puella est pulchra, “puella” é o sujeito e “pulchra” a qualidade que lhe é atribuída via o verbo. Utilizando um exemplo em português, “a menina feliz penteia-se” e “a menina penteia-se feliz” têm significados diferentes, já que no segundo caso ela se torna feliz ao se pentear — isto é, através da ação que o verbo descreve. Assim, o primeiro “feliz” é um adjunto adnominal, enquanto o segundo é um predicativo do sujeito.

Vocativo é utilizado aqui no mesmo sentido do vocativo da gramática portuguesa: como chamamento. Na frase Puella, es pulchra, chama-se a garota por meio da palavra “puella”, que é então declinada segundo o caso vocativo.

Acusativo é o caso do objeto direto, o elemento que sofre a ação verbal. Identifica-se este objeto pelas perguntas quê? ou quem?, como no exemplo amo puellam. Quem se ama? A garota.

Genitivo é o caso similar ao possessivo (‘s) do inglês, indicando complemento restritivo. Rigo rosam puellae: o que se rega? A rosa — objeto direto. Qual rosa? A da garota. Restringe-se assim o objeto, não se referindo o locutor a qualquer rosa mas apenas à rosa em questão.

Dativo é o objeto ou complemento indireto de atribuição, atribuindo (dando) algo a alguém ou a outra coisa, suprimindo preposições. Do rosam puellae traduziria-se em português para “dou a rosa à menina”; assim, atribui-se a rosa à menina, declinando-se “puella” no caso dativo.

Ablativo, por fim, é o caso correspondente aos adjuntos adverbiais e advérbios, reunindo em si toda forma adverbial: instrumento, lugar, origem, modo, causa. No exemplo, puella ornat mensa rosa, a menina orna a mesa. Como? Com uma rosa. Casos ablativos podem também ser traduzidos com o sufixo -mente: ideo sunt natura agricolae fica “por isso são naturalmente agricultores”.

Declinações

Há cinco declinações no latim, que aplicam-se a diferentes grupos de palavras. Dentro de cada declinação temos seis casos e dentro de cada caso, duas desinências, uma para a palavra no plural e outra no singular. Ou seja: são sessenta declinações ao todo!

Identificamos a declinação correta para a palavra de acordo com seu genitivo singular, que aparece após a vírgula no dicionário: amīcus,i utiliza a segunda declinação. Observa-se que certos substantivos não têm a forma singular e são enunciados pelo dicionário no nominativo e genitivo plural, como feriae,arum.

Nos exemplos da lição acima usamos a primeira declinação, que veremos adiante.

Verbos

Assim como as palavras têm suas declinações enunciadas pelo dicionário, também os verbos têm suas conjugações informadas pela primeira pessoa do presente do indicativo seguida da segunda pessoa do mesmo tempo e, depois, do infinitivo, como no verbo amo,as,are (“amare”). Identifica-se a conjugação pelo infinito, sendo o -are em questão pertencente à primeira.

Observa-se que o latim não costuma usar pronomes, dadas as suas desinências muito regulares; eles aparecem apenas para ênfase. Assim, pode-se dizer que é imperador com a frase imperator sum, mas dá-se maior ênfase e intensidade dizendo que ego sum imperator. Além disso, sequer haviam as formas de terceira pessoa. Assim, são pronomes: