O amigo do homem

bertany pascoal
Sep 6, 2018 · 4 min read

Geraldo Romão chegou no bar do Seu Vento quando os homens solitários começavam a encher o ambiente. Sentou frente ao balcão e pediu o infalível antídoto das suas amarguras.

-Traz aí uma meiota de sapupara limão, que é pra arte entrar, e o tira-gosto que vocês tiver aí.

Seu vento respondeu que hoje o tiragosto era manga, manga de camisa. Geraldo era desses homens que, quando falava de mulheres, virava um pavão, e espumava pela boca o orgulho de ter namorado 834 mulheres antes dos 21 anos, e só ter desistido da contagem porque um vigário moribundo o tinha dito que aquilo era um pecado capital.

Pegou o celular e ligou para seu melhor amigo, Julião Facada.

-Ei, macho, chega aqui no Vento, bora conversar, tenho um negócio pra te dizer.

-Pera aí, macho, só terminar a novela das sete, hoje o cara vai descobrir a traição maior do mundo.

Sempre foram amigos, mas tinham se tornado quase irmãos depois que Geraldo trouxe esposa de Facada pra casa, na garupa de sua bicicleta, em uma meia-noite chuvosa, depois dela ter ficado para limpar a paróquia nos festejos de Nossa Senhora de Fátima. Julião era famoso por ter matado oito homens em uma mesma noite, de faca, tudo porque, em um jogo de baralho, eles lhe chamaram de burro por não saber a diferença do 6 para o 9.

Facada chegou na sua bicicleta que parecia do tempo que jesus andou na terra, e já foi logo com suas frescuras,

-Fala, ‘severgoin’ namorador, cadê o meu burrin, já pediu?

-Senta aí, macho, quero uns conselho de amigo mermo, você é meu e o boi não lambe. Cadê o vento? Vento, traz uma dose e aquela farofada de Peba aí!!!.

Geraldo Romão tinha sido o namorador da cidade que se dizia orgulhoso por nunca ter perdido uma noite de sono por amor, e agora via seu trunfo se perder.

-Macho, me meti numa bucha.

-Que bucha, macho?

-É esses namoro meu aí, fui fisgado dentro do coração. Mulher muito casada.

Facada arreganhou os dentes podres em uma gargalhada que parecia a do diabo, e depois se recompôs em um assentimento de cabeça e pondo uma mão no ombro do amigo, dizendo:

-Ei, você é o cara. Mas macho, a mulher tem marido, tu pode seguir tua vida. E mais, esse negócio de mulher dos outro é bucha mesmo viu, um dia desse ouvi duma briga de dois velhos depois de descobrirem que um traiu o outro, e diz aí: os dois morreram de cansaço do coração, deu nem tempo apartarem.

O dono do bar chegou com a cachaça empalhada e com a cuia entupida de farofa, deixando tudo no balcão, fazendo um estrondo de garfo e de prato; teve farelo se espalhando pra todo lado, entrando até no olho do gato que ficava abaixo das cadeiras mendigando migalhas. Facada, homem sempre gozador, vendo o estado de embriaguez desenfreada do Seu Vento, disse.

- Arriégua, Vento, tu já tá desse jeito, home, porque tu não muda o nome do bar pra ‘Se sobrar eu vendo?

Então, os amigos começaram os comes e bebes, com Geraldo comedido com suas doses, abençoado pela arte de beber a noite toda sem nunca se embriagar, e Julião se desafogando na farofa, se entalando todo, e usando goles surreais de cachaça pura para desentupir a garganta.

Com menos de uma hora de conversa vai, desconversa vem, Facada já se via simpaticamente melado, enquanto Geraldo mantinha sua sobriedade intocável devido a experiência adquirida por beber desde os 9 anos de idade.

-Macho, o que tu me diz, eu continuo vendo essa mulher?

-Tu tem que lutar pelo teu amor, meu patrão.

-Home, num diga isso não…

-Rapaz, é você que manda no seu coração, num é ninguém não, você é que sabe. Mas quem avisa amigo é.

-Home, se tu soubesse da história ‘umeno’ a metade…

-O que você fizer eu tô contigo; mas e a mulher, quem é? O marido dela quem é?

-Tu acha que eu vou te dizer aqui no Vento? Tu é doido? Aqui, os copos avisam tudo pras paredes.

-Rapaz, se é pra lhe ver feliz, resolva logo, eu só não sei como.

-Se um vagabundo quisesse levar a dorinha embora, tu dizia o quê pra ele fazer? Em meio aos mais gaguejados risos, Facada segredou:

-Rapaz, se um doido quisesse levar a minha mulher, eu dizia pra ele pegar ela e desabar pra qualquer canto, botar ela na garupa duma moto e desabar no meio do mundo. Ela vive dizendo que quer morar em fortaleza, num suporta mais aqui, aí dava certin. Se um doido quisesse, eu dizia só isso: leva! Hahahaha.

-Eu já num sei o que fazer, macho. Pense num negócio ruim é gostar da mulher dos outro, nunca caia nessa besteira.

Nesse momento, Amado Batista começou a tocar no volume máximo nas caixas do bar decrépito, e foi uma festa de homens levantando seus copos e dizendo que essa dose era por elas, pelas mulheres que maltrataram seus corações no passado.

Facada se despediu:

-Macho, qualquer coisa eu tô aqui, mas cuidado com essas bucha aí. Resolve isso aí logo macho, se liga. Valeu.

Quando Facada pegou a bicicleta e cambaleou pela rua, Geraldo disse ao Vento, que olhava pra ele com um olhar morto,

-Vento, eu tô doido de amor.

O velho lhe disse que não, que estava mesmo era demente.

-Tô nem aí, o que importa é que o mundo agora é muito melhor. Tá me ouvindo?

Vento não ouvira a resposta, já dormia apoiando o braço no balcão.

Geraldo saiu do bar disposto a tudo pra tentar viver com Dorinha, lhe daria até a ideia de fugirem dali, mesmo que essa tentativa pudesse lhe transformar em mais um número estatístico na famosa peixeira maldita de Julião.

Fortaleza, 03.09.2018

anot@sonhos

desenhando palavras, tecendo o tempo (https://twitter.com/anotasonhos)

bertany pascoal

Written by

pacifista radical. ateu não-praticante.

anot@sonhos

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