O que é Pós-verdade, afinal?
“Post-Truth: Relating to or denoting circumstances in which objective facts are less influential in shaping public opinion than appeals to emotion and personal belief.” (Oxford, 2016)
Anualmente, a universidade de Oxford elege uma nova palavra como “A palavra do ano”, sendo inserida em seu famoso dicionário; a de 2016 se chama Pós-verdade.
O termo, já conhecido em décadas anteriores, ganhou projeção mundial após eventos como a candidatura e eleição de Donald Trump à Presidência dos EUA, e o referendo sobre o Brexit, no Reino Unido.
Em ambos os casos, a circulação massiva de mentiras nas redes sociais teve papel essencial na tomada de decisões por parte da população.
Segundo o dicionário citado, a expressão denota circunstâncias em que a objetividade dos fatos tem menos influência do que os apelos emocionais na formação da opinião pública.

O fenômeno, que é de caráter mundial e pode ser facilmente ser percebido no Brasil (principalmente com políticos e eleitores de extrema-direita), coloca o jornalismo contemporâneo, principalmente o digital, em um campo de batalha contra as famosas Fake News.
A prática tem ligação direta com a nova forma de consumo de informações, que, agora, são majoritariamente consumidas por meio das redes sociais, lugar onde cada indivíduo pode ser tanto um consumidor quanto um criador de conteúdo.
Notícias falsas e emoções em detrimento da razão podem não serem fatos novos no âmbito da comunicação humana.
Porém, somente agora, com informações sendo vizualizadas em volume cada vez maior por meio do Facebook, Twitter e Whatsapp, os boatos e mentiras conseguiram o poder de moldar facilmente a opinião publica, circulando em ambientes onde não há um filtro onde se diferencie o que é fato do que é mentira.
Aqui no Brasil, já vemos que a Pós-Verdade é uma realidade certamente assustadora.
A Pós-verdade “faz casa” onde os algoritmos nos criam bolhas, ou os chamados Filtros Bolha (O filtro Invisível, Eli Pariser, 2011), onde a visão do usuário da rede social fica limitada à apenas aquilo a fatos e opiniões que se assemelham a suas convicções pessoais, perdendo o contato com diferentes opiniões e fontes de informação.
A Pós-Verdade se fortalece no momento que os veículos jornalísticos tradicionais perdem espaço como fonte imprescindível de informações.

Tendo em vista todos esse fatores, o jornalismo contemporâneo se vê com o dever de combater, aberta e declaradamente, as práticas de noticiamento tendencioso feito por parte de veículos e perfis digitais que têm o único intuito de manipular a população.
Se a função do jornalismo sempre há sido a de distinguir o fato daquilo que não o é, ele se vê agora na função de fazê-lo de maneira mais rigorosa e intensa: garantindo pluralidade de fontes e a transparência, checando a veracidade dos fatos circulados em tempo-real (ver Agência Lupa; e Fato ou Fake: G1 e O Globo), dando maior ênfase ao jornalismo de análise especializada, e sendo o mais plural possível.
A relação da democracia com o jornalismo tem se mostrado ser intrínseca, e em eras perigosas como essa, onde emoções e polarizações acirradas são alimentadas por fatos irreais, o jornalismo tem a chance de retomar o papel essencial de formador de uma sociedade mais crítica e bem informada.
O que é ‘Pós-verdade’, a palavra do ano (2016) segundo Oxford. Jornal Nexo
O jornal digital Nexo traz uma análise resumida e objetiva do que é Pós-Verdade e de como ela trabalhou nos casos Trump e Brexit, além de elucidar como o Facebook vem tentado combatê-la. Um ótimo texto introdutório ao tema.
O jornalismo na era da Pós-Verdade. Revista Época
Nesse artigo de opinião, o jornalista Hélio Gurovitz cria reflexões filosóficas sobre o hábito de tentar “passar por cima da verdade”, enumerando momentos anteriores onde foi possível identificar esse intuito.
Segundo Hélio, nesse momento, “a certeza predomina sobre os fatos, o visceral sobre o racional, o engenhosamente simples pelo honestamente complexo”.
Para ele, a Pós-Verdade pode ser considerada um fruto da Pós-Modernidade, onde, segundo um dos seus maiores teóricos, Jean François Lyotard, (Ver A condição Pós-Moderna), “não há fatos, apenas interpretações”. Segundo Hélio, se quiser sobreviver, o jornalismo deve buscar mudanças.
O artigo traz questões pertinentes em tempos de um mundo cada vez mais digital e em rede, ficamos com uma forte reflexão ao ler: “Onde a tecnologia se tornou o Hardware, a Pós-Verdade se tornou o Software”.
Pós-verdade, transparência e personalização na internet. Movimento
As redes sociais se tornaram espaço ideal para semear o preconceito, superstição, dogmatismo e, consequentemente, o fanatismo. Nesse artigo, a revista Movimento faz uma reflexão ética sobre a Web 2.0, e sobre os filtros bolha, fenômeno constante nas redes sociais. O filósofo espanhol José Maria Aguera, autor do artigo, afirma: “Como aqueles prisioneiros da caverna platônica, crentes de que a realidade se reduzia às sombras que se projetavam em sua parede, o homo internauta seria também ignorante sobre sua ignorância. Esse é, em suma, o cenário perfeito para que se instale o reino da pós-verdade”. Para ele, o trabalho em procura da maior proximidade da verdade é uma tarefa coletiva, apresentada permanentemente no contraste com a realidade e no diálogo com os outros que não pensam como si, ou seja: com cada vez mais informações plurais e que consigam quebrar esse filtro que serve como barreira da diversidade de pontos de vista.
In a world of Fake News, real journalism must be paid for. The Guardian
O presidente e CEO do The New York Times, Mark Thompson, afirma que o jornalismo transparente e de qualidade é vital para a democracia e, se não passar a ser um serviço pago, pode desaparecer na sua maior parte, deixando o caminho livre para boatos estapafúrdios se espalharem e moldarem as opiniões.
Para Thompson, a guerra não é entre Esquerda nem Direita, mas sim entre os fatos e mentiras.
“So we find ourselves in a battle, not between left and right, nor elites and ‘ordinary’ people, nor between traditional and digital media, but between facts and lies.”
Humans are a Post-Truth species. The Guardian
Agora um pouco de história e antropologia; uma opinião mais alargada sobre o assunto. O escritor israelense Yuval Noah Harari — autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus — afirma, em seu novo livro, 21 lições para o século 21, que para vivermos em uma era de Pós-verdade, seria necessário primeiro ter existido uma era de Verdade.
Ele nos pergunta: quando foi? Décadas atrás? Anos atrás? Yuval faz uma radiografia das ficções em detrimento da realidade, e afirma que somos uma espécie que traz a Pós-verdade consigo.
Para o israelita, histórias falsas levam vantagem sobre a verdade quando se referem a unir populações, e exemplos não faltam.
“In fact, humans have always lived in the age of post-truth. Homo sapiens is a post-truth species, whose power depends on creating and believing fictions.”
O escritor também afirma que para consumir notícias confiáveis é necessário pagar por elas, pois, senão, nós podemos ser o produto.
Além do jornalismo tradicional, Harari conta que é necessário outro olhar ao conhecimento científico e a livros de autores com respaldo sobre os assuntos tratados, devendo ser mais consumidos e difundidos. Como fica claro, Harari tem uma forte visão iluminista sobre o assunto.
A crise do jornalismo na era da Pós-verdade. Opção
A reportagem do Jornal Opção aborda qual deve ser o papel do jornalista quando notícias superficiais, ou falsas, tomam conta das redes sociais. Para os pesquisadores entrevistados, é hora de uma reinvenção do jornalismo.
Segundo um debate trazido pela reportagem, o crédito entregue as notícias falsas e o descrédito às verdadeiras, se dá, em boa parte, por uma inabilidade do jornalismo tradicional se adaptar a uma era em que todos são emissores, onde a fonte ocupa o lugar da mídia.
O texto, que é rico em fontes e perspectivas, abordada possíveis caminhos a trilhar nesse decisivo momento no mundo da informação.
Leituras complementares:
- Pós-verdade, Pós-política, Pós-imprensa — Estadão
- Art of the lie — Post-Truth politics — The Economist
- A arte de manipular milhões — El País
- Jornalismo é a principal arma à Pós-verdade — ANJ
Debate sobre o tema no programa Sem Censura, da Tv Brasil:
Barack Obama é o fundador do Estado islâmico; Lulinha é dono da Friboi; uma doutrina ameaça entrar nas escolas para ensinar as crianças que “Homem e mulher é errado”.
Não vai nos faltar exemplos de boatos — que ultrapassam o ridículo — tentando(e muitas vezes conseguindo) ludibriar a visão de milhões de usuários de redes sociais.
A ideia animadora de que todos — agora munidos do poder de informar — pudessem contribuir de uma maneira proveitosa tanto para uma melhor convivência quanto para uma melhor democracia, parece ir por água abaixo com a disseminação de fatos irreais, que apelam às emoções e reforçam convicções pessoais, e que parecem ter considerável sucesso em seu intuito.
A Pós-Verdade parece ser um acontecimento que não é novo e pode seguir em frente, o que reforça ainda mais a necessidade de um jornalismo engajado, ético, e presente cada vez mais no dia-a-dia dos internautas.
E nesse embate, o jornalismo contemporâneo não está nem um pouco disposto a entregar os pontos.

