A decisão de matar

A decisão de matar meu próprio cachorro não tem paralelo em minha vida. Dois dias depois de receber a dose química que faria seu coração parar, eu ainda me pergunto se fiz a escolha certa. Então revejo esses 20 segundos acima, da última noite que passamos juntos. Um cão que sempre pesou 8 kg, pesava então quase metade disso. As costelas salientes como se estivesse desnutrido. E de certa forma estava, não comia havia 2 dias, não bebia água havia 1. Apático, sem reação alguma, respirando fundo, esperando a morte chegar. Então eu sei que fiz a coisa certa. Mas como dói. Mas como dói.

Klein morreu de um início de falência múltipla de órgãos, como consequência de uma infecção urinária crônica obtida pela sequela deixada pela paralisia — ele não conseguia mais fazer xixi sozinho por vontade própria e, com isso, mesmo com minha ajuda constante, a urina acumulada em um cão de movimentos limitados em uma raça suscetível a esse tipo de infecção —, tudo isso criou ambiente favorável para a proliferação de bactérias.

Ao longo de dois anos, poucas vezes me lembro de não estar tratando esse tipo de infecção. Em seu último exame de cultura bacteriana — aquele em que a urina é deixada em repouso para criar bactérias com o intuito de testar agentes antibióticos — , o resultado foi desolador. A variedade de antibióticos foi tamanha que seu organismo criou resistência a todas as medicações existentes no mercado.

Não havia mais tratamento. A infecção causaria, cedo ou tarde, a falência dos rins que, no momento de sua morte, eram duas bolotas inchadas, pelo menos com o dobro do tamanho normal. E o que eu vi (e com o que convivi) nas últimas duas semanas de sua vida foi o que mostram as imagens abaixo. Klein não produzia mais urina. Havia apenas sangue.

Desde que o Klein se tornou paraplégico, muitas pessoas, incluindo amigos próximos, sugeriram que eu o sacrificasse. Ao longo de dois anos ouvi isso nos mais diferentes momentos, das mais diferentes fontes. Ainda que a motivação de todos sempre tenha sido a melhor possível, minha sensibilidade e conexão com meu cachorro nunca me deixaram fazer essa escolha porque tudo me dizia que não era a hora. Ele queria viver!

Entretanto, um dia, duas semanas atrás, cheguei em casa e, como de costume, fui direto ao quarto encontrar com o Klein. Ele não estava sobre o colchão, tinha se arrastado cerca de 10 metros até ficar num canto, atrás do vaso sanitário do banheiro. Ao ver a cena, eu me lembrei de todos os documentários já assistidos sobre animais sociais e como, em face da morte, a atitude de todos eles é o isolamento. Quando entendem que não podem mais viver, tudo o que querem é esperar a morte em silêncio, em plena aquiescência solitária, parte natural da vida.

Demorei duas semanas para tomar a decisão. Ela só veio horas antes da minha festa de aniversário, na noite de 18 de fevereiro passado, ao receber uma mensagem do Roberto, marido de minha mãe, o ser humano mais humano que conheço. Disse ele:

Querido André, sei que o tempo do Klein está se esgotando, então não há a possibilidade de um feliz aniversário. Vi a foto dele no seu mural. É de agora? Peço-lhe que o ajude a deixar esta vida . Eu já tive que fazê-lo com a Trufa, anos atrás. Nós humanos soltamos as amarras que nos prendem a esta existência procurando o paraíso, a paz, o descanso e "morremos". Os animais se prendem a esta vida por que aqui está tudo o que amam. Ajude ele a partir estando você do seu lado. Estou lhe pedindo em lágrimas. Eu amo esse bichinho e você mais ainda. Ele já não tem o que nos dar, ja não tem o que viver. Tem um céu para eles, com certeza. Então ofereçamos a nossa dor pelo seu descanso. Um apertado abraço.

Foi então que eu entendi que a eutanásia é o sacrifício final que podemos fazer por alguém que verdadeiramente amamos. Minha dor — essa dor que tem jeito de eterna — pelo seu descanso, meu pequeno.

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