Um cão e a depressão

Havia três coisas que deixavam meu cachorro ligado em alta voltagem: o som o interfone e as palavras comida e passear. As três coisas que o Klein mais amava nesse mundo — muito além de qualquer amor por mim, era gente chegando em casa, a hora da comida e a hora do passeio.

É por isso que quando fiz a imagem acima eu sabia que ele não estava bem. Eu havia acordado e como de costume, me arrumei para sair com ele. O ritual de vestir a roupa, colocar um tênis, por si só já o faria ficar às voltas comigo na expectativa de sairmos. Mas naquele dia ele simplesmente não saiu de sua casinha vermelha e cinza. Depois, abri a porta do apartamento e gritei pra dentro "Klein, vamos PASSEAR?" E não houve nenhuma resposta. Ele continuava lá, deitado, em silêncio, sem reação.

Corri para o veterinário, sem saber o que estava acontecendo. Fizeram exames e nada. Então o quê? O veterinário me perguntou se ocorrera alguma alteração na rotina do cachorro ou na minha. Na dele, nenhuma. Na minha, bem, eu estava deprimido após um término traumático de relacionamento. E foi ali, pela primeira vez, que ouvi um veterinário falar sobre a possibilidade dos animais, altamente sensíveis, manifestarem sinais das patologias humanas quando em contato íntimos com pessoas. Inicialmente, achei aquilo uma besteira esotérica. Porém, o Klein não melhorava. E eu entendi que o veterinário tinha razão.


Minha mãe, Ita, seu marido, Roberto, e Klein levando uma vida de glamour, longe da minha depressão.

Pela segunda e última vez, Klein foi morar com minha mãe para que ele voltasse a viver bem e eu, ainda que cheio de culpa, pudesse me recuperar. Ao todo, ele esteve sob cuidados dela durante 2 anos. Em todos os outros 10, Klein conviveu com minha depressão crônica, e com 3 das 4 crises agudas que sofri na vida. A primeira delas criou o ambiente emocional que me faria comprá-lo (não adotei, e essa é apenas outra das merdas que a carência faz).

E se é verdade que eu o enviei para minha mãe cuidar porque o vi padecendo do mesmo mal, é também verdade que na maior parte do tempo foi ele quem me me fez bem, especialmente em meio às 3 crises com as quais ele conviveu — a primeira em 2010; a segunda em 2012; e a terceira em 2015, ao longo de seus últimos meses de vida.

A maneira como ele me trazia à luz do escuro da minha depressão nada tem a ver, mais uma vez, com esoterismo barato. Tem a ver com algo muito mais simples, poderoso e real. Tem a ver com disciplina. Todas as pessoas que sofrem de depressão conhecem bem os sinais de entrada em uma crise — a quebra de rotinas e comportamentos saudáveis, a perda da constância em todos os afazeres da vida, uma procrastinação insuportável, a falta de propósito em todas as coisas. E é aí que o Klein (e eu acredito que qualquer cachorro) faz a diferença. Ele exigia de mim manter alguma disciplina porque a rotina é a coisa mais importante para um cão. Levantar da cama e ir passear com ele duas vezes ao dia, por si só, mantinha um movimento em meio à vida inerte. Os ciclos de comida, água, e atenção — tudo isso ocupava a mente com um afazer prático, que não requer elocubrações, nem abre espaço para a escuridão. E em muito, ao longo desses anos todos, Klein foi meu remédio coadjuvante às medicações clássicas e abordagem holísticas.

Quando ele se tornou paraplégico, essa rotina mudaria completamente. Ela se tornaria muito mais complexa e trabalhosa, cansativa e em muitos momentos, torturante. Mas sinto que ainda não é hora de falar sobre esse tempo. Em breve. Em breve.

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