Peppa Pig e a lição de “Dona Coelha”, um exemplo da vida precarizada

André Lobão
Nov 7 · 3 min read
Reprodução de vídeo da série

O universo de “Peppa Pig”, série de desenho animado inglesa, que vai ao ar no Brasil no Netflix e Discovery Kids, uma produção direcionada ao público infantil em fase pré-escolar mostra com muita propriedade com se dá a nova relação capital e trabalho neste século de tecnologias e voracidade do capital sobre as pessoas.

Neste quesito, o que chama atenção é o personagem “Dona Coelha”. Nos vários episódios que são produzidos desde 2004, a “Dona Coelha” surge representando o papel atual da mulher que sofre cada vez mais com a precarização no mercado de trabalho.

Nos episódios “Dona Coelha” surge como balconista de supermercado, piloto de helicóptero de resgate, motorista de ônibus escolar, enfermeira, vendedora de loja, bombeiro, vende sorvetes e souvenires no parque florestal. A personagem é caracterizada como uma trabalhadora dócil e sempre disposta, pronta sempre para atender a qualquer chamado.

O Brasil de “Dona Coelha”

A dúvida que fica é se seus os autores da série infantil, Neville Astley e Mark Baker, têm a intenção de criticar a triste realidade da precarização da mulher no mercado de trabalho nos dias atuais, ou então de glamourizar a exploração do capital como fazem a maioria dos veículos de comunicação do Brasil que tratam empreendedores no Brasil como desempregados de grife. Quem não já assistiu reportagens no Jornal Nacional com pessoas, a maioria mulheres, felizes vendendo marmitas nas ruas, em seus carros?

Mas o universo da “Dona Coelha” é bem real, como podemos observar a partir de uma análise da Faculdade de Campinas (Facamp) sobre dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-c), apesar de a taxa de desocupação entre mulheres ter recuado 0,1 ponto percentual, a subocupação e a informalização cresceram.

“A taxa de subocupação para mulheres subiu de 8,2% para 8,9%. O número, 8,7 pontos percentuais maior do que a dos homens, registrou um aumento considerável, atingindo quase 30% da força de trabalho ampliada das mulheres. Embora a taxa de desocupação tenha diminuído, a de subocupação por insuficiência de horas trabalhadas e a de mulheres desalentadas se elevaram”, afirma a economista e professora da Facamp Daniela Salomão Gorayeb, ao jornal Destak, em reportagem de junho de 2019.

Subutilização da força de trabalho

As mulheres são a maioria da força de trabalho subutilizada, sendo 52,4% da população em idade ativa. Além disto, elas são maioria das pessoas fora da força de trabalho potencial (65,5%) e das pessoas indisponíveis para o trabalho (66,2%). No total de subutilização, que alcançou 28,3 milhões de pessoas no primeiro trimestre, as mulheres compuseram 54,5% — e tiveram rendimentos menores, equivalente a 81% das remunerações dos homens.

Trabalho intermitente

Por fim, a sensação passada por “Dona Coelha” é que ela vive a nova e abusiva realidade do trabalho intermitente em que trabalhadores são submetidos à alternância de períodos de prestação de serviços e de inatividade, determinados em horas, dias ou meses, independentemente do tipo de atividade do empregado e do empregador, com salários reduzidos pagos por hora trabalhada. Vale lembrar que desde de 2017, essa modalidade de trabalho no Brasil é reconhecida, quando de sua regulamentação a partir da reforma Trabalhista aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada por Michel Temer.

Conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia, até julho deste ano, foram criadas somente 101,6 mil vagas na modalidade de trabalho intermitente. Esse número de postos de trabalho representa 15,4% do total de vagas criadas no período no país (660.390). Isso representa uma em cada seis vagas criadas foi para a modalidade de contrato intermitente.

Assim, “Peppa Pig” na subjetividade de seus personagens, do mundo do desenho infantil, mostra de forma doce e inocente o processo de exploração do precariado, principalmente, das mulheres que obviamente precisam trabalhar e alcançar um futuro melhor como a “Dona Coelha”.

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Apenas um jornalista antineoliberal, anticapitalista e brasileiro, acima de tudo.

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