O meu primeiro contato com o Alzheimer

Um acontecimento inesperado que levou a uma reflexão sobre a finitude da vida e a nossa relação com vizinhos.

Era sábado, 21 de Janeiro de 2017.

O Bruno tinha dormido em casa no dia anterior. Íamos passar o fim de semana trabalhando no Antility com a Vanessa.

Acordei cedo para comprar coisas para o café da manhã na padaria do lado de casa. Dificilmente faço isso, mas pela visita era importante.

Ao abrir o elevador no 11° andar, tinha uma senhora. Ela parecia desorientada. Dei bom dia. Ela perguntou qual andar era aquele. Falei que era o 11 e perguntei se estava tudo bem. Ela disse que tinha acabado de se mudar e ainda estava um pouco perdida. Percebi que os botões dos andares 2, 3, 8 e 9 estavam apertados também.

Perguntei se ela não lembrava mais ou menos o andar. Qual era o tapete que ela tinha na porta. Tentei ajudá-la a lembrar, mas não adiantou. Num estalo entre as pausas pelos andares e essas pequenas conversas interrompidas ela mencionou o 5. Apertei o botão e parei com ela nele. Fiquei na porta esperando ela entrar no apartamento. Ela não conseguia colocar a chave. Veio me chamar.

Nesse mesmo instante, o porteiro interfonou pelo elevador. A senhora começou a me chamar completamente aflita para eu ir abrir a porta. Pedi calma e falei que estava indo. Ela começou a bater na porta, chamando pelo marido. Mesmo sem ainda ter certeza de qual era o apartamento dela.

O porteiro perguntou qual andar eu estava e confirmou que ela morava no 54. Fui abrir a porta e dei de cara com o marido. Ele agradeceu. Me apresentei, disse que se precisasse de algo, poderia me chamar no 113.

Ao fechar a porta, o marido soltou: você só dá trabalho, hein?

Continuei descendo até o térreo e parei para conversar com a portaria. Ela me contou que a senhora tem Alzheimer. Vive ‘fugindo’ para encontrar pessoas pra conversar. As vezes joga coisas pela janela. A filha sempre está viajando e achou que a melhor opção era deixar os pais no apartamento deles.

Fui no caminho de meia quadra até a padaria pensando em muitas questões. Estamos com o movimento #ReflexosDaIdade no Antility que é sobre longevidade. Qual a chance daquela senhora me encontrar e eu estar de alguma forma conectado a este universo, sendo que dificilmente saio pra ir a padaria? E se esse prédio tivesse muito mais apartamentos por andares, não tivesse monitoramento de câmera e nem portaria, como poderia ajudar essa senhora a encontrar sua casa de volta? E se fosse na rua? Existe um número pro qual eu posso ligar? Esse é um caso com um vizinho, mas quão distantes achamos que estamos de situações assim, inclusive na nossa família? Um amigo próximo? E se o que vamos lembrar já não é mais uma opção de escolha? Por que ninguém está falando sobre envelhecer? Estão negando essa fase da vida porque ela pode ser dura demais?

Tudo isso continuou na minha cabeça e só algumas semanas depois tive a oportunidade de encontrar algumas respostas participando de um Grupo de Apoio Sobre a Doença de Alzheimer promovido pela ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer) junto da CORA. Aprendi um pouco sobre isso, mas tem um bocado pela frente e eles certamente são os que mais estão preparados para falar sobre.

Eu fico aflito só de imaginar como essa pessoa poderia se encontrar lá fora, sendo que de alguma forma ela está perdida por dentro.


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