O que aprendi ao fotografar idosos por um ano

Saber conviver com a finitude é entender que o dia-a-dia precisa ser intenso e amoroso sempre. Envelhecer não é fácil, mas viver o agora é parte importante para deixar a jornada mais leve.

Dan Magatti
Jul 20, 2018 · 9 min read
Milton, um sobrevivente do Holocausto. Obrigado por dividir seu sorriso e história comigo — Casa Ondina Lobo

O começo da jornada

Passar um ano fotografando idosos em residenciais trouxe muitos aprendizados. Refletir nos fez querer dividir para que isso possa nos ajudar a envelhecer, a cuidar melhor uns dos outros e de quem já vive a longevidade nos seus dias.

Em 2017 mergulhamos com o Antility no tema da longevidade. No começo, a gente não sabia exatamente como mergulhar, mas sabíamos que mergulhar era preciso.

O mergulho começou a partir de conversas profundas com as terapeutas ocupacionais dos residenciais. Elas foram essenciais para colocar a expectativa em um lugar que não deixaria a frustração tomar conta e impedir que o trabalho avançasse.

“Idoso não é fofo. Muitos podem ter sido pais exemplares, mas alguns podem ter sido péssimos. Você vai conhecer eles a partir do momento presente, não a partir do que eles foram. É com esse presente que vamos viver e conviver sem deixar que os julgamentos ocupem o espaço dele.”

Nas primeiras visitas eu ficava andando de um lado pro outro, muito por me sentir deslocado em um espaço que acreditava estar invadindo. As vezes parava, encostava em um canto e só observava como a vida acontecia ali. E como existe vida acontecendo ali.

A rotina é algo que ajuda a dar ritmo aos dias, para que eles simplesmente não sigam somente um atrás do outro a espera de um fim. Cada dia é um dia. Vai existir aqueles em que a vontade de sair do quarto logo ao acordar é grande, mas também vai ter aquele que o frio intensificou as dores e você não vai suportar ninguém passando se quer na frente da sua porta. Tomar café, almoçar, tomar lanche da tarde e jantar são como guias que ajudam a preencher os dias quando você tem todo o tempo do mundo. Esses momentos de preenchimento são eventos de conexão e convivência para um não isolamento e para dar mais propósito aos dias que parecem vazios.

Depois de algumas visitas e me sentindo mais parte do espaço, passei a sempre escolher uma mesa num canto mais discreto e a menos disputada. Sim, existe disputa de mesas. Tem quem senta em qualquer lugar. Tem quem briga por lugar. E isso não poderia ser mais humano. O conflito é uma tensão que nos ensina muito sobre conviver e como ocupar o nosso tempo.

Eu me acostumei a sentar em uma mesa bem perto da porta. Sempre a mesma. As vezes deixava a câmera em cima dela, abria o caderno e começava a escrever sobre aquele presente. Não demorava muito para as pessoas se aproximarem. A primeira foi a Maria Aparecida, ou Cida — 77 anos, cabelo cor de prata e sempre sorridente. Ela se aproximou e perguntou se podia sentar e começar uma conversa. Logo nos primeiros minutos de conversa ela soltou um “Eita, lasqueira”. E isso sempre se repetia quando algo a surpreendia. Neste caso, a surpresa foi ela poder dividir a mesa comigo.

Um tempo depois, o Luís se aproximou e perguntou se podia se juntar a nós. Ele tinha acabado de voltar da fisioterapia e parecia ter disposição de sobra. Ele já se sentia à vontade, mesmo não tendo muita empatia com a Cida. Logo de cara perguntou o porquê da minha barba. Disse que detestou e que era muito feia. Eu rapidamente — pensando que precisava agradar — disse que ia fazer na próxima vez que fosse estar por lá. Ele perguntou porquê de novo e já emendou que era eu que tinha que gostar, ele só estava falando a opinião dele. A segunda vez que o vi — e não tinha feito a barba — ele me chamou de Fidel Castro. Considerei aquilo como uma (r) evolução na nossa relação.

As relações da comunidade acontecem ao entorno dessas atividades comuns da rotina e mesmo que exista uma comunidade vivendo ali, existe muita solidão dentro de cada um. Por mais que todos ocupam o mesmo ambiente, muitos estão vivendo somente dentro de si. A solidão deixa de existir quando colocamos a nossa atenção no momento presente. Isso abre espaço o suficiente para que os movimentos aconteçam ali no agora. Essas relações vão além do verbal nas conversas, elas acontecem com contatos pelo braço, pelos ombros, pelas mãos. Isso é muito sobre confiar, andar junto, no mesmo tempo e sem pressa.

Sentimentos como tristeza e alegria também permeiam as relações, quase como que pegando-os pelo braço. Eles são vívidos e intensos. É quando talvez temos mais tempo para ser humanos, mas com menos filtro e sem ter algo que equilibre o meio do caminho.

Demorei um bom tempo até conseguir fazer uma foto que pudesse retratar todos esses momentos. As fotos tornam os momentos em eventos. Eles querem e precisam se arrumar. Isso nos conta muito sobre sensibilidade e auto-estima. Toda vez era preciso anunciar antes para que pudessem ter tempo suficiente antes da foto. Depois de um tempo, os pedidos começaram a vir deles. Principalmente quando estavam caminhando pelo jardim ou fazendo refeições. Era sempre bom poder olhar para o todo e somente ouvir o som de um pássaro. Ou então sentir o vento tirar as folhas da sua permanência. A vida no presente sempre está acontecendo em diferentes camadas, o tempo todo e as vezes só deixamos ela passar.

“Quem não se mexe, endurece. Quem endurece, envelhece.” — uma residente do Ondina Lobo

Uma história de elevador

Teve um momento que me teletransportou instantaneamente de uma realidade para outra num piscar de olhos.

Indo de um andar para o outro, entrando e saindo do elevador, dona Eugênia entrou no segundo andar e ia seguir para o térreo com a gente. Estava descendo para almoçar. Vestia uma camisa toda florida, deixava escapar no ar um perfume de flores, tinha um sapato que parecia deixar seus passos leves, como se flutuasse enquanto andava junto de um sorriso de orelha a orelha, suficiente para mudar a luz de um lugar ao chegar nele.

A terapeuta ocupacional deu boa tarde e a gente acompanhou. Perguntou — gentilmente — por que ela estava tão arrumada e então veio uma resposta tímida, mas feliz contando que o marido dela estava vindo encontrá-la para almoçar. Ele trabalhava muito e não tinha tanto tempo assim para encontros, mas sempre que conseguia, reservava um tempo para vê-la.

Nesse momento, meu coração se inundou de ternura. Os pensamentos rapidamente navegaram para “que incrível isso, cara. Quero poder ter a chance de viver isso quando estiver velho.”

Chegamos no térreo, dona Eugênia seguiu para o restaurante e nós tínhamos mais alguns lugares para conhecer. Logo que ela se afastou, a terapeuta disse:

O marido dela não vem, ele morreu há 10 anos. Ela tem Alzheimer há 6 e por todo esse tempo, todos os dias, ela acha que vai almoçar com o marido. Quando ele não aparece, ela fica muito chateada e começa a chorar. Então entregamos uma rosa para ela, dizendo que o marido não vai conseguir vir por conta do trabalho, mas que ele pediu para entregar. Isso a acalma, até se repetir tudo de novo no outro dia.

O coração que antes estava cheio de ternura, pulou num instante para um abismo. Entender que a realidade da dona Eugênia é essa me puxou de volta dele. O amor e a ternura também está com a realidade de quem vive com ela e compartilha dessa história todos os dias. Aquele era o presente que estava sendo vivido não só por ela, mas por todos que se importam e estão a sua volta.


Os aprendizados pelo caminho

Os medos mudam com o tempo e sua intensidade também
Era umas 16h04, estava sentado no café fazendo anotações como sempre fazia quando de repente ouvi “ELE VAI CAIR. ELE VAI CAIR.” Quando levantei meus olhos, ele já estava no chão e num instante os cuidadores chegaram para ajudar a levantá-lo. Fiquei por 1 minuto sem reação. Paralisado. A dona Helena se assustou e instantaneamente ficou em prantos. Os nossos medos mudam com o tempo. A sua intensidade, também. Um tombo, por vezes, vai significar uma cirurgia, ficar em uma cadeira de rodas pelo resto dos dias. Caminhar passa a ser um cuidado que precisa ser feito com calma, sem pressa.

A solidão mora apenas dentro da gente
No fim de um ano, vejo que a vida é o que vivemos no nosso presente, que ser jovem ou velho não é o que faz a diferença. Precisamos viver olhando para dentro e pra fora, em plena atenção. Por mim e por todos. Só vamos estar sozinhos somente se permitirmos a solidão inundar o nosso coração com vazios.

O naquele tempo é sobre o tempo de quem somos hoje
Em uma das visitas, eu penso ter entendido a expressão naquele tempo ou pelo menos, parte dela. Naquele tempo é quase como um abraço de quem a gente confia. E quando a gente precisa. Naquele tempo é a conexão de um tempo certo com a nossa sensação de insatisfação de um tempo incerto. Mesmo que esse tempo seja o agora. Neste dia, eu me senti abraçado pelo tempo. Por estar onde eu queria estar. De poder abraçar — quem eu realmente podia abraçar — e de viver o tempo de hoje com quem já viveu muito o tempo de ontem. Passar os dias nos residenciais, é uma desconstrução sobre quem eu conhecia ontem, que é diferente hoje e amanhã envelheceu mais um pouco, mas que ainda não se descobriu. Dedique tempo para conhecer quem você é hoje. E quando chegar o amanhã, sentir uma saudade feliz do naquele tempo. E não uma tristeza pelo que não se viveu por desconhecer a si mesmo e o que poderia descobrir durante a jornada.

O que amamos fazer diz muito sobre quem somos
Não são as doenças que devem nos definir. É comum que a doença passe a definir quem somos, pois passamos a nos definir pelo contexto daquilo que vivemos no presente da velhice. Justamente por já não exercermos mais uma profissão, por ter os filhos, netos e bisnetos distantes, por não ter um novo hobby.

É preciso conhecer o outro pelo que ele é no presente
A gente já nasce envelhecendo. Olhamos para trás como forma de buscar o que nos é familiar, quando na verdade devemos dar a chance de conhecer o outro todos os dias. Estamos mudando sempre. Todos dias as pessoas que conhecemos ontem, são diferentes hoje. Quando ficamos velhos, somos novas pessoas. Os idosos que conheci, podem ter sido filhos, pais, avós ruins e por isso os filhos são ausentes, mas acontece que os idosos que conheci no presente, eles eram carinhosos, atenciosos e queriam apenas o nosso amor como forma de atenção e tempo.

É preciso viver por completo
Precisamos depender menos das exceções e viver de modo com que as nossas emoções não sejam escravas de picos ou abismos para nos sentirmos vivos. Não podemos sentir a vida somente nos raros e passageiros momentos de êxtase, ou nos não tão raros momentos de angústia. Esses momentos são esporádicos. Se a nossa energia valoriza apenas esses momentos, ignoramos os espaços onde a vida acontece de verdade. A maior parte do tempo que estamos vivos é cotidiano. Viva, então, as nuances da vida. Ouça mais quem você ama. Ouça mesmo, de forma que você faça parte da vida do outro, dividindo-se com ele. Aproveite cada conversa e aprecie o presente de poder navegar, mesmo que brevemente, por este mundo. Caminhe pela chuva e se deixe molhar pelas lágrimas — de alegria ou tristeza. Arrisque mais. Fracasse mais. Aprenda mais. Tente de novo, mas melhor. Passe por cima do medo de arriscar antes que ele se torne um arrependimento. Não faça isso somente pelas conquistas que podem vir pelo caminho. Faça porque você valoriza o aprendizado. Faça porque você aprecia o caminho. A beleza está na jornada e não no destino final. Tenha um norte em seu mapa, mas busque alegria ao desenhar — todos os dias — novos caminhos para chegar lá.


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