Como viajar e transformar vidas

Um mergulho em Expedições para a transformação

Marina Lourenço
Aug 8, 2017 · 8 min read

Viajar: um dos verbos que mais mexem com nossa mente e que mais envolvem nossa alma. Quantas vezes você já ouviu a resposta “Viajar” quando a pergunta foi “Qual é sua paixão?”. Se seu coração é desses que vibram quando você pensa na sua próxima aventura e seus olhos saltam quando você ouve falar do destino dos seus sonhos, talvez esse texto seja para você. Se você quer fazer do mundo um lugar melhor, também.

Para mim, e provavelmente para você, viajar é um ato de desprendimento, coragem, abertura, contentamento e troca. É se revelar ao novo, é se colocar em uma posição vulnerável diante do desconhecido, é buscar aquela sensação da criança que vive tudo pela primeira vez, é desabrochar. E diante de uma ação tão grandiosa, que gera tanta transformação na gente e no outro, se tem algo que nos toca tanto quanto (ou ainda mais) que viajar, esse algo é a busca constante pelo impacto positivo produzido pelas nossas ações, na gente e no mundo.

Muitos chamam isso de fazer a diferença; alguns são mais ambiciosos e dizem que querem mudar o mundo; outros se intitulam changemakers, ou fazedores de mudanças. Independente da expressão, o que vale mesmo é o movimento. É ter o desejo e ser capaz de transformar o mundo, seja ele nossa própria casa, seja ele um planeta inteiro.

Turismo com causa

Sempre fui dessas que respondia viajar. Rodei mais de uma dezena de países constatando que eu saía transformada de cada vilarejo em que visitava e cada cultura que eu vivenciava. A cada dia, uma Marina um pouco mais sabida e muito mais tolerante. Quando entrei na casa dos 20 (países e anos), comecei a perceber que a transformação que viagens me traziam na verdade sobrepujava meu eu. Mudar o interior e o exterior caminham juntos. E vendo em todos esses países tantas situações injustas, muitas vezes revoltantes, passei a enxergar o turismo como uma engrenagem de transformação social.

O que podemos chamar de turismo com causa ou turismo consciente hoje se manifesta em diversas vertentes. Há o ecoturismo, que tem sua origem em patrimônios naturais e fomenta a educação ambiental; o turismo de base comunitária, com iniciativas desenvolvidas e protagonizadas pelos próprios membros de comunidades; ou o volunturismo, que une trabalho voluntário a viagens. Todos eles têm um enorme potencial para a proteção ambiental, a geração de renda e a solução de problemas comunitários, ao mesmo tempo que todos, quando analisados a fundo, precisam ser desenvolvidos com um forte olhar para os possíveis efeitos colaterais negativos.

SWEDOW: Stuff We Don’t Want

O universo do desenvolvimento social, não apenas no turismo mas em qualquer área de atuação, vive esse impasse diariamente: muita gente querendo fazer o bem e muita gente não sabendo ao certo como. A ajuda humanitária muitas vezes é desenvolvida diante dos olhares de quem doa, ou quem planeja, e não de fato de quem usa. Isso faz com que as soluções aplicadas sejam ineficientes ou mesmo nem utilizadas por quem deveria.

Por exemplo, se uma comunidade está sofrendo de fome, logo imaginamos que doar xis cestas básicas por semana seja a solução — esse é o caminho mais prático e fácil, correto? Porém, não analisamos a situação a fundo para entender porque aquelas pessoas estão passando fome. Talvez elas já têm cestas básicas mas estão sendo estocadas de maneira errada, talvez elas não conseguem carregá-las, ou talvez o que elas precisam mesmo é de uma horta. Não dá para saber se não entendermos todo o contexto, e como nem todo mundo tem tempo ou disposição para isso, optam pelo caminho mais curto. A situação é tão recorrente que criaram até um termo específico: “SWEDOW”, sigla para Stuff We Don’t Want (coisas que nós não queremos).

A falta de entendimento do contexto vem ainda com um outro agravante: problemas que não são nossos parecem muito mais fáceis de serem resolvidos. Se uma comunidade vive um desafio há diversos anos e ele não foi solucionado até hoje, muito provavelmente a solução não é tão simples como parece quando olhada de fora. Porém, por ingenuidade, ignorância ou pura preguiça, não damos esse passo além e chamamos de muito simples o que na verdade é extremamente complexo.

A sedução do exótico

Quando se trata do turismo com causa, essa questão tem ainda um terceiro agravante: há uma sedução no que está longe, no diferente e no que é exótico. O tinder mesmo está cheio de fotos de europeus brancos com crianças negras subnutridas africanas.

O problema não é a foto ou a simples busca pelo exótico, não me leve a mal. O grande problema é que subestimamos a complexidade, tanto dos problemas vividos por pessoas longe da gente, quanto da relação entre pessoas tão distintas, que pode ser extremamente proveitosa e impactante, mas que pode também ser indigna e humilhante. E então, um ato que deveria ser apenas positivo, causa mais mal do que bem.

O surgimento de uma organização de impacto

Nessa época em que descobri o turismo como engrenagem, eu morava na Tailândia e fazia um estágio em um centro de negócios sociais, quando me passaram o seguinte projeto: escolha sua maior paixão, cruze-a com negócios e desenvolva um evento para apresentar o que você descobriu. A equação eu desenvolvi logo: turismo + empreendedorismo. Os resultados eu vivo e aprimoro todos os dias desde então.

Após um ano intenso de bastante trabalho e muito estudo na Ásia, aprendendo mais sobre todos aqueles termos bonitos do universo da Inovação Social (design thinking, liderança positiva, “aprender fazendo”, facilitação, storytelling e por aí vai), a volta ao Brasil veio com a sede de realizar, e foi bem aí que essa breve história em empreendedorismo e turismo cruzou com uma organização que tem tudo para ser gigante.

Se existe uma regra para projetos sociais, essa regra é comece com o que você tem em mãos e evolua a partir daí. Se formos esperar para o momento perfeito e a modelagem de atuação ideal, pode ser que seu projeto social nunca saia do papel.

O Instituto Vivalá iniciou sua atuação como uma plataforma de voluntariado que conectava ONGs com pessoas dispostas a trabalhar voluntariamente. É uma organização sem fins lucrativos ligada a uma operadora de turismo startup de mesmo nome, a Vivalá. Por estar no meio e não necessariamente na execução, dependendo de muitos fatores externos, em pouco tempo constatou-se que o Instituto Vivalá podia ser bem mais sustentável financeiramente, mais próximo da atuação da Vivalá e, o principal, podia gerar muito mais impacto.

Foi aí que o Instituto Vivalá começou a ser redesenhado: mais do que conectar pessoas dispostas a projetos já existentes, por que não sermos o próprio projeto? Por que não nos reorganizar e fazer acontecer?

Transformação Social por meio de Capacitação Profissional: o novo Instituto Vivalá

É aqui que o turismo com causa aparece com força total. Diante de um cenário paradoxal e delicado no universo da inovação social e principalmente do volunturismo, o Instituto Vivalá modelou um projeto que tem como base a dignidade e a independência. Independência porque ensinamos a pescar: nos focamos em capacitação profissional, ou seja, formação e acesso à informação. Dignidade porque fazemos juntos: mais do que dar bens, comida, ajuda, nós optamos por construir a partir do que já existe, sempre junto da comunidade — não fazer para, fazer com.

Com esses dois conceitos latentes, desenvolvemos as Expedições: viagens compostas por grupos de pessoas, intitulados Transformadores, que são treinados para facilitar mentorias de negócios com empreendedores locais de comunidades com potencial turístico. Os empreendedores participam de treinamentos em gestão, finanças, marketing e afins, com seus negócios sendo os cases de estudo protagonistas. Dessa maneira, mais do que apenas receber conhecimento, os empreendedores têm a chance de analisar seu próprio negócio e desenvolver um plano de ação específico para suas demandas internas. Em momentos mais avançados, começamos também a olhar pro todo, ou seja, uma vez que os empreendimentos já estão mais organizados, é hora de pensar estrategicamente no contexto e nas estruturas econômicas e sociais da comunidade.

Ao mesmo tempo que realizamos a mentoria, os dias também são dedicados à imersão ecológica e cultural, realizando atividades típicas da região em questão. O trabalho de impacto se une à diversão e ao relaxamento, e as atrações turísticas trazem uma dose extra de curiosidade, novidade e contentamento.

Na prática, duas Expedições Amazônia já foram realizadas e outras estão por vir — a ideia é que sejam feitas pelo menos 4 Expedições por destino, no período de 1 ano. Além delas, o Instituto Vivalá já lançou seu segundo destino, Expedição Mata Atlântica, e em breve soltará o próximo. O objetivo é que até o início de 2018, o Instituto Vivalá já esteja desenvolvendo Expedições no Norte (Amazônia), Sudeste (Mata Atlântica), Sul e Nordeste, com destinos que serão anunciados ao longo dos próximos meses.

Desde a primeira Expedição em abril, já trabalhamos com mais de 50 Transformadores, que pagam pelo pacote da Expedição tornando a operação do Instituto Vivalá viável, e mais de 30 Empreendedores, impactando em torno de 300 moradores da comunidade. Até o fim de 2017, espera-se que as Expedições tenham recebido mais de 100 Transformadores e mais de 80 Empreendedores, que irão expandir a transformação para além de seus próprios negócios, atingindo toda a comunidade a seu redor e replicando o efeito positivo das Expedições.

Além da mentoria, toda Expedição tem um papel importante no movimento da economia comunitária, por isso sempre prezamos por fornecedores locais. No caso da Amazônia, mais de R$ 25.000 já foram injetados na região por meio da contratação de serviços e compra de produtos na comunidade, que é um número bastante representativo considerando o contexto local.

O Instituto Vivalá se sustenta e alcança mais comunidades brasileiras a partir do envolvimento de pessoas como eu e você. Se quiser acompanhar nossas ações e mesmo participar de uma Expedição, deixe seu contato aqui. Se quiser investir nos Empreendedores locais e no nosso trabalho de Capacitação, temos uma plataforma de investimento disponível para que você contribua com a quantia que desejar e receba mensalmente um informativo sobre o aproveitamento desse dinheiro.

E se quiser discutir sobre turismo com causa, compartilhar suas experiências e se unir ao Instituto Vivalá e ao Antility para irmos bem mais além, use a tag #VivaACausaLá e convide o Instituto Vivalá no Facebook e no Instagram para as suas discussões.

Eu sou @mmarinalourenco no Instagram e marina.lourenco@institutovivala.org no email :)

ANTILITY

Uma organização focada em impacto social que planta conteúdos + humanos, acolhedores e conscientes. #antility

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