“Página Infinita” ou o futuro das histórias em quadrinhos

O conceito página infinita pode ser a solução pros quadrinhos digitais.

Webcomics são os quadrinhos disponíveis em plataformas digitais como navegadores, celulares e e-readers. Surgiram por volta dos anos 90, quando a internet ainda engatinhava, em sites de jornais escolares nos EUA e logo surgiram os primeiros domínios que já mostravam tiras feitas exclusivamente pra web. Por volta de 2004, 2006 com o advento das redes sociais, os quadrinhos digitais ganharam espaço e hoje são responsáveis por cerca de 30% do mercado segundo o Comixology, o maior site de vendas de quadrinhos digitais no mundo.

A primeira webcomics de muitos no Brasil foram os Combo Rangers | Fonte: Fabio Yabu (Divulgação)

No Brasil já tivemos grandes títulos como Combo Rangers de Fabio Yabu e Necronauta de Danilo Beyruth, mas não existe ainda um costume de se ler quadrinhos no celular ou no navegador. Muitos leitores criticam esse tipo de material, principalmente, por ser de difícil acesso e a leitura ser cansativa. O que é irônico dado o tempo que passamos diante do absurdo de tempo que passamos olhando para telas.

Pode se dizer que até hoje o autor brasileiro não deu o verdadeiro primeiro passo para as publicações digitais. Mais de 90% dos materiais brasileiros publicados na web hoje são apenas adaptações de materiais impressos, basta ver sites como Social Comics e entender o que estou falando. Projetos específicos da plataforma: os “Originais”. Que acabaram seguindo a mesma formula de simular impressos e evidentemente, mas infelizmente, não foram pra frente por não serem pensados como impressos e morreram no sonho de ser impressos.

Mas nem todos pensaram assim. Houve um certo Scott McCloud e sua proposta de página infinita.

A página infinita de Scott McCloud

Em seu livro Reinventando os Quadrinhos, lançado no ano 2000, o quadrinista e pesquisador Scott McCloud sugeriu que os criadores de conteúdo na web poderiam criar páginas tão grandes que fosse possível uma criar quadrinhos de qualquer tamanho. Essa tela infinita criaria uma quantidade infinita de quadros e permitiria que aos criadores muito mais liberdade na maneira como apresentam suas obras de arte.

Como dito no inicio do artigo, normalmente as páginas são pensadas em um layout que se encaixe em uma impressão posterior. Isso os força a usarem poucos quadros por pagina ou até mesmo limitar a narrativa. Quando são transpostas para o digital, normalmente, essas páginas de tamanho limitado e que abusam de hyperlinks, ou cliques, para avançar a história servem apenas para tirar o leitor da experiencia que você está propondo. E não, não é a mesma coisa que virar uma página. Vamos ser honestos.

Até a metade da década passada se acreditava que essa proposta de tela infinita era inviável, por mais que as diversas experiencias já usassem de animações em flash, GIFs ou mesmo músicas pré-programadas que tocavam para dar dinamicidade, ainda não era a mesma coisa. Nesse tipo de projeto o tempo que o leitor passa na página (ou janela) é o mais importante.

A maioria dos especialistas e pesquisadores de quadrinhos acreditam que McCloud na verdade estava discutindo sobre o potencial do meio e não necessariamente o que as webcomics seriam ou poderiam ser. A prova disso é que em 2008 em uma entrevista o autor afirmou que estava na verdade: “atirando para a Lua, na esperança de que pudéssemos criar essas rupturas com o quadrinho tradicional” para ele “a maioria dos quadrinhos online ainda é bastante conservador em formato e estilo”.

Anos mais tarde, em 2014, durante uma nova entrevista sobre o assunto ele foi mais incisivo:

“sem uma estrutura financeira confiável para apoiar esses webcomics experimentais, muitas pessoas simplesmente se afastam e conseguem um emprego comum, ou começam a fazer tiras que os amordaça a três painéis. Ela tem um desempenho aquém do esperado”.

Pra quem acha que consegue existe um desafio da página infinta nos site de McCloud. Lá ele propõe regras a seguir para se obter uma genuína “infinite canvas”.

Bom, mas para o autor quem conseguiu de forma mais efetiva até agora chegar no que poderia ser a “tela infinita” foram os webtoon coreanos. E é eles o tema do texto e é sobre eles que vamos falar agora.

Como Coreia do Sul influenciou as webcomics pra sempre?

Webtoon é um termo criado da contração das palavras web e cartoon. Esse é o termo usado para qualquer produção de quadrinhos voltada para plataforma digitais na Coreia e uma das suas principais marcas é a construção da narrativa na vertical. O que encaixa perfeitamente com os periféricos digitais de hoje como tablets e smartphones e explica muito do seu sucesso.

O maior diferencial de Webtoon para um quadrinho comum é o espaço flexível da caneleta. Ela se expande indefinidamente e é comum que texto, recordatórios, diálogos e narrativas em off esteja fora do quadro. A deslocação deixa os painéis menos carregados e permite que o leitor se concentre nas imagens. A implementação separada de textos na canaleta também pode fornecer efeitos diferentes em contextos específicos como, por exemplo, se um personagem explica algo e o texto é colocado fora do painéis esse texto proporciona visualmente a sensação de que o narrador está em primeira pessoa e em terceira pessoa ao mesmo tempo.

Normalmente um painel longo indica um período de tempo elevado, enquanto painéis extremamente curtos em sequencia indicam um período de tempo curto e intenso, normalmente usado para situações de suspense e/ou repletas de ação. Como a experimentação aqui é no meio vertical e extremamente longo, numa proporção de 1:8, ele oferece a sensibilidade de tempo e espaço que não pode ser expressa em quadrinhos impressões, pois haveria a preocupação com o espaço.

A navegação na web depende muito de rolar para baixo é o chamamos de “feed roll” atividade de smartphone consagradas pelas redes sociais como Twitter, Facebook e Instagram. Já virou algo inerente na experiencia de usuário e os autores percebendo isso desenvolveram a narrativa com os paineis funcionando de alto a baixo criando uma nova e melhor experiencia de leitura.

Days of Hana de Seokwoo | Fonte: Webtoon (Divulgação)

E nossa como eu adoraria conversar com um UX Designer sobre essas possibilidades em quadrinhos. Quem tiver ai é só chegar!

A grande saca disso tudo é a “responsabilidade” nos dispositivos. Aplicativos de leitura como Comixology que usam versões digitais de quadrinhos impressos sentem dificuldades no ajuste aos mais variados dispositivos parece que eles encolhem quadrinhos para leitura de painel para painel. Já aplicativos webcomics é possível se ler naturalmente em praticamente qualquer espaço de tela disponível.

Hoje dois são os maiores portais de quadrinhos digitais no mundo: LINE Webtoon e TAPAS. O primeiro bancada pela gigante de tecnologia coreana LINE e a segunda uma startup americana com sede em São Francisco. Mas eu irei falar mais das duas na continuação desse artigo onde vou falar sobre novos modelos de negócio digitais.



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