Sombras — Parte I

Depois de algum tempo sem nenhum projeto, tanto musical quanto escrito, decidi começar uma estória pequena, talvez com 3 capítulo, juntando as influencias e referencias que mais gosto, incluindo música, literatura, psicologia e cinema, optei também por dar enfase na narrativa de cenas por achar que fica mais “cinematográfico nos limites da leitura”. Para os fãs de Poe, Kubrick, Thin Lizzy, Jung e de acima de tudo ter a mente aberta para a leitura e todos os universos distópicos que a acompanham.


O vento soprava forte e o barulho ecoava pelos chanfros da janela, com aquele uivo característico das noites frias. Ela prestava atenção na madeira rangendo, com o reflexo do fogo reluzindo na sua espada, já com marcas dos anos em que foi a responsável por manter sua portadora com o máximo de pedaços quanto fosse possível, mas ocasionalmente era inevitável adquirir cicatrizes e marcas, por menores que fossem, e simplesmente assim os dias aconteciam.

Fazia uns bons cinco ou seis dias desde que chegara até a cabana à espera de um grupo de foras da lei estereotipados que haveriam de passar por aquele lugar de acordo com seu informante, mas talvez ele não fosse tão bem informado assim ou então talvez os filhos da puta só teriam mudado seus planos de fazer a baderna de assaltar o banco daquela jurisdição da mesma maneira como haviam assaltado todos os outros 7 até então. Fizeram isso sem deixar muita coisa para trás a não ser a bagunça de sangue e tripas nas paredes com os dizeres “Nós vemos tudo”. Ela se levanta calmamente da cadeira e se espreguiça quase como um gato, espichando o corpo esguio e alongando os braços que haviam ficado estranhos por conta da postura errada e do frio insuportável da noite. Ajeita de forma segura o casaco comprido e com alguns rasgos e olha de forma indecisa para sua arma, a espada reluzia a brasa do fogo e se destacava entre todos os poucos objetos que haviam naquele lugar, após alguns segundos fitando-a, decide-se por empunha-la no saya, a forma como os japoneses descreviam a bainha das espadas tradicionais, e por fim ela se dirige a porta abrindo-a e percorrendo o curto trajeto até a estrada.

Podia-se ouvir o distinto barulho da risadaria e das conversas típicas de um grupo de pessoas caminhando durante a noite, talvez voltando de alguma festa daquelas que se dá no interior, ou talvez fosse um grupo de baderneiros rumo ao próximo massacre, não havia como ter certeza ainda e a melhor maneira seria esperar passarem, e foi justamente isso o que Ela fez. Esperou uns bons vinte minutos ouvindo os sons distorcidos trazidos pelo vento soprando forte… Era um bando de jovens rindo e zombando dos anos que ainda haviam de vir, como se fossem viver para sempre e de fato iriam, pelo menos por aquele dia. Fitando-os, Ela dá-se por conta de um comprimento cordial e alegre de uma das meninas incluída no grupo e involuntariamente responde-a com um sonoro boa-noite, suspirando sentando-se no chão fitando a noite escura e estrelada.

Ah se todas as noites fossem simples quanto essa, onde se sentar na grama fria e olhar para o céu com a mente vazia e escutar o barulho das corujas e dos gatos-do-mato caçando e entender como as coisas são frágeis por mais duras que se pareçam, ah se todas as noites fossem assim pensou, ficando alerta para um barulho apressado típico de trote de cavalos, mas não de uma forma organizada, era um trote decido, quase como que incitando algo vil. Haveria necessidade de ficar-se alerta ela pensou? Mas que pergunta boba para uma mulher tão vivida e cheia de bagagens, sempre se havia necessidade de ficar alerta e de vigiar, e foi justamente o que Ela fez. Prestando-se de pé e buscando uma posição estratégica para o que quer que viesse em sua direção. Ficou entre atrás de uma arvore para observar e ter uma visão com vantagem do que quer que fosse e aguardou os instantes da aproximação. Sua respiração era pesada mas lenta, quase como que se preparando para um mergulho fundo, a concentração era a de um gato, com os olhos fixos no ponto da intersecção da estrada. O barulho aumentando, o chão tremendo cada vez mais e por fim o contato visual. Todo esse tempo e Ela havia encontrado o que buscava.

Eram cerca de 9 pessoas pelo que seus instintos iniciais perceberam, talvez fossem menos ou talvez fossem mais, mas de qualquer forma daria conta, pareciam cansados e desleixados. Além do mais não poderia se dar ao luxo de ver aqueles filhos da puta e não tentar impedir uma eventual carnificina, o único sangue que não fazia a menor questão de ter nas mãos era o sangue daqueles que não poderiam se defender e não tiveram escolha nenhuma. Desembainhou sua espada no ritmo da inspiração e avançou em um pulo rápido contra o que julgou mais forte entre todos para tentar evitar uma complicação futura, era só uma sabedoria de precaução claro, mas isso não impediu-a de cravar sua catana e sentir o corpo dele se abrindo como manteiga, com respingos do sangue e da sujeira das tripas caindo no chão junto com o corpo aberto do pobre coitado. Foi um instante importante, mesmo para um bando de matadores e causadores de carnificina natos não é normal ver um corpo se rasgando no meio quando julgavam estar seguros, e era justamente isso o que Ela queria. Todos os outros desceram dos seus cavalos gritando de forma um pouco apavorada e um pouco divertida. “Mas que porra? Tu foi enviado pelo Tetragrandemon?” Disse um dos homens sem se dar conta de que era uma mulher no fim das contas.

Ela respondeu com uma voz calma mas sem deixar de ser zombada que talvez não tivesse sido enviada pelo clã oculto, mas que talvez tivesse, tudo dependia das duvidas que eles tinham sobre o que havia ocorrido. Foi uma jogada inteligente, percebia-se que haviam uma culpa sobre algo que não deveria ter ocorrido e era esse o grande mistério no fim das contas, que porra de significado poderia haver em “Nós vemos tudo”?

A resposta veio logo em seguida, outro homem saltou a frente e respondeu “Não tivemos nada a ver com os sinais e os corpos retalhados! Nosso trabalho era simplesmente pegar o dinheiro, deixar as pessoas vivas e retornar para quem havia nos contratado, diziam que o dinheiro pertencia a eles originalmente e que alguém havia roubado, uma organização que nem mesmo nossos contratantes sabiam da existência, não temos motivo pelo qual não queiramos ter o reconhecimento de um feito, a não ser que não tenhamos o feito, entende não é? ”

Ela fita o homem de forma séria, no fundo sabia que poderia ser verdade, de todos os 8 integrantes daquele grupo, que conseguiu contar agora de forma precisa e calma, contando o que retalhou no meio, somente dois eram reconhecidos como assassinos ou bandidos que deveriam ser levados a sério, e um deles já estava pela metade com as tripas de fora. O outro estava no alcance, cerca de uns 2 metros. Pensou por um instante, que mais pareceu uma eternidade e ao acabar desferiu um golpe cortando a jugular daquele pobre filho da puta tão rápido quanto um piscar de olhos e sem sujeira nenhuma dessa vez, enquanto olhava para o homem que havia acabado de lhe dirigir a palavra. Olhou dentro dos olhos de cada um enquanto voltava a empunhar com as duas mãos a catana e observando três homens vindo correndo em sua direção, um deles parecia mais preocupante que os demais pelo fato de empunhar duas laminas, detestava armas mais rápidas que a sua catana pois mesmo que conseguisse desviar de um golpe as chances de o outro a acertar eram enormes. Deveria focar-se nele primeiro e pelo menos debilita-lo no menor número de golpes.

Pegou impulso com o pé direito e tentou ir perpendicularmente ao babaca que estava a esquerda do alvo, não deu muito certo, o terreno era irregular e havia buracos na terra mas mesmo assim conseguiu sair da frente dos três na urgência da situação e por situar-se mais em direção a esquerda mas ainda na linha de um possível golpe tentou dar uma rasteira no homem pelo qual passou. Ele caiu no chão um pouco atordoado e foi o tempo necessário para dar um pulo de gato e enfiar a espada verticalmente pelo trapézio do homem com as laminas duplas. Na sua cabeça ela gritou um “caralho vai se foder, eu consegui de primeira” enquanto rasgava a carne já sem vida e virando em direção ao outro oponente, mas sem conseguir impedir o golpe da faca que passou de raspão pela escapula. Doeu, doeu para caralho e o sangue quente contrastava com a fumaça que saia pela boca e com o vento gelado da noite, mas nem de longe era um ferimento preocupante, não ainda pelo menos. Com os olhos fixos no homem que havia ferido-a percebe que era um garoto, devia ter seus 17 anos, ostentava algumas cicatrizes e pela postura também não era iniciante nas brigas, pela leitura do golpe talvez até tivesse tentado o golpe do degolamento invertido, a sorte que foi com a arma errada. O garoto joga sujo e chuta a terra fazendo a poeira levantar por uns instantes e partindo para cima Dela mas que com um esquivo o faz passar a poucos centímetros de distância, o suficiente para cortar o pé com um golpe rápido e se preocupar com os outros, mas parece que quase todos haviam fugido ao constatar que a certeza de continuar era a mesma de encontrar a morte, exceto o que parecia ser a única mulher do grupo.

A mulher não era tão alta nem esguia nem exótica quanto Ela, mas pelos trajes se passava despercebida por um homem, um disfarce útil para estes trabalhos. Mas apesar dos fatos, não podia-se negar que ela não havia truques na manga, literalmente. Tirou de dentro do casaco o que parecia ser um revolver, importado da América. Uma arma literalmente rápida para caralho, qualquer erro poderia significar um ferimento tão ruim quanto o do garoto que teve o pé arrancado, mas ao invés do esperado acontecer, a mulher joga o revolver no chão e se apresenta. “Não tenho intenções de entrar em uma briga com armas, na verdade pretendo oferecer tudo o que sei até agora e descobrir o significado disso tudo, mas obviamente não vou fugir de uns tapas se você não estiver disposta a conversar e descobrir o que tem no fundo dessa merda toda, a proposito me chamo Maria…”

Ela prontamente respondeu “É engraçado ver que nem todo mundo pensa com a cabeça do pau, se esses retardados não tivessem ficado putos com os dois cadáveres todos estariam inteiros e aquele moleque ia andar direito ainda, mas… Acho que tu merece mais credito do que recebeu, conta o que tu sabe que talvez eu te fale meu nome, tem fogo e abrigo na cabana que eu estava esperando vocês cruzarem, antes só peço ajuda para levar ele junto e ver o que pode ser feito, apesar de todo o sangue perdido.”

As duas com certo esforço levaram o rapaz para dentro da cabana e deixaram a bagunça para trás, um bilhete rubricado com uma flor identificava a autora como Ela, como uma forma de comunicação rudimentar com a policia local. Dentro da cabana parecia que o tempo havia parado e esses 75 minutos que se passaram desde que havia saído pela porta pareciam nem ter existido, estava aconchegante e quente, com o fogo ainda vivo fazendo as sombras dançarem. A ação mais essencial para o momento era cauterizar o corte do garoto e evitar que infeccionasse ou que continuasse sangrando, o corte era tão limpo que parecia cirúrgico mas os problemas certamente não eram. Foi colocado um ferro no fogo, o qual foi esquecido por alguns minutos até ficar vermelho a ponto de servir de cauterizador. Ela colocou uma cinta de couro na boca do rapaz que nessa altura já estava sonolento e só ordenou que mordesse forte, quase que junto com a sibilancia característica das coisas frias em contato com o fogo ardente e um urro desesperado. Ele desmaiou Ela falou, agora á nossa conversa.

Continua…