Criptoeconomia: "Bitcoin cash" é mais uma aposta em redes de blockchain que centralizam poder para sobreviver.

Bitcoin atualmente é avaliada em 54 bilhões de dólares, porém ainda é um ativo em um mercado de nicho. Depois de 2 anos de disputa sobre como tornar o bitcoin acessível para um maior número de pessoas, uma parte da comunidade resolveu lançar uma nova moeda que se autodenomina uma continuação da moeda original: O Bitcoin Cash (BCH).
No dia primeiro de agosto de 2017, esta nova moeda foi criada como um “clone” e, todos os proprietários de Bitcoin, receberam a mesma quantidade em Bitcoin Cash (alguns proprietários de bitcoin não devem ter acesso, pois utilizam carteiras terceirizadas que não distribuíram para seus clientes, em algumas vezes não apoiaram este movimento ou podem estar apenas recolhendo estes novos valores para si próprio). O valor de mercado do Bitcoin Cash já é o quarto maior entre as criptomoedas. Mas, ainda há incertezas sobre o que irá ocorrer nos próximos meses com esta nova moeda, que nasceu com o objetivo de fortalecer a tecnologia usada nos blocos, que são responsáveis por registrar as transações. Uma das metas técnicas do Bitcoin Cash, talvez uma das mais importantes, é aumentar o número de transações por segundo na rede.
Para se ter ideia, atualmente a Visa realiza em média 2.000 transações por segundo, sendo que o Bitcoin registra em média 4 transações neste tempo. A ideia com o Bitcoin Cash é que o número de registros aumente para, pelo menos, 30 operações por segundo.
O desafio
Nesta foto, estão nada mais do que 90% dos mineradores do Bitcoin no final de 2015.
Que descentralização é esta? São eles os responsáveis pela "estabilidade".
Se alguns mineradores de Bitcoin desta foto, unidos, realizarem um “ataque de 51%” (tomar decisões que só possam beneficiar eles de alguma maneira) ninguém poderá segurar eles.
A grande questão será que, com os incentivos econômicos que recebem, dificilmente irão obter lucro neste movimento, isto porque a estabilidade é a principal missão para estes que centralizam, de certa maneira, o poder de registrar os blocos na blockchain do Bitcoin.
A arquitetura do blockchain foi desenhada para mercados com oligarquias, se faz necessário construir estratégias para combater esta falha.
Blockchain sozinha não consegue lidar com os humanos.
Atualmente, blockchain é falado por muitos como uma esperança ao comportamento humano. É algo que a maioria dos especialistas leva como “amor” e “promessa” de um mundo descentralizado e justo, com projetos que acontecem ao redor do mundo — provando que uma nova maneira de organização em rede é possível.
Há uma crença enorme, já que esta tecnologia é utilizada em grandes projetos cercados por desafios de usuários de identidade anônima, hackers, golpistas, piratas, trolls, criminosos e muito mais. E, ainda assim, se prova confiável ao conseguir uma única coisa: Provar que todas as transações realizadas por esta rede, no passado, são verdadeiras.
Projetos de moeda virtual, as criptomoedas, como o Bitcoin e o Ethereum, provam que podemos criar um protocolo de convivência em uma comunidade, com incentivos à estabilidade, utilizando as melhores técnicas de teoria de jogos e econômia.
Criptoeconomia refere-se às combinações de criptografia, redes de computadores e teoria de jogos que fornecem sistemas seguros que exibem algum conjunto de incentivos e econômico.
Descentralização não funciona por si só. O consenso é fundamental.
Incentivos são um componente central da teoria dos jogos e da economia para desenvolver o comportamento humano em direção a um bem comum. Para esta discussão, sobre economia digital descentralizada, irei abordar o problema dos generais bizantinos, inspirado em um artigo do Kyle Wang.
O glorioso exército bizantino que cercou e sitiou um castelo e era necessário chegar a um consenso entre generais que comandavam, individualmente, diferentes unidades do exército. Em um determinado momento, eles precisavam decidir: atacar ou refugiar-se de forma coordenada. Para o bem comum, era necessário um consenso e evitar um ataque fraco que poderia resultar em perdas importantes. Ao mesmo tempo, havia um número desconhecido de generais traidores nas fileiras bizantinas, que não gostariam de nada mais do que o ataque terminasse de maneira desastrosa e poderiam enviar mensagens conflitantes com a intenção de sabotar a estratégia.
Veja o problema: Em um sistema onde o consenso é fundamental, como um acordo unânime pode ser alcançado com bons processos, na ausência de confiança? Como esses generais podem superar os traidores e alcançar uma decisão coordenada e majoritária?
Em ciências da computação, a resistência de um sistema para falhas de componentes defeituosos, que impedem que outros componentes críticos alcancem um consenso necessário, é denominado : Tolerância a Falhas Bizantinas (BFT).
Por qual motivo isto é relevante no ecossistema de redes que se baseiam em blockchain?
Em moedas virtuais, caso não exista uma estratégia para lidar com BFT, simplesmente não haveria chances reais de continuidade. Seria impossível saber quais transações seriam reais, teríamos que acreditar sempre na maioria, tornando “ataques de 51%” em uma possibilidade real e tentadora para aqueles que detêm o poder.
A resposta da Bitcoin ao problema dos generais bizantinos foi o protocolo de prova de trabalho (PoW). A idéia principal deste protocolo é dificultar que alguém manipule uma votação de consenso criando despesas significativas de recursos (reputação da moeda, tempo, eletricidade e poder de processamento). Estes incentivos servem para encorajar os participantes a manter o protocolo.
Os “mineradores” de Bitcoin (pessoas que efetuam o registro destas transações), são incentivados com uma recompensa de alguns bitcoins e taxas de transações sempre que aplicarem seu poder de computação e postarem corretamente as transações verificadas na cadeia de blocos. Esta gratificação é temporária e gradativamente reduzida — este fenômeno é chamado de “Halving” — .
Os mineradores cumprem um papel crítico e fundamental no ecossistema da criptomoeda Bitcoin, validam e verificam as transações e recebem incentivos econômicos para isso.
Outro processo que é interessante comentar e da criptomoeda Ethereum, onde este processo é mais complexo, com um Protocolo de Prova de Participação (PoS), que estabelece punições que desestimulam atividades maliciosas.
É possível desenvolver redes de blockchain sem incentivo?
É bem provável que quase todo novo bitcoin seja descoberto por estes grupos organizados, aumentando a probabilidade de “ataques de 51%” . Porém, estes grupos possuem incentivos econômicos para não contrariarem a reputação da própria rede.
O Decred é uma criptomoeda aberta e progressiva com um sistema de governança baseada na comunidade integrado em sua cadeia de blocos, e que anunciou recentemente um sistema de propostas que permite aos usuários participarem da governança, um marco muito importante para descentralizar na prática o poder das redes de blockchain nas criptomoedas, assim fazendo com que de fato todas as partes interessadas possam votar nas mudanças do protocolo.
Para criar um sistema sustentável de governança, criamos um projeto de Constituição e ampliamos a noção de "hibridação" de consenso para se aplicar de forma mais geral como uma das várias camadas em um sistema de consenso estratificado. Essa estratificação permite que vários grupos de partes interessadas tenham representação em várias camadas de consenso.
— Jake Yocom-Piatt (Desenvolvedor do Decred)
É possível acompanhar o processo de votação em uma interface: https://voting.decred.org/
Silvio Micali, professor no MIT, afirma que incentivos devem ser o último recurso para serem usados em redes de blockchain, pois podem criar questões negativas para lidar, tais elas como a centralização de infraestrutura, assim como ocorre atualmente no Bitcoin.
O professor sugeriu o “Algorand” em que os usuários nunca tenham visões divergentes de transações confirmadas, mesmo que alguns usuários sejam maliciosos e a rede seja particionada.
Devemos apostar em novas redes de incentivo, e não em novas redes de blockchain que se utilizam de incentivos centralizados.
O fato é que sistema de incentivos em redes de blockchain, mesmo que não perfeitos, conseguiram se manter funcionando de maneira “independente”, utilizando criptografia para garantir o passado e economia para assegurar o futuro.
Quando lidarmos com democracia, participação popular, teremos que usar criptomoedas como infraestrutura ou será possível novos tipos incentivo para sustentar novas estruturas de redes blockchain ?
Incentivo à participação é a aposta do Ethereum: Casper
O exemplo do PoW — o protocolo de trabalho do Bitcoin — tem uma regra simples que é incentivar os mineradores a jogarem de maneira justa e validar transações corretas, ou então eles perderão dinheiro. O resultado é que os mineradores vão agir de maneira correta para receber dinheiro.
Há um consenso por muitos de que até este momento, este protocolo se provou que pode criar redes seguras (concorrência de mineração vinculada à lei de Moore que levou à regulação natural de mercado), mas alguns estão ansiosos por descentralizar este poder e obter soluções mais ecológicas.
Bitcoin e Ethereum juntos consomem tanta energia quanto a Croácia ou a Túnisia, para processarem apenas 500.000 transações por dia, estamos falando que para uma única transação é gasta energia suficiente para até 4 dias de família americana. Para acompanhar melhor o consumo de energia de ambas as moedas, veja estes gráficos atualizados diariamente para bitcoin ou ethereum.
Desenvolvedores vem há muito tempo trabalhando em um novo modo de aliviar o custo de transação em energia, e também evitar que exista grandes empresas e indústrias trabalhando e ganhando dinheiro para simplesmente concorrerem entre si, e desperdiçar este poder computacional.
Apesar de parecer óbvio o problema, a solução requer muito cuidado e ainda não há um consenso de como isto pode funcionar na prática, devido à nossos instintos humanos. Conseguir que a maioria dos participantes sejam apenas honestos, pode ser uma dos pesos desta nova conta ?
Para este desafio que está sendo desenvolvida o Casper, que é um protocolo de consenso econômico baseado em depósitos de segurança. Isto significa que os nós, os chamados validadores vinculados, devem colocar um depósito de segurança para servir como consenso.
Nesta lógica, qualquer um pode participar e você tem a oportunidade de apostar em qual bloco irá seguir, e os incentivos são baseados na possibilidade de você ganhar dinheiro seguindo quem está realizando de maneira correta, ou perdendo dinheiro se seguir errado o consenso.
Esta lógica evita o poder econômico para consenso, é um protocolo que é eventualmente consistente com base no teoriame CAP (Consistência, Disponível e tolerante a partição). Ou seja, precisamos de 51% dos usuários com interesse em manter a rede consistente.
Sistemas de incentivos são escaláveis ?
A grande questão de redes blockchain é o número de tipos de ataque que eles estão sujeitos, pois com dinheiro e tempo suficiente, um ataque sempre irá poder causar danos em uma rede blockchain. A criptoeconomia funciona, pois ela tem uma regra básica: tornar os ataques tão caros, difíceis e indesejáveis o que torna praticamente impossível o interesse de alguém com tempo e dinheiro.
O bitcoin cash terá como grande desafio nos próximos meses, adquirir um ecossistema próprio e talvez provar que o aumento da sua capacidade transacional realmente seja um valor para a existência da moeda em si, assim como também para novos usuários.
Porém, esta ignorando a necessidade de uma nova política de governança, e não há sinais de uma virada de jogo para o gasto em consumo elétrico para que de fato possa expandir.
Não temos ainda uma criptomoeda acessível para um público mais amplo, e que também possamos apostar, sendo que as perguntas para os próximos passos do bitcoin cash talvez sejam apenas no campo de valor econômico para que ela se mantenha viva:
- Quem serão os mineradores desta nova moeda ? Será possível criar um novo ecossistema e um novo mercado ? Parece que sim, há muita gente disposta em criar infraestrutura para tal propósito.
- Apenas maior capacidade de transação, pode representar novos modos de incentivos ? Não acredito, pois ainda irá haver centralização de poder nos blocos.
- Plataformas que oferecem extensão de uso, como a Counterparty e a Omni escolheram qual das duas cadeias ? Eventualmente, a que for mais barata.
Apesar do bitcoin cash ainda ser muito recente, acredito que ainda é apenas uma nova moeda que esta mantendo as mesmas oligarquias da moeda bitcoin.
Eventualmente, pode ser comprovado que apenas os grandes centralizados do bitcoin estão de fato de beneficiando da nova moeda bitcoin cash.
Para que as criptomoedas sejam acessíveis para um público maior, se faz necessário uma evolução de governança e a diminuição da necessidade de poder computacional para geração de blocos.

