Robôs: eles podem substituir você?

Por Anna Carolina Oliveira

Existe um fato curioso a respeito dos flocos de neve: apesar de parecerem todos iguais, revelam diferentes estruturas de cristais quando observados através da lente de um microscópio. De longe, não passam de pequenos pontos brancos. De perto, são quase únicos. Esse conceito teria inspirado o surgimento da expressão “special snowflake” — em português, “floco de neve único -, que se refere à pessoa que acredita merecer tratamento privilegiado por conta de suas características ou atributos supostamente únicos. Alguém que pensa ser muito especial, mas, na verdade, é um dos muitos flocos de neve que caem no inverno. Em tempos de discussões — e preocupações — sobre a substituição da mão de obra humana pela automatização, tal expressão idiomática parece sintetizar uma crença generalizada. Diante de todo o potencial tecnológico, o ser humano parece agarrar-se ao sentimento de ser especial e insubstituível. Não é o que algumas pesquisas e dados de mercado mostram.

De acordo com um trabalho dos pesquisadores Daron Acemoglu, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Pascual Restrepo, da Universidade de Boston, a cada novo robô introduzido em uma fábrica, a taxa de emprego nos Estados Unidos sofre uma redução de 5,6 trabalhadores. Já no cenário global, um estudo do Citibank em parceria com o Oxford Martin School, centro de pesquisa da Universidade de Oxford, mostra que 57% dos empregos são suscetíveis à automação — e essa porcentagem não abrange somente as atividades consideradas mecânicas.

“A revolução do Big Data e as melhorias nos algoritmos de machine learning significam que mais ocupações podem ser substituídas pela tecnologia, incluindo tarefas uma vez consideradas essencialmente humanas, como dirigir um carro.” — Relatório Technology at work: V2.0

Robôs, como o Da Vinci, que fazem procedimentos cirúrgicos; que recepcionam hóspedes no hotel Henn-na, na cidade japonesa de Nagasaki; que dão aulas na University Technical College, em Londres; e que trabalham como bartenders no Robots Bar and Lounge, na cidade alemã de Ilmenau, são alguns exemplos dessa revolução. Há também empresas como a Work Fusion, que vende software para automatizar tarefas não rotineiras. Funciona assim: o programa fraciona os encargos de uma função, assimilando primeiro as tarefas rotineiras e, depois, observando o dia a dia de um freelancer contratado para “ensinar” a máquina as particularidades daquele trabalho e, então, treiná-la para substituí-lo.

Ocupações consideradas mais criativas e artísticas não estão a salvo. Programas de computador já conseguem compor música, criar receitas de drinques e de pratos, escrever textos jornalísticos e até pintar obras de arte, como uma tela à la Rembrandt criada somente com o uso de análise de dados e uma impressora 3D. Há quem acredite que a discussão é sobre quando todas as áreas serão dominadas pela tecnologia, e não quais atividades serão automatizadas. No livro Robots Will Steal Your Job, But That’s OK, o futurista italiano Federico Pistono defende que, na verdade, algumas funções mais especializadas devem ser substituídas antes das operacionais por questões econômicas. Ele compara a atividade de um radiologista a de uma diarista: automatizar a análise de imagens é “mais fácil” e traz um retorno financeiro mais interessante do que criar a Rosie, do desenho Os Jetsons. Esta empreitada consistiria no desenvolvimento de um robô com habilidades motoras sofisticadas, reconhecimento do ambiente em 3D e baixo consumo de energia — tudo isso a um custo reduzido para viabilizar a comercialização do produto.

Realidades como essas costumam provocar certa ansiedade em muitas pessoas e algumas escolhem fugir da conversa com o argumento de que o ser humano é muito especial para ser substituído por completo. Se você acredita ou não na automatização completa, não parece tão importante diante de um questionamento maior: no nosso dia a dia, agimos, de fato, como seres únicos e insubstituíveis? Talvez, o grande embate provocado pela revolução tecnológica seja, no fundo, com o nosso ego

Em uma rotina de trabalho de oito horas diárias na teoria e muito mais na prática, com metas agressivas e equipes cada vez mais diminutas, parece não sobrar tempo ou energia para explorar o nosso potencial. Talvez, o ser humano até tenha capacidades incríveis que nenhuma máquina ou software jamais será capaz de reproduzir, mas, sendo honestos, nós hoje atuamos como essa pessoa tão habilidosa? Mais do que causar pânico, a ascensão das máquinas convida a reflexão sobre o quão bem desempenhamos nosso papel, o quanto investimos no desenvolvimento profissional, o quanto mostramos a nossa estrutura diferenciada e não parecemos apenas um mero floco de neve no meio de uma tempestade.

Foto: Many Wonderful Artists, no Flickr

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